MULHERES DE ÁGUA, HOMENS DE PEDRA
Por Adilson Luiz Gonçalves
Escrevi uma crônica com esse título no início da década de 2000, quando praticamente iniciei minha produção literária.
Eu a retomei e fiz algumas atualizações.
Provavelmente há quem vá dizer que eu não tenho “lugar de fala” sobre o universo feminino, mas tenho uma história de vida que me permitiu entendê-lo de forma visceral, para além do ventre materno.
Meus irmãos eram bem mais velhos do que eu, e minhas irmãs muito mais novas. Dei-lhes banho e troquei suas fraldas, ajudando minha mãe.
Eu sempre a ajudei nas tarefas domésticas, com ela aprendi a cozinhar e cantar. Minha professora de primeiro ano foi uma referência para toda a minha formação educacional posterior.
Essa formação familiar e tudo o que aprendi, e continuo a aprender com a vida, me deixaram imune a preconceitos sociais que alguns insistem em manter, por estupidez ou oportunismo.
Comecei a trabalhar com 15 anos, na área de projetos estruturais, já convivendo com mulheres adolescentes, que faziam o mesmo curso técnico, e revisavam o que eu fazia.
Continuei trabalhando com mulheres por toda a vida, como parceiras e amigas, embora também tenha sofrido nas mãos de algozes, que achavam que tratar mal as pessoas era a “fórmula do sucesso” para as mulheres.
Tenho imensa admiração pelas mulheres com que trabalhei e trabalho, pelas alunas que frequentemente tiveram melhor desempenho do que os alunos de Arquitetura e Engenharia.
Vivemos tempos em que a inteligência, a competência e o mérito superaram limites impostos por tradições e interesses que nunca encontraram respaldo na lógica.
Aprendi isso com minha mãe, minhas avós, minhas irmãs, as mulheres com quem convivi e convivo, com os exemplos que dizem mais do que protocolos e, principalmente, pela admiração incondicional que tenho pela mulher que amo, a qual deu sentido pleno à minha vida, parceira, conselheira, amante e administradora excelente que é.
Talvez a música que melhor explique o que sinto por ela seja “God Only Knows”, do Beach Boys, aquela que dizem que Paul McCartney gostaria de ter gravado.
Mas nem sempre foi assim, o que me fez retomar a crônica que mencionei no início do texto:
Já se foi o tempo das “Mulheres de Atenas”, embora alguns trogloditas sociais machistas ainda insistam em considerar o sexo feminino mero coadjuvante do masculino.
Como todo preconceito, esse tipo de postura esconde fobias e inseguranças de várias espécies ou, simplesmente, uma incomensurável e patológica estupidez.
Enquanto os homens superaram leis rígidas e antiquadas, como as que estendiam punições por gerações de descendentes, a mulher permaneceu, por milênios, culpada por uma falta atribuída a quem seria a primeira: Eva! Que Lilith não nos leia…
Mas, mesmo quando o rigor dos costumes antigos limitava ainda mais sua liberdade, a história registrou, com destaque, personagens como: Esther, Cleópatra, Catarina de Médici, Joana d’Arc, Elizabeth, Vitória, Anita Garibaldi e muitas outras.
Recentemente, também mereceram e merecem destaque: Marie Curie, Elizabeth II, Katherine Johnson, Indira Gandhi, Golda Meir, Ada Lovelace, Marie Curie, Amelia Earhart, Margaret Thatcher, Madre Teresa de Calcutá, Malala Yousafzai, etc.
No Brasil, incontáveis merecem destaque, como: Imperatriz Leopoldina, Princesa Isabel, Maria Quitéria, Ana Néri, Irmã Dulce, Bertha Lutz, Enedina Alves Marques, Jaqueline Goes e Ester Sabino, Sonia Guimarães e Tatiana Coelho de Sampaio, entre outras.
São raros os registros de guerras declaradas por mulheres, embora o excesso de músculos, a libido descontrolada e a falta de comunicação entre neurônios de muitos homens as tenham colocado como pivôs de muitas, como Helena de Troia.
Donas de uma infinita tolerância e capacidade de seduzir e superar conflitos, algumas mulheres só erram quando tentam imitar o pior dos homens, por acreditarem que essa é a única forma de serem respeitadas por eles. Talvez por isso, muitos se assustem e façam o caminho inverso…
Ocorre que, apesar do espaço conquistado com muito esforço e competência, ainda são elas e as crianças as maiores vítimas dos vários tipos de violência.
Infelizmente, a maioria dos homens ainda não aprendeu a dar-lhes seu real valor. Ignoram que a própria humanidade depende delas, pois em seu ventre está a história passada, presente e futura dos seres humanos, além de serem protagonistas sociais igualitárias por excelência.
Ainda existem mulheres sendo educadas e tratadas como seres inferiores, e punidas segundo tradições que só servem para subjugá-las a homens cegos por tradições anacrônicas.
Estes lhes negam cidadania e autonomia, como se existissem apenas para gerar seus filhos – de preferência, homens -; alimentá-los com seu peito, suor e sangue; saciar-lhes com seu corpo; tolerar suas infidelidades e prantear-lhes a morte, secando por eles.
Civilizações primitivas ainda as mutilam sexualmente, apedrejam, ocultam e inibem seu potencial criativo, inteligência e autodeterminação, dando a seus pais e maridos poder de vida e morte, esquecendo que sequer existiriam sem elas.
Para eles, não são os homens que não sabem se controlar: são as mulheres que os fazem “se perder”. E ainda se consideram guardiões da “fé” e exemplos de civilização, mesmo quando assumem a condição de “macho”, portando-se como predadores no cio; desprezando tudo o que delas recebem de graça: amor, dedicação, altruísmo e coragem. Coragem, inclusive, para assumir a família quando eles morrem em guerras estúpidas, se prostram diante de um fracasso ou, simplesmente, abandonam suas responsabilidades. E ainda há as que suportam tudo isso e encontram força para defender suas iguais na “cova dos leões”, enfrentando o muro de pedra do conservadorismo radical, com a “água” da justiça, do idealismo, do respeito à vida, da razão com sensibilidade, tudo isso envolto por inteligência e sabedoria que supera qualquer limite.
Homens de mentalidade limitada podem se orgulhar de seu poder, de sua rigidez de pedra. Mas as mulheres, como a água, sabem contornar, adaptar e sutil e pacientemente procurar o melhor caminho para moldar qualquer rocha. Também mostram que há homens que usam as pedras para criarem obstáculos e diferenças, enquanto as mulheres, ainda como a água, tendem ao equilíbrio.
Há um ditado que afirma que: “Por trás de um grande homem, há sempre uma grande mulher”. No entanto, ao longo da história, quase todas as grandes mulheres – e todas são imensas! – quase sempre estiveram sozinhas!
Felizmente, a “água mole” cada vez mais tem vencido a “pedra dura” da intolerância, do preconceito e da ignorância, embora ainda haja muito o que superar.
Adilson Luiz Gonçalves
Escritor, Engenheiro, Pesquisador Universitário e membro da Academia Santista de Letras






