“THUNDERBIRDS EM AÇÃO!”
Os anos de 1960 foram muito bons para ser criança!
As emissoras de TV e de rádio tinham programações de excelente qualidade, as escolas públicas eram como segundas casas, complementando a educação familiar com conhecimento secular útil. As famílias eram mais unidas, as crianças brincavam democraticamente nas ruas, sob o olhar atento de pais que colocavam cadeiras nas calçadas e conversavam amigavelmente com vizinhos.
Os domingos eram dias de ir à missa e visitar avôs. Quem falava palavrão perto da mãe tinha a boca lavada com sabão.
Quando chovia, a solução era ficar em casa e ver a única televisão disponível, comprada após muita economia.
Como tive bronquite até os seis anos, minha participação nas brincadeiras de rua era limitada. Os brinquedos também, mas eu tinha um em especial: um “jogo de armar casinha”, blocos de madeira que devem ter sido minha primeira inspiração para a engenharia.
Desde cedo, aprendi a fazer várias coisas ao mesmo tempo; uma delas era assistir TV.
Na época passavam séries até hoje reverenciadas, mas os desenhos eram especiais.
Produções desde a década de 1930 eram exibidas, com enredos positivos e instrutivos e músicas que eram cantadas com bolinhas pulando sobre as sílabas em inglês.
Os desenhos animados não tratavam as crianças como idiotas. Tinham temas tão interessantes, personagens tão cativantes e dublagens tão bem feitas que até os pais assistiam com prazer.
Um de meus preferidos era Jonny Quest, mas o “hors concours” era uma animação com marionetes: O “Thunderbirds em Ação”, série britânica produzida entre 1965 e 1966.
Os produtores já vinham acumulando experiências desde a década de 1950, em contínuo aprimoramento. Foram várias séries anteriores e posteriores, porém, Thunderbirds, para mim, foi seu ápice!
Cenários, veículos e equipamentos eram de uma perfeição e realismo impressionantes. Os personagens eram bem caracterizados, tinham “personalidade” própria e eram manipulados com maestria.
Na época, havia preferências individuais, mas ninguém recusaria o 1 (avião-foguete), 3 (foguete interplanetário), 4 (submarino), 5 (estação espacial), o “Rolls-Royce” de Lady Penelope ou o multifunção 2, com seus múltiplos contêineres, cada um com um equipamento específico.
Cada Thunderbird era pilotado por um dos cinco irmãos Tracy: Scott (1), Virgil (2), Alan (3), Gordon (4) e John (5), membros do “Salvamento Internacional”, sediado numa ilha totalmente tecnológica, sob comando de seu pai.
Na falta de dinheiro para comprar esse tipo de brinquedo, passei a fabricá-los com o que encontrava no lixo.
Minha vontade de ser engenheiro e as primeiras noções de logística reversa e de sustentabilidade foram ainda mais evidenciadas, tendo Brains, engenheiro da equipe, como uma referência.
Em 2004, fizeram um filme sobre essa animação. Foi um desastre total de enredo, efeitos especiais e elenco! Nem Dennis Quaid se salvou. Quem conhecia detestou. Quem conheceu não teve a mínima noção do que essa série representou para as crianças e adolescentes, que também cresceram ouvindo os Beatles, Rolling Stones e o que a MPB tinha de melhor, num tempo em que as dublagens eram feitas por artistas de primeira linha e as rádios tocavam músicas em português, inglês, espanhol, francês e italiano.
Vi um documentário no qual os responsáveis pela série visitaram o estúdio onde ela era gravada.
A emoção que eles demonstraram também foi minha ao ver os personagens, como se fosse possível que eles se levantassem e abraçassem quem lhes deu “vida”.
Os visitantes voltaram no tempo e eu à minha infância…
Adilson Luiz Gonçalves
Escritor, Engenheiro, Pesquisador Universitário e membro da Academia Santista de Letras






