CORINGAS TAMBÉM AMAM

[CUIDADO, ZEHZEIRA!]

CORINGAS TAMBÉM AMAM

Terceira Guerra em curso: é tempo de a(r)mar o próximo.

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Coringa: delírio a dois, de 2024, trata-se de uma claudicante – desde o formato de musical que não se assume como tal, com números bem aquém do gênero – continuação da história do palhaço assassino tendo como base o seu cavalo da vez, Arthur Fleck, que o diretor Todd Phillips busca humanizar e, de certo modo, redimir da entidade que o carrega. Mas a tentativa é vã, e fraca. Todd se perde ao não assumir, ou pior, ao combater internamente à narrativa, o que é um tanto esquizo, a admiração que nutre, no íntimo, pelo personagem, cujo charme aparece meio que sufocado na nova película. Não se doma o que pulsa com um travesseiro mal disfarçado na cara. Quem trai o que lhe atrai tão genuinamente é que termina sem fôlego.

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A única coisa que presta no Estadão é o sanduíche de pernil do bar da frente. Dito isso, força, Irão!

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Grossário zehzerístico de sobrevivência altaneira na III Guerra (I)

Gringo: diz-se de pessoa, comumente desprovida de noção de realidade, oriunda do Norte Global desenvolvido, notadamente europeus ocidentais e estadunidenses, em visita ao país. Não costuma se esforçar para falar palavras em português, mesmo que simples, salvo quando se apaixona pelo lugar (Gostei tanto que voltei!)e nos faz esse favor de dar um bom-dia em tupiniquim, todo metido a descoladx. Obs.: você já sabe mas não custa lembrar: o irmão, a irmã latina NÃO são gringos, definitivamente, ok?!

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Fleck é um pingente completo de cidade, chafurdado nos traumas de uma criação disfuncional, portador de uma doença rara, que é rir, só administrável pela via da arte, no caso uma palhaçaria cujos fundamentos ele só viria a dominar transformando-se num maníaco admirado – o Coringa. Suas piadas não têm graça, o meio (stand-up comedy) não facilita, a vida no capitalismo (faltou a Todd encarar essa budega – como ser antissistema sem discutir o sistema?) é prenhe de humilhações comezinhas, diárias, renitentes. Isso aí já vinha do primeiro filme, de 2019. Na versão 2024, Coringa se apaixona por Lady Gaga; pena que Fleck, com Lee (a personagem de Gaga), não dá a menor liga. Do que fica disso? Coringas – e palhaços em geral – também amam. Mas os psicopatas tendem sempre a vencê-los no final.

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O amor, como dizia Umberto Eco, é seletivo demais. Pasmem – exige até reciprocidade! O ódio, a insensibilidade, até mesmo a incrível disponibilidade que as pessoas têm para simplesmente aderir à miserabilidade, se comprazer com a mesquinhez de seus sentimentos (que hoje o povo chama, também pobremente, de afetos), tudo isso é um projeto de criação de pequenos sociopatas, perversos, indiferentões.

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Grossário zehzerístico de sobrevivência altaneira na III Guerra (II)

Gringo fdp: categoria especial, reflete um subtipo dos que se apaixonam pelo lugar (Ai a cultura de vocês! Ai as belezas naturais!). Educadamente (é um tipo bem um-sete!), manda aquela carteirada do passaporte branquitude-raiz para exercer funções tradicionais da saudosa colonização, como a exploração sexual e econômica.

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Como conta e nos canta a Fátima Guedes, um nome pode ser uma faca (enterrada no peito, até o fim). O silêncio é também uma lâmina afiada, manejada por quem vive na estrela, incomunicável. A gente passa pela estrela, ela chega a nem nos ver. E a gente continua a precisar olhar o céu e largar de lado um pouco a tela – necessariamente, nessa ordem.

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A incapacidade de mergulho no outro que virá espelhar um novo eu, num mundo em desencanto, em que arte é mero entretenimento – outro sintoma trágico da existência tornada um sistema-corpo autofágico, funcionando em modo avião, para consumo e descarte – gesta nas massas, mundo afora, e agora, um fascismo pulverizado, com uma guerra mundial assim também vivenciada.

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Por falar em psicopatas… Enquanto escrevo estas maltraçadas, reza o noticiário que Aquela Coisa Covarde, entre punhetas de bicho preso, e mole, na Papuda (consta que Micheque, bem à la Bartleby, de Melville, tem preferido não, alegando que visita íntima, só na Bíblia alheia!); e um exercício intelectual exaustivo (preencher umas palavras cruzadas nível fácil aqui, uns liga-pontos acolá), está para cantar pneu (e qualquer remissão a patriotários de caminhão não é mera coincidência!). Por favor, Xandão, manda esse lixoso encontrar o Cramulhão em casa! Sem a domiciliar ele morre na UTI mas vão pintar o mártir que o Cagão Cagado jamais seria.

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Faca é uma composição de Fátima Guedes de 1993 e mostra como, antes mesmo da atenção de corte identitário, a mulherada compositora quebrava o coco, vide Maysa, Chiquinha, Dona Ivone. É interessante notar que tais pioneiras não tenham suas importantíssimas obras assim tão festejadas no discurso que sustenta como fundamentais à causa figuras como Anitta e Marília Mendonça, dado aquelas não furarem as bolhas, isto seja, não serem assimiladas pelo mainstream. É preciso enfrentar o mercado e isso exige também considerações estético-políticas que ultrapassem a ferramenta desse máximo denominador comum identitário, tão raso.

Ou você, minha amiga mulher, teria apoiado o Plano Collor pelo fato de a Zélia ser mulher? Votava na Micheque? Pegaria uma praia com a Damares, as duas de maiozinho rosa desbotado, só olhando pra pinto contido em sunguinha azul-bebê?!

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A identificação com Coringa tem o apelo anárquico do personagem como fundamento, mas vou puxar a brasa pro meu lugar de falha: Coringa também é o palhaço cuja sensibilidade a sociedade do desempenho e do espetáculo curte tanto espezinhar. Um dos desejos citadinos mais cruéis – e isso vai do amigo próximo à sujeita que bola um edital de fomento! – é transformar artista em escriturário. E o palhaço é a representação mais e menos óbvia do ser artista. E o palhaço, quando se apaixona, tem que enfrentar a dor de não entenderem bem da sua. Fleck passa por isso com sua Lee. Porque o cavalo do palhaço, o euzinho esmigalhado pela sociedade da razão (e da ração, em vários níveis, que essa mesma sociedade destina aos artistas menos afeitos à celebrização), é bruto e ao mesmo tempo delicado como vidro fosco pronto a espatifar.

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Os perfis de esquerda venceram: o MDB expulsou de seus quadros o “Ator” Agressor de Mulher. Valorizado no mundo do Influenciamento, agora o “Ator” Agressor de Mulher espera o convite do PL ou do PP ou do Republicanos (!) para ser candidato; só que não mais a deputado federal, mas a senador. Engajamento não há de lhe faltar.

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Em pleno velório interior, o cavalo se monta. O palhaço precisa fazer rir. Em Coringa 2, na detenção, 1 piada equivale a 1 cigarro. Sem piada, sem cigarro. O palhaço vale pouco. Mas só vale, mesmo esse pouco, com piada.

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Grossário zehzerístico de sobrevivência altaneira na III Guerra (III)

Gringo brasileiro: é o gringo da própria terra, o gringo local, made in Brazil. Já chega sambando: suas pernas andam trupicando, desconhecentes do valor do próprio chão pisado, e suas mãos batucam um pandeiro imaginário. Toma caipirinha (sem sotaque), chama samba de sambinha e acha que a Barra da Tijuca faz parte do Rio de Janeiro. Também pode ser bem fdp.

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Existem mil maneiras de não engajar a canalha que você denuncia. Invente uma.

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“Eu teria sido a sombra do seu cachorro se soubesse que isso me manteria ao seu lado”, diz um jazz de Curinga 2 (a trilha é honesta!). Que coisa mais deliciosamente linda, de (falsamente) ultrapassada. Por mais delírios e realizações de amor, e de arte, é o que clama cada clown, desde seu interior bonito, de tão quebradiço.

Zeh Gustavo
Zeh Gustavo, carioca, filósofo do cotidiano foucaltiano é sambista de rua, compositor, escritor, revisor. Publicou, entre outros, os livros Uma vírgula no findomundo, Contrarresiliente e Eu algum na multidão de motocicletas verdes agonizantes (vencedor do Prêmio Lima Barreto, da Academia Carioca de Letras) e co-organizou, com Rafael Maieiro, a coletânea poética “Jumento com Faixa: deboches e antiodes ao fascismo“, do qual Zeh é também um dos autores. Na cantoria, fez parte, como cantador, de grupos como o Terreiro de Breque, Cordão do Prata Preta, Samba da Saúde e Banda da Conceição e hoje atua solo como intérprete em Cuidado, Zehzeira!, seu primeiro álbum, de que fazem parte a autoral “Mignon com queijo magro” e a regravação de “Beto bom de bola”, de Sérgio Ricardo. Em 2021, fez a produção fonográfica e cantou em duas faixas do álbum musical “Raiz e folha: o cancioneiro de Zeh Gustavo”, gravado pela cantora baiana Kell Santos inteiramente com composições de Zeh.

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