Chain chain chain… Nosso amor ainda existe!

[CUIDADO, ZEHZEIRA!]
Chain chain chain… Nosso amor ainda existe!
Escrevo esta primeira coluna em pleno entardecer natalino: este amarrado CCC (comércio, confraternização, comidaria) com seus reencontros, digamos, meio que forçados, regado a vinho pérola (ou reservado) com rabanada de treta, modinhas como amigo secreto das cores (elas têm, por acaso, inimigos, as coitadas?!), Roberto Carlos descongelado (ou já será seu holograma?!) e toda farra-sorte de empreendedoras solidões conectadas dispostas ao redor de uma mesa – e se alguém falar em solitude vai levar uma chinelada (de dois pés)! E não pretendo me estender muito sobre o tal 2025 que nos levou Jards, logo o generoso Macala que queria botar a palavra amor na bandeira do Brasil recém-recuperada da bandalha cristofacho-retrofit. Não vou porque não tenho paciência, nos desafinaria o coro dos contentes a Cristina, também partida, junto com o Lô, num trem azul de destino incerto, mesmo para quem crê em vestidos-girassóis da cor do seu cabelo.
Pois bem, estreia é para dizer a que se vem – e já começo tentando atrapalhar as férias do Giba, meu editor. E agraciar, por inoportuno, a de vocês, de lambuja. ¿¡Permiso?!
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Das ciências sociais à psicanálise, passando claro pela ouvidoria da lacração de redessoci e pelo tribunal de conciliação social das pequenas e grandes amarguras, também conhecido como mesa de bar: pouca coisa foi tão defenestrada neste último ano quanto o chamado amor romântico. Em que pese a adesão ao pagonejo – e ai de tu se der um ai sobre isto, e também sobre aquilo! Mais vale o bocejo.
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Sucesso de The Fevers nos 1970, Mar de rosas trata-se da versão brasileira, assinada por Rossini Pinto, de um popzinho de Joe South, que além de compositor era guitarrista bom de estúdio – é dele por exemplo o clássico tremolo (chain, chain, chaaaiiin… quem nunca ouviu?) de Chain of fools, na vozeirona de Aretha Franklin.
Conheci seus versinhos fofis (Nem sempre o sol brilha / Também há dias em que a chuva cai)com mamãe lavando louça. Ser órfão, poeta, sem filhos, quarentão – é uma grande perda de tempo! A gente acaba escrevendo crônica e mandando pro Giba.
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Mas, para não negar o rótulo – repara o título dado à coluna, no rabo do álbum! – estamos aqui pra isso. Na esteira da luta pelo reconhecimento jurídico de nossa pauta, e na condição de representante não eleito dos seres analógicos (lemos, e alguns escrevemos, livros de poesia, e sentimos falta do JB em papel, que sujava a mão, numa manhã de domingo, sobretudo do caderno Ideias), venho por meio desta defender o amor (tal como o reconhecíamos, quando não o adjetivavam grosseiramente, modo atalho linguístico pra ofender depois o coitado!) e seu priminho, a amizade pra vida toda.
O amor virou a Geni de nuestra bolha progressista, na mesma onda em que surfa a substituição meteórica e inconteste do seu uso pelo da palavra relacionamento (não parece linguagem de farialimers? – Você já investiu na sua relação hoje? Você viu o desempenho da Bolsa de Tóquio?). Houve ainda, nesse tempo, a invenção da pílula mágica da NME (não monogamia ética – povo adora uma sigla besta!) como patrimônio moral da humanidade evoluída!
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Senta, que lá vem Power Point! Madame Gaspasha (alô, Elio Gaspari!) tem horror à gramática (do direito) e garante que sua fonte no zap-zap, que é prima de uma manicure da boutique dos pés que a esposa de um dos peixes graúdos do Banco Master frequenta, sabe mais dos podres do Xandão do que o Professor Olavo entendia de Kant, que Chico O Bosco não nos ouça…
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Voltando ao Mar de rosas… Sente estes versinhos: Não há razão pra ser tão triste / Nosso amor ainda existe / Temos muito tempo para amar.
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E, olha, nada mesmo contra geral se pegar, pelo contrário! Lembra do ditame velho de guerra: Se organizar direitinho, todo mundo…? O que irrita é cagação de regra com verniz cientificista, à la matéria da BBC. E essa subjetividade tacanha que estão, por aí, as big techs a alimentar.
O problema está no outro. Ou melhor: na negação do outro, na recusa da intimidade-mor e da convivência com os problemas de um amor assim, digamos, mais coladinho, que nós analógicos tanto prezamos. O mergulho no outro é premissa de quem quer se achar – sim, para depois se perder novamente, e buscar, e buscar. O amor tem a potência de radicalizar o encontro, de perdurar a mágica do instante inesquecível e inescapável, feito máquina do tempo. O amor deixa filhos (outra palavra-possibilidade às vezes proibida, nos círculos progressistas!), legados, histórias, canções como as de mestre Cartola.
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Começo por aqui, para chegar logo ali, e voltar para cá. O fluxo do eu não é da sessão cara de terapia, tampouco da famigerada autoajuda psi de internet, para si mesmo; e o cuidado de si foucaultiano, que diluíram na presepada do autocuidado como um fim em si mesmo,pressupõe um eu que se dedica à construção de si, mas com o vetor apontadiço para o mundo. Ou seja, para o outro.
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Amor – e, em definitivo, abdico do adjetivo pelancudo com que tentam comprimi-lo –, afinal, é utopia. Como a arte, como a revolução. Como diria Galeano, é horizonte para onde olhar e ter pelo que caminhar. E talvez, ao contrário do que diz o mote de nossa canção de hoje, não tenhamos assim tanto tempo, mais.
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Pra acabar: vejam O último azul, dirigido por Gabriel Maskaro. Se costumamos dizer que o pessoal é político, o poético, então, é revolucionário – e por isso mesmo tão mal olhado, tal qual um amor de verdade, na sociedade do algoritmo e do superfuncionamento para consumo, entretenimento, descarte. Falo mais do filme na próxima coluna, promessa. Inté. Beijo do Zehzeira.


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