SEGUIMOS AQUI. AINDA.

A expressão “Não há nada como os bons e velhos tempos” não significa que menos coisas ruins aconteceram antes, e sim que, felizmente, as pessoas tendem a esquecê-las.
Ernesto Sabato
Por Margarete Hülsendeger
O ano que passou diante de mim não bateu à porta. Simplesmente apareceu — como quase tudo aparece hoje: em vídeos de 15 segundos, carrosséis explicativos e manchetes que piscam entre uma notificação e outra. Um mundo inteiro atravessando a tela, enquanto eu permanecia aqui: sentada, atenta, em silêncio.
Acompanhei quase tudo. E não fui só eu.
Muita gente — mulheres como eu, homens, jovens, idosos — observava o mundo pelo celular, com o coração na boca e o corpo imóvel. A gente comenta, compartilha, se indigna, se emociona — mas, muitas vezes, sem saber exatamente onde pôr os pés.
Talvez esse seja o mal-estar moderno: sentir tudo, saber de tudo — e não ter para onde ir com tanta informação atravessada no peito.
Vi quando Trump impôs tarifas ao Brasil, e uma onda de preocupação tomou conta das redes — não só pelo impacto econômico, mas pela ferida simbólica que isso representava para a soberania do país. Discutimos, repostamos análises, memes, estatísticas. E, por trás de cada ironia, havia uma inquietação real: até onde vão os limites do que é negociável em um país?
Vi também o julgamento dos envolvidos nos atos de 8 de Janeiro. E confesso: me emocionei. Aplaudi ao ouvir o voto da ministra Cármen Lúcia — firme, histórico, necessário. Era como se, por um instante, a democracia ganhasse voz de mulher. Um momento de orgulho, de alívio, de justiça — mesmo que a tela continuasse fria entre minhas mãos.
Vi os tornados no Paraná transformarem cidades em retalhos de telhado e barro. O vento levou casas, histórias, rotinas. E era impossível não lembrar do que o Rio Grande do Sul viveu em 2024 — uma tragédia da qual a população ainda tenta se recuperar, entre perdas, lama e luto.
Ao mesmo tempo, Belém sediava a COP30. E, mesmo com o peso do jogo político por trás de tudo, e com o cinismo tentando se infiltrar em cada discurso, resistiu em mim — e em tantas outras pessoas — uma esperança que se recusa a morrer. Porque não dá mais para fingir que o mundo vai esperar. E porque há algo de profundamente simbólico em discutir o futuro do planeta bem ali, no coração da Amazônia, enquanto o chão do país ainda secava depois da chuva.
Vi também, com uma alegria breve — mas não menos verdadeira — o cinema brasileiro ser reconhecido com o Oscar de filme estrangeiro. Ainda Estou Aqui venceu, e a frase ficou ecoando em mim. Sim, ainda estamos aqui. E, como mulher, me senti especialmente tocada ao ver Fernanda Torres levar o Globo de Ouro por sua atuação. Foi bonito, foi potente. E foi um daqueles raros momentos em que a gente sente que o nosso talento — o do país, o da mulher — atravessa fronteiras.
Dei “curtir” com raiva. Compartilhei com tristeza. Salvei posts como se fosse possível salvar o mundo com eles.
Às vezes, eu só olhava. Outras, não conseguia olhar.
E isso também cansa — esse olhar constante, tenso; essa tentativa de acompanhar o mundo com os olhos, sem conseguir estender as mãos. Porque, de onde eu estava — da minha tela — tudo parecia acontecer ao mesmo tempo e, ainda assim, longe demais.
Talvez o maior engano das redes seja esse: a ilusão de participação. A falsa sensação de presença. Como se estar por dentro fosse o mesmo que estar dentro. Como se “rolar a tela” fosse caminhar junto.
Mas não é. E eu sei.
O que resta é uma sensação difícil de explicar. Um tipo de exaustão que não vem da ação, mas da ausência dela. O desgaste de quem se importa, mas não encontra frestas por onde agir. Acompanhar o mundo assim — entre o toque e o nada — é como bater palmas dentro de um aquário: o som fica todo preso.
E o ano acabou.
Não sei se fiz parte dele ou se apenas o acompanhei, como quem assiste a uma série incômoda: olhos vidrados, estômago apertado e nenhum controle real sobre a próxima cena.
Mas sei que não estive sozinha.
Muita gente, como eu, ficou do lado de dentro — não por indiferença, mas por limite, por exaustão, por medo ou por cuidado. E isso também é resistência.
Seguimos aqui. Ainda.
E talvez isso — só isso — já seja um começo.







