O QUE ESTAMOS FINGINDO NÃO VER?

Memória é um filho que já nasce morto. E se decompõe.
Giovana Madalosso
Por Margarete Hülsendeger
O que leva uma babá a desaparecer com a criança de quem cuida? Essa é a pergunta que move o enredo de Suite Tóquio[1], romance da escritora Giovana Madalosso. Mas o sumiço, em si, é apenas a superfície de uma história bem mais complexa. Em vez de um mistério, a autora nos oferece um retrato ácido – e por vezes desconfortável – das relações de classe, da maternidade e da solidão feminina nas grandes cidades.
A história começa numa manhã qualquer. Maju, babá da pequena Cora, atravessa a praça com a menina, pega um ônibus e desaparece. Fernanda, mãe de Cora, demora a perceber o que aconteceu. E essa demora diz muito: ela está tão absorvida em seus próprios conflitos que mal nota a ausência da filha ou da mulher que, na prática, a criava.
Fernanda é uma personagem inquieta, que parece nunca se encaixar nos papéis que a vida lhe impôs. Não se reconhece na figura da mãe dedicada. Quem cuida da filha, conhece os horários, prepara a mochila e acompanha a rotina é Cacá, seu marido. Há, aí, uma inversão curiosa: enquanto ele se adapta com naturalidade ao cuidado da criança, Fernanda se afasta emocionalmente, buscando na carreira e nos próprios dilemas existenciais uma forma de escapar do que sente como prisão.
A relação entre Fernanda e Cacá já está desgastada. A chegada de uma amante mais jovem não resolve as lacunas emocionais que ela carrega. Ao contrário, só reforça sua sensação de deslocamento, de estar sempre no lugar errado: na família, no casamento, na própria vida.
É nesse cenário que entra Maju, a babá. Figura central da história, ela é, ao mesmo tempo, indispensável e invisível. Fernanda exige dela uma presença constante, uma disponibilidade irrestrita. O limite dessa relação surge com clareza quando Maju insiste em tirar seu dia de folga. Fernanda, incomodada, cogita demiti-la. A ideia de que Maju tenha vida própria — com compromissos e desejos que não envolvam servir sua patroa — parece inaceitável. Essa tensão revela uma dinâmica cruel: a de patrões que, muitas vezes sem perceber, tratam suas funcionárias como extensões da casa, não como indivíduos.
O título Suite Tóquio pode soar enigmático à primeira vista. Mas, na verdade, é o nome que Fernanda dá ao quarto de Maju. Para não se sentir culpada — ou, como ela mesma admite, “menos escravocrata” —, transforma o antigo quarto de empregada “num lugar claro, descolado e dotado de amenidades como tevê e frigobar, um quarto que poderia muito bem ser a suíte de um hotel japonês”. O gesto é revelador: mais do que uma tentativa de oferecer conforto, trata-se de uma forma simbólica de suavizar a desigualdade da relação — um esforço para tornar aceitável algo que, no fundo, continua sendo profundamente assimétrico.
Giovana Madaloso, que já vinha se destacando na literatura brasileira com romances como Tudo pode ser roubado, foi elogiada pelo jornal The New York Times justamente pela maneira como trata temas sociais e íntimos com uma escrita ágil, crítica e acessível. Em Suite Tóquio, ela reafirma esse estilo: sua narrativa é direta, por vezes irônica, e repleta de pequenas observações que dizem muito sobre o cotidiano e as relações urbanas.
Mais do que uma história sobre uma babá que desaparece com uma criança, Suite Tóquio é um convite para olhar com mais atenção para quem está ao nosso redor — e para as estruturas silenciosas de poder que moldam nossas relações. Em última análise, a pergunta que abre esta resenha não diz respeito apenas a um desaparecimento, mas ao modo como nos acostumamos a relações marcadas pela desigualdade.

[1] MADALOSSO, Giovana. Suíte Toquio. São Paulo: Todavia, 2020.








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