Só falta o rabo!

[[CUIDADO, ZEHZEIRA!]

SÓ FALTA O RABO!

O colunista confessa: ao contrário da Alessandra Negrini, está ficando velho! O agadê demasiado humano tenta inutilmente multiprocessar que Carnaval agora dura 2, 3 meses e não é mais aquele intervalo áureo – justo porque curto, curto porque justo –, que transgride o correr comezinho do cotidiano, daí entra na redessoci distraído e… pimba! Tome opinião de especialista do festeiro!

Acho que já tenho minha plaquinha pra 2027: Menos opinião, mais fantasia!

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Agora é cinza, tudo acabado e nada mais é dos versos mais singelos de nosso inesgotável, auspicioso e adjetibundo cancioneiro popular – hoje, impopular, segundo consta. Como segundo vem depois de primeiro, pois diga lá, meu desafeto: você ouviu esse versejo em algum bloquinho, recentemente?

Agora é cinza é obra de dois bambas do Estácio, Bide e Marçal, e foi ultraprocessada em vozes magistrais como as de Elza Soares e Mário Reis – este último acompanhado por Pixinguinha e sua patota dos Diabos do Céu, em gravina de 1933. Você não a ouviu foi por acaso? A moda passa? Não e sim. Mas antigamente…

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Policial civil aposentado, sindicalista da categoria, sempre à esquerda e lenda viva da cultura popular carioca num amplo espectro – também fundador da Raça Rubro-Negra –, Cláudio Cruz tem uma frase bem pertinente sobre o atual momento musical do Carnaval de rua: “Façam qualquer tipo de casamento. Só não esqueçam de convidar os noivos”. Os noivos, no caso, são o samba e a marchinha, que o dono do Botequim Vaca Atolada, resistência do nosso maior gênero na hoje pagofunkeira Lapa, mantém vivíssimos a cada desfile do Embaixadores da Folia desde sua fundação, em 2000.

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Vini Jr. é chamado de macaco por um craque branquelo num Real Madrid e Benfica jogado em Portugal, pela Champions League. Mbappé (como outros jogadores) sai em sua defesa. Racista de merda! – Mbappé manda nas fuças do meliante, que injuriou Vini Jr. ao menos 5 vezes, cobrindo a boca com a camisa do clube português. O protocolo antirracista de La Liga manda o jogo parar por 10 minutos. Depois disso a vida pode seguir. A regra é clara.

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Então, sou do tempo do Carnaval comentado só no bar mesmo. Ou em crônicas de jornal, desígnio extemporâneo a que esta coluna almeja um tanto. E aí, nessas condições, e ao contrário da caçassão de likes que move a redessoci, o texto vem minimamente pensado (eu juro que tento, mal aí!); e, obviamente, por ossos do ofício (não confundir com orifício, Carnaval já passou!), não dando muita pelota pra doxa alheia.

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Opinião, aliás, tipo o orifício central das bundas, é sabido, todo mundo tem. A questão é sustentar num corpo argumentativo – e nem vou falar de estilo, porque aí já é pedir demais. Certo perfil de esquerda, bem naquela linha InstaGramsci de quem parece no fundo pisar macioto no palavreiro mas deter dentro de si um Caboclo Stalin querendo descer do cavalo, deu de lacrar chamando de homofobia recreativa a galera saindo de plaquinha com dizeres como Estou no mapa da fome ou O último hétero. Na boa, quem pensa assim jamais brincou (do verbo brincar, inimigo do performar) Carnaval! Pode saber de tese de akadimia, de burocracia de partido… Pode até ir nos bloquinhos ou na Sapucaí, que uma coisa é uma coisa e outra coisa é outra coisa. Carnaval, nunca brincou!

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E sim, o Carnaval de rua está (mal)tratado como já o era o da Sapucaí: como negócio. Dudu Paes, no Rio, bancando ou não o malandro cegueta (que bonitinho, quem defende surta!), vai transformando a cidade olhando-a estritamente como um bom negócio a ser fechado. E tome espetáculo suprimindo o autêntico, tome evento expulsando o encontro, tome show, em praça cercada, acabando com a roda.

O nome da coisa? Gentrificação. Em troca nos dão um embuste. Com alguns trocados, uma melhoria aqui e ali, se quando. E muito abandono e logro, para quem não couber nessa lógica perversa e traiçoeira.

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Se já é um cadim de mimimi reclamar da falta de gente hétera no mundo (!), ao menos restava um tanto de humor e picardia, porque quem mandou essas letras queria era facilitar os trâmites de um beijo na boca. Mas daí a tirar foto e deitar falação sobre as plaquinhas… É muita melindragem, pra pouca malandragem! – taí minha outra plaquinha pra 2027!

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Para o título desta coluna, me veio: A minha fantasia de diabo… Só falta o rabo, só falta o rabo! (Diabo sem rabo, de Haroldo Lobo e Milton de Oliveira). Ah, o duplo sentido das coisas, quase um fundamento da marchinha, um dos maiores fenômenos fonográficos de nossa história. Praticamente todos os maiores cantores e cantoras do rádio lançavam marchinhas para o Carnaval. Umas pegavam, outras não. O repertório é imenso, vasto, riquíssimo. E ainda se renova. Mas parece que só sobrou meia-dúzia de músicas, que a galera descoladx dos autonominados bloquinhos bota ali para constar e ir tocar suas coisas – e também operar, assim, no sequestro do simbólico, de alguma forma em sintonia com o alcaide que critica nas redes.

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O verso pode ser simples; mas o simples, em arte, é assaz complexo, por outro lado. Um olhar simplório para o popular isola o artista genuíno numa sombra complicada – e calculada por quem gere a máquina de moer gentes e pasteurizar culturas populares em nome do lucro.

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Cuidado pra não cair no golpe do amor / Mas cuidado pra não cair no golpe do amor. A marchinha continua viva, vivíssima. Conheci Golpe do amor no vozeirão daquele que talvez seja o mais talentoso representante do samba de resistência em São Paulo, Tuco Pellegrino, oriundo de coletivos como Terreiro de Mauá e Terreiro Grande. Agora só se fala em tal de date, que é palavra dos State, mas no fim provoca choro. Quer ouvir? Por enquanto, só tem no perfil do Tuco, mas em breve ele lança a pedrada nas piores plataformas do ramo, como costumo frisar (nenhuma presta!). A composição é de Paulo Mathias e Fernando Paiva.

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A treta é a unidade econômica da redessoci. Algoritmo, o deusinho mequetrefe que recentemente se casou, naquele arranjo típico das elite, com Madame IA, gerencia seus desmandos em função da treta: ele cheira treta, come treta, caga treta, sendo aquele típico herdeiro filhinho de papai – no caso, o deus Mercado – que não dá conta de quem o contraria.

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Por sinal, o BBB, que a turma do InstaGramsci adora engajar, vive de que mesmo? Treta!

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A gente odeia treta, mas adora uma rebeldia: goste você ou não, meu considerado, minha magnífica, o pagonejo é uma praga para o samba, tanto como o certanojo o é para o modão de viola. A pasteurização da cultura popular, o seu silenciamento ou escanteamento é programado – e isso vai do algoritmo da redessoci à plataforma de música cujo mecanismo de busca não mostra resultados de pesquisa por compositores e instrumentistas, anulando-os da condição de artistas. É também parte de um projeto maior, de pasteurização da própria existência; e de silenciamento, afinal, do outro.

E quem será esse outro? Talvez seja aquele cujo ânimo – ou alma, vide etimologia, essa danada! – tem hora que resiste ao comando de consumo e descarte e quer ir lá, drummondianamente, ser gauche na vida.

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Filipe Luís, vulgo Cara de Boneco, é um isentão. Momento Pessoa: ele é tão isentão que chega a fingir que é isenção aquilo que deveras sente: uma completa indiferença pela dor alheia.

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O popular é algo de uma gramática imperfeita (trata-se de elogio, hein, minha gente – a perfeição só existe em conjuntura longeva, o que nos salva aliás de virarmos todos uns chatos de galocha tipo crítico de Carnaval do InstaGramsci). É estética de criação pelas bases, pelos desvãos da cultura bem-aceita, pelos riscos de se expressar de um modo que se tenta singular, ao mesmo tempo que comum. Daí o termo popular.

Pelo contrário, a música como produto – e o evento, também, como produto – é da laia do que é embalado como perfeito. Do que cabe no quadrado, porque perfeição, como disse ali nos parênteses, inexiste, custa pouco repetir. O nome do quadrado, nesse caso, é um só, e atende pelo nome de: mercado.

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Acorda pra guspir, como falavam os antigos (falavam mesmo?! Me mandem cartas!)! Não é seu gosto, não é sua opinião, fi(a) duma égua. Acorda pra guspir!

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Chorei, porque você partiu – e nem me deu um adeus por despedida. Complexo? Nada, muito simples. Mas tem melodia e letra trabalhadas, essas coisas elitistas que a gente, quando fala, o InstaGramsci deita neomoralidades pseudossociológicas e depois vai ouvir suas pisadinhas e pagonejos, porque afinal gosto é gosto, é o que eles ditam, ops, dizem.

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Nisso, vale o drink custar 40 pratas em birosca tornada hype, o melisma de gospel americano, misturado com um chororô desmilinguido, ser o novo cantar bem no país de Orlando Silva e Virgínia Rodrigues, o pagode parecer um culto de louvores…

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Tá bem, tá bem: agora é cinza. Mas, nos diria Rubinato, o Adoniran: se assoprarem, nós pode acender de novo!

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P.S.: porra, Nelsinho! Falávamos aqui de cinzas e Carnaval, e aí tu escolhe uma madrugada de véspera de ver o Tipo Colômbia Traíra envergar a camisa da Crefisa, para se pirar deste plano?! É, minha gente, partiu Nelsinho Rodrigues, filho do Nelsão, tricolor renhido e pertinente como este colunista. Impossível não ficar triste. Incontornável é a melancolia geracional que a gente nessas horas sente, por exemplo da coluna dele na página 2 ou 3 do antigo Jornal dos Sports (o Cor de Rosa!), ao lado da coluna do primo Mário Neto, flamenguista assumido – diferentemente do pai, Mário Filho, irmão do Nelsão, que plantou, num livro importantíssimo, por sinal (O negro no futebol brasileiro),aquela vergonhosa fake news de que atirar o pó de arroz trata-se de um gesto racista da torcida do Fluminense, quando o fora um ato de defesa do atleta Carlos Alberto, injuriado então pela torcida do América, de onde saíra transferido. Saudade também do banho de mangueira nocauteador do bloco Barbas, de um outro Carnaval. O bloco ainda existe, o Carnaval também. A gente, como tal, é que já nem sei…

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P.P.S. (culpa do Nelsinho!): o tempo, ele urge, ruge. Que até a boa e velha sarjeta nos proteja da miseragem de deixar de viver o que as horas mais pulsantes e vívidas nos clamam! É preciso coragem – e sorte! – até para atravessar a rua e tomar um Chicabon, nos ensinava o Nelsão.

Zeh Gustavo, carioca, filósofo do cotidiano foucaltiano é sambista de rua, compositor, escritor, revisor. Publicou, entre outros, os   livros Uma vírgula no findomundo, Contrarresiliente e Eu algum na multidão de motocicletas verdes agonizantes (vencedor do Prêmio Lima Barreto, da Academia Carioca de Letras) e co-organizou, com Rafael Maieiro, a coletânea poética “Jumento com Faixa: deboches e antiodes ao fascismo“, do qual Zeh é também um dos autores. Na cantoria, fez parte, como cantador, de grupos como o Terreiro de Breque, Cordão do Prata Preta, Samba da Saúde e Banda da Conceição e hoje atua solo como intérprete em Cuidado, Zehzeira!, seu primeiro álbum, de que fazem parte a autoral “Mignon com queijo magro” e a regravação de “Beto bom de bola”, de Sérgio Ricardo. Em 2021, fez a produção fonográfica e cantou em duas faixas do álbum musical “Raiz e folha: o cancioneiro de Zeh Gustavo”, gravado pela cantora baiana Kell Santos inteiramente com composições de Zeh.

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Confira a música do Tuco:

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