BENITO DE PAULA: DO PIANO À LIRA

Estatura baixa, cabelo comprido, um bigode e cavanhaque “chineses”…

Ele surgiu de forma arrebatadora na década de 1970, emplacando seguidos sucessos, que eram tocados nas rádios e cantados nas ruas.

Seu jeito de tocar piano era diferente, meio “martelado”. Sua voz grave e melódica, ora vibrante, ora chorosa, “grudava” imediatamente na memória.

Assim era Benito di Paula.

No seu auge, chegou a comandar um programa, o Brasil Som 75, na extinta TV Tupi, em 1975, no qual, além de tocar suas músicas, recebia outros grandes nomes da MPB.

No palco, sua “alma cheirava a talco”, como diz a música de Gilberto Gil e Milton Nascimento. Porém, quando saía dele, demonstrava certa timidez, o que não o impediu, num dos programas, de sentar-se na plateia.

Eu assistia, gostava e cantava.

O programa teve apenas uma temporada. A TV Tupi já dava sinais de um futuro tristonho para aquela que havia sido a primeira emissora de televisão do país. O mesmo cenário que, alguns anos antes, havia extinto a TV Excelsior.

Benito caiu no esquecimento da “grande mídia”, como tantos outros grandes nomes da música brasileira, num tempo em que a mediocridade e a degradação moral são impostas como “cultura de massa”, em que a massa cinzenta tem sido substituída pela de cor marrom.

A década de 1970 foi prolífica em odes ao Brasil:

Em 1970, Dom, da dupla Dom & Ravel, compôs “Eu te amo, meu Brasi”, que virou um hino nas vozes dos integrantes do saudoso “Os Incríveis”. Os Novos Baianos, em 1972, cantaram “Brasil Pandeiro”, criação de Assis Valente, em 1941. Martinho da Vila, em 1975, regravou “Aquarela Brasileira”, de Silas de Oliveira, composta como um samba-enredo da Escola de Samba Império Serrano, em 1964. Outros cantores também interpretaram clássicos dos anos de 1940, sobretudo de Ary Barroso, como “Aquarela do Brasil!” e “Canta Brasil”.

Benito di Paula resolveu ser autoral e gravou “Charlie Brown” em 1974. Essa música surgiu a partir de uma experiência dele quando morava em Santos. Ao ver gibis do personagem criado por Charles M. Schulz, ele teve a ideia de ciceroneá-lo numa viagem pelo Brasil.

Aliás, foi em Santos, onde viveu por cerca de dois anos, que Benito, fluminense de nascença, iniciou sua carreira musical, formando seu primeiro grupo e se apresentando na noite santista.

Depois do fenomenal sucesso dos anos de 1970, as aparições de Benito di Paula nas emissoras de TV e rádio passaram a ser esporádicas. Alquebrado, era preciso ampará-lo até o piano, mas só até lá, pois a magia logo voltava. No entanto, ele nunca deixou a memória dos que amam música brasileira de boa qualidade. Tanto é que a Escola de Samba Águia de Ouro, de São Paulo, o homenageou, em 2025, com o samba-enredo “Em Retalhos de Cetim, a Águia de Ouro do Jeito que a Vida Quer”.

Benito nos deixou em 2026.

Certa vez, ele disse que “violão não se empresta a ninguém”. Porém, ao que consta, só teve o piano como instrumento de sua arte. Talvez agora ele aprenda a tocar lira.

Se Deus é brasileiro, Benito ou, melhor, Uday Vellozo, deve ter sido muito bem-vindo!

Adilson Luiz Gonçalves

Escritor, Engenheiro, Pesquisador Universitário e membro da Academia Santista de Letras

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