SELVAGERIA E DESUMANIZAÇÃO

Em 1959, a rinoceronte fêmea conhecida como Cacareco recebeu cem mil votos na eleição para vereador em São Paulo. Foi um protesto.
Não conheço histórico anterior a essa manifestação de insatisfação, mas depois houve outras, caracterizadas por seres humanos que receberam votos e até foram eleitos não por suas propostas, mas pelos personagens que os tornaram famosos, por seu sucesso no mundo esportivo ou na mídia, ou por despertarem curiosidade. Alguns receberam votações expressivas.
A maioria, senão todos, teve mandatos inexpressivos, mesmo assim, pelos mesmos motivos, alguns foram reeleitos. Protesto ou irresponsabilidade do eleitor?
Não tem sido diferente em países desenvolvidos, e não faltam exemplos, inclusive em países considerados desenvolvidos.
Infelizmente, parte significativa dos que escolhem a vida pública não o faz pelo “bem do povo e felicidade geral da nação”, e tem valido o dito de que o brasileiro esquece, se bem que há os que acreditam em “santo de pau oco” e “galinha morta em pé no poleiro”, esperando obter algum benefício pessoal. Também há os que contam com isso para obter cargos públicos, por não encontrarem mercado de trabalho para suas formações. Isso também é comum mundo afora.
Política não deveria ser considerada uma profissão, e em alguns países os representantes eleitos mantêm seus empregos, sem receberem remuneração para exercerem suas funções políticas.
Cacareco foi eleita em protesto contra candidatos humanos. Creio que só não tomou posse por não ser filiada a um partido político.
Vivemos um tempo em que a “humanização” de animais concorre com a desumanização de pessoas.
Considerando o que alguns seres humanos têm feito no exercício de funções públicas eletivas ou por indicação de poderes constituídos, a lealdade e a previsibilidade de alguns animais justificaria essa escolha, em oposição à selvageria e à pouca moralidade e ética que alguns seres humanos têm demonstrado nas ruas e no âmbito dos poderes institucionais.
Não à toa, os animais têm assumido um papel cada vez mais “humanizado”, ao ponto de algumas pessoas os tratarem melhor e os colocarem acima de seres humanos, tendo acesso a ambientes públicos que são restritos a algumas pessoas que, dependendo de sua condição ou comportamento, são convidadas a se retirarem deles.
Não sei se teremos outras “cacarecos” na história “política” do Brasil, ou se um dia teremos uma “petcracia” como alternativa à recorrência de políticos “de carreira” que, apesar de suas atuações pouco republicanas, da impunidade, do sistema eleitoral, da seletividade de julgamentos e da pouca consideração dos reais interesses públicos, continuam a ser eleitos, reeleitos e mantidos em suas funções, totalmente alheios aos interesses do povo brasileiro.
Mas quem os elege e reelege, por ignorância, doutrinação ou oportunismo, tem grande parcela de culpa pela selvageria política atual, que acaba contaminando a sociedade de múltiplas e nefastas maneiras.
Adilson Luiz Gonçalves
Escritor, Engenheiro, Pesquisador Universitário e membro da Academia Santista de Letras






