CARPE DIEM! OMNI DIEM!
Depois de mais um dia estafante, preenchido com múltiplas e diferentes atividades, resolvi parar por um instante.
Pensei em praticar um pouco de “nadismo”, deixando o meu recorrente “tudismo” de lado, mesmo que fosse por um átimo. Mas o nada nunca me agradou, jamais me bastou.
Resolvi, então, ver o tempo passar.

Para minha completa surpresa, ele parou e resolveu conversar comigo.
De fato, o tempo parou, pois tudo o mais ficou imóvel, exceto por uma suave e agradável brisa que acompanhou aquele lapso temporal.
Cheguei a me beliscar, para saber se estava acordado. Doeu!
O tempo riu e perguntou: – Já passou?
Respondi que ainda não havia dado tempo.
Sorrindo, ele respondeu: – Então, toma um pouco de mim! – e a dor passou.
Ele prosseguiu, questionando-me sobre como eu o estava usando, como se não soubesse.
Descrevi minha rotina insana, as noites insones no afã de resolver problemas do trabalho, refeições às pressas, cobranças, deveres…
– Você só me usa para isso? – ele interrompeu e continuou – Só hoje, pela primeira vez, você me viu passar em vez de só me deixar passar! Você resolveu dar tempo para mim, por isso eu resolvi parar o tempo para você refletir o tempo passado, seu tempo presente e como você pretende me usar no futuro, sem me desperdiçar.
O tempo tinha razão!
Há tanto tempo eu estava tão absorto em viver em função do mundo, que o tempo passava sem que eu percebesse, sem sentido ou direção. Eu só o notava enquanto clima, sobretudo quando limitava meus afazeres, ou quando eu não tinha tempo para fazer o que eu gostaria, pois o que era prazeroso eu entendia como perda de um tempo precioso.
– Ah, eu sou precioso para você? – Ele leu meu pensamento!
– Você precisa aprender a me usar melhor! Dar tempo ao tempo, para ter um tempo seu, uma relação pessoal comigo.
Aquela conversa parecia perda de tempo, mas eu lembrei que o tempo estava parado.
Pensei na Teoria da Relatividade. Eu teria memória daquele momento?
O tempo me observava visual e telepaticamente, entendendo o paradoxo que eu experimentava.
– Eu já perdi a conta do tempo que estou por aqui, eterno que sou. Mas você é efêmero! Precisa me aproveitar mais com coisas que não sejam só obrigações e rotinas.
Eu, que cheguei a pensar que tinha todo o tempo do mundo, voltei no tempo da memória e encontrei coisas que eu deveria ter aproveitado ou feito, mas adiei, pensando que não era o momento ideal. Não foi tempo perdido, mas o tempo adiado da oportunidade perdida.
Dizem que o tempo não para, mas ele parou para mim!
Não só parou como conversou comigo!
Não sei precisar quanto tempo isso levou, até porque o tempo estava parado.
O tempo sorriu para mim e disse: – Não lamente não ter me aproveitado mais. Às vezes leva tempo para as pessoas aprenderem a me dosar, entenderem que eu estou sempre por aqui, em qualquer tempo. Eu existo para isso!
Aquele alerta foi um alento, um livramento dos padrões que eu seguia.
O tempo notou isso e sentiu que não havia se perdido em dar-me atenção.
Ele sorriu e as coisas lentamente começaram a retomar seu curso. Era tempo de ele voltar a passar.
Ele se despediu, mas antes de retomar seu infindável curso, olhou para mim e exortou: – Carpe diem! Omni diem!
Adilson Luiz Gonçalves
Escritor, Engenheiro, Pesquisador Universitário e membro da Academia Santista de Letras








