ALCEU!

Depois de procurar por algum tempo uma vaga de estacionamento na região do José Menino, precisamos fazer uma razoavelmente longa caminhada até o local onde haveria uma apresentação de Alceu Valença, comemorativa aos 480 anos da cidade de Santos.

A estrutura do evento era superlativa, com vários telões e aparelhagem de som distribuídos na areia.

O policiamento estava presente em quantidade e atuação corretas, e os ambulantes transitavam entre o povo, vendendo de tudo um pouco.

Na calçada dos jardins, dezenas de ambulantes vendiam acepipes, com destaque para os espetinhos de carne, cuja fumaça defumava os transeuntes. Uma festa!

Pessoas de todas as idades aguardavam com ansiedade o início do espetáculo.

Quase que pontualmente, a Orquestra Sinfônica Municipal iniciou a afinação dos instrumentos. Para mim, esse processo é quase tão interessante quanto a programação musical.

Uma primeira música foi tocada e, ao final, o maestro Gustavo Petri anunciou o astro da noite: Alceu Valença!

Vestido com um terno cujo paletó cintilava e portando um indefectível chapéu, ele foi entusiasticamente ovacionado pela plateia.

Alceu não tem sido uma figura frequente na mídia, infelizmente, mas o público demonstrou que ele está presente nos corações de quem gosta de boa música.

Ele não decepcionou.

Do alto de seus 79 anos, esbanjou vitalidade, voz poderosa, domínio de palco e da assistência.

Organizou e regeu coros impecáveis.

Acompanhado de sua impecável banda e tendo a orquestra acompanhando com arranjos precisos, as músicas fizeram o povo cantar, dominando todas as letras e melodias com afinação e entusiasmo surpreendentes.

Não vi nenhum tumulto ou entrevero, apenas gente cantando e dançando no ritmo dos vários xotes do vasto repertório de Alceu.

Já se passava quase uma hora e meia de apresentação, mas o tempo não parecia escoar.

Ele convidou o público para uma viagem musical, e todos embarcaram, inclusive os instrumentistas que o acompanhavam. As imagens dos telões demonstravam a comunhão alegre entre artistas e plateia!

Ao final, ele brincou que todo artista é mentiroso quando chega o final do espetáculo. Diz “adeus”, mas espera que o chamem de volta para a música derradeira, que sempre é a mais esperada.

Antes disso, fazendo-se de desentendido, perguntou qual música gostariam de ouvir, sugerindo o óbvio, bem como o previsível clamor: “Alceu! Cadê você? Eu vim aqui só pra te ver!”.

A resposta veio em uníssono e a sequência obedeceu seu roteiro, com ele retornando “a pedidos” para cantar “Anunciação”.

Pensando bem, faltou uma preciosidade que ele emprestou de Luiz Gonzaga: “Sala de Reboco”. “Todo tempo quanto houver pra mim é pouco pra dançar com meu benzinho numa sala de reboco.”

O fim do espetáculo foi apoteótico, com direito a fogos de artifício.

Considerando a performance de Alceu e a reação do público, todo tempo que houver para nós sempre será pouco para ouvi-lo e vê-lo!

Adilson Luiz Gonçalves

Escritor, Engenheiro, Pesquisador Universitário e membro da Academia Santista de Letras

1 comentário em “ALCEU!

Deixe comentário