CONCLAVE E ETIMOLOGIA

CONCLAVE E ETIMOLOGIA
Alerta de “spoiler”, ou seja, quem ainda não viu o filme “Conclave” (EUA, 2024), não deve ler este texto.
Já houve ao menos dois outros filmes que trataram de eleição papal. Um deles, mais recente, é “Anjos e Demônios” (EUA, 2009), e o outro “As Sandálias do Pescador” (EUA, 1968), meu favorito por múltiplos motivos.
“Anjos e demônios”, baseado na obra de Dan Brown, é o de final menos óbvio, enquanto os outros dois são “caçapas cantadas”, pois já é possível antever seus epílogos nas cenas iniciais.
No entanto, “As Sandálias do Pescador”, inspirado em livro de Morris West, me parece melhor elaborado, considerando o contexto da época.
Anthony Quinn, no papel do cardeal Kiril Lakota, tem uma de suas melhores atuações, como ex-condenado a trabalhos forçados por não renunciar à sua fé católica, em meio ao regime comunista da União Soviética. Ele é libertado pelo Premier Piotr Ilitch, do sempre impecável Lawrence Olivier, para tentar, atuando no Vaticano, evitar uma guerra com a China.
Desde o início do filme, tudo já indica que Lakota será o novo Papa. Quando o Papa João Paulo II foi eleito, houve quem associasse sua eleição à estória de West. Eram Papas “que vieram do frio”.
A trama de “Conclave”, baseada em livro de Robert Harris, tem alguma semelhança com “As Sandálias do Pescador”. Uma das diferenças é que o protagonismo é assumido pelo Cardeal Decano, Lawrence, mais uma interpretação fantástica de Ralph Fiennes. Stanley Tucci, como Cardeal Bellini, apresenta mais um trabalho correto, assim como John Lithgow, como Cardeal Tremblay, e Isabella Rosselini, como Irmã Agnes. Entretanto, quem “rouba a cena” várias vezes é Sergio Castellitto, como o explosivo e radical Cardeal Tedesco.
A obviedade da conclusão começa com o surgimento de última hora do Cardeal Benítez, interpretado por Carlos Diehz, eleito de forma quase secreta pelo papa, que se apresenta como tendo exercido suas mais recentes funções em Cabul, no Afeganistão. Logo onde…
No entanto, suas credenciais são irrefutáveis, e ele passa a participar do conclave.
Assim como o Cardeal Lakota, ele vinha de um histórico de riscos e crises de fé.
O filme trata o conclave como um festival de vaidades, perfídias, revelações de escândalos e conchavos políticos de causar náuseas e revolta, com o Cardeal Decano se desdobrando em tentar por um mínimo de ordem naquele caos.
Seu discurso na abertura do conclave, quando abandona o texto formal para expressar sua opinião, é notável, como notável foi Lakota ao contar sua história no campo de trabalhos forçados a outros cardeais.
A presença do Cardeal Benítez é mantida “periférica”, com pequenas intervenções, mas já se percebe que sua postura serena e autêntica insinua o desenlace da trama. A única dúvida que é mantida é sobre uma cirurgia secreta autorizada a ele pelo papa, que não ocorrera.
Numa reunião de alguns cardeais, na tentativa de evitar a eleição de um dos candidatos que consideravam inadequado, após discursos radicais e indefinições gerais, o Cardeal Benítez se levanta e faz um discurso previsível, em meio a olhares surpresos e silêncio dos presentes.
Sem maiores surpresas, ele é eleito, embora a cena tente distrair quem assiste, focando no Cardeal Lawrence, antes que ele se una aos aplausos gerais.

Poderia ser o “grandioso” final, como foi o primeiro discurso de Lakota ao povo, afirmando que usaria os bens da Igreja Católica para auxiliar no combate à fome na China, que era o principal motivo para a guerra temida por Piotr Ilitch. Porém, um padre, encarregado por Lawrence de “investigar” as denúncias que recebeu durante o Conclave, traz notícias preocupantes sobre a cirurgia que o Cardeal Benítez declinara de fazer.
Lawrence procura Benítez para pedir que esclareça sobre o assunto, posto que a sua condição de papa o tornaria alvo do interesse mundial.
Benítez, explica que ao fazer uma cirurgia para remoção de apêndice, descobriram que ele também tinha órgãos femininos. A cirurgia secreta seria para remover esses órgãos, mas ele, ao considerar que, por ter nascido nessa condição, essa era a vontade de Deus, desistiu de fazê-la.
Aí está, em minha opinião, a mensagem mais relevante, que seguramente levará a reflexões.
Aí termina o “spoiler” e começam algumas considerações:
Quando eu tinha entre 12 e 13 anos, na década de 1970, uma vizinha, cujo marido era médico, ao saber de meu gosto por leitura, além de emprestar livros clássicos, também deu revistas médicas.
Numa delas li sobre hermafroditismo, condição rara, mas natural, em que um ser humano nasce com características fisiológicas masculinas e femininas. Consta que tal condição normalmente só se manifesta por ocasião da puberdade, o que é coerente com o enredo do filme.
O termo hermafrodita vem da mitologia grega: Hermafrodito era filho do deus Hermes e da deusa Afrodite, apresentando ambos os sexos: masculino e feminino.
Ao final do filme, quando concluí que Benítez era hermafrodita, como me lembrava de ter lido na adolescência, criei certo constrangimento em quem assistia comigo, bem mais jovem do que eu.
Disseram-me que esse termo era considerado pejorativo e por isso não mais usado no âmbito científico, substituído por intersexo. Imediatamente, pesquisei e constatei que uma e outra palavra ainda eram encontradas na internet. Em uma das fontes li que hermafrodita era um termo utilizado “antigamente”. Senti-me na idade que tenho, embora ele apareça em matérias relacionadas a Lady Gaga, o que é relativamente atual. Matérias especulativas bem ao estilo de marketing de celebridades e, por isso mesmo, totalmente descartáveis.
Pesquisando sobre a lenda de Hermafrodito, que deu origem à definição que eu conhecia, de fato havia margem para interpretações preconceituosas, ainda mais nos tempos atuais.
Porém, “intersexo” também não me pareceu um termo adequado, pois até formulários oficiais recentes não utilizam a palavra “sexo”. Se utilizassem, então haveria três possibilidades: feminino, masculino e intersexo, em vez das dezenas de opções que relacionam. Aliás, elas até podem existir, mas também precisam incluir masculino e feminino, um direito de quem quer se expressar desta forma, por não se identificar com as disponíveis.
A língua portuguesa é rica e pródiga, como já ouvi várias vezes, e não faltam sinônimos disponíveis para tentar contornar situações de potencial conflito de crenças e interpretações, sem cair na obrigatoriedade de usar “cartilhas”.
Eu já tinha uma ideia de como seria a definição mais condizente, e resolvi pesquisar sobre o prefixo “inter” em alguns dicionários. Em resumo, a definição que encontrei foi de que ele exprime a noção de posição média, intermediária ou de relação recíproca, tendo como origem etimológica o latim, significando “entre”.
Nesse sentido, creio que a palavra “intersexo” não é de fato adequada, pois o ser humano, nessa condição não está entre um ou outro sexo, pois possui ambos. Ambos é a “chave” da questão, portanto.
Pesquisando sobre o prefixo “ambi”, também oriundo do latim, encontrei que exprime a noção de ambos ou ao redor. Ambos!
Esse prefixo está presente em múltiplas palavras, como ambíguo, por exemplo, que dependendo do uso também pode ser considerado por alguns como pejorativo, até ofensivo. Eis alguns de seus significados: que tem (ou pode ter) diferentes sentidos; equívoco; que desperta dúvida, incerteza; vago, obscuro, indefinido.
Em contraponto, a palavra “ambidestro” define a pessoa que usa das duas mãos com a mesma eficiência.
Alguns poderão dizer que essa palavra também é preconceituosa, por considerarem que destro se refere à pessoa que usa preferencialmente a mão e o pé direito, “desprezando” os canhotos. Esses críticos radicais podem até questionar a palavra “destreza”, que é utilizada para definir habilidade, agilidade, aptidão e capacidade de percepção, pelo mesmo motivo.

Quando há dialética, tudo pode ser discutido, o que não ocorre quando se tenta impor um pensamente único, perseguindo quem se opõe a ele.
Partindo dessa premissa e da análise que fiz, creio que “ambissexo” seria mais adequado do que “intersexo”.
O patrulhamento do “politicamente correto”, tem reinterpretado algumas palavras e expressões, criado outras e “cancelado” algumas, o que pode ser considerado aceitável em línguas vivas.
Porém, às vezes o preconceito ou o significado que se pensa combater, acaba gerando outros, tão ou mais preconceituosos. Em muitos casos, novas palavras, expressões ou ressignificações de existentes acabam virando parte de dialetos que seus criadores e adeptos tentam impor à sociedade. Dependendo do meio em que surgem, podem gerar radicalismos.
Comecei falando de filmes sobre conclaves, para terminar ponderando sobre etimologia de palavras e expressões.
Creio que corro o risco de ser duplamente “excomungado” em pensamento, atos e palavras…
Adilson Luiz Gonçalves
Escritor, Engenheiro, Pesquisador Universitário e membro da Academia Santista de Letras






