NEM BEBÊ, NEM BRINQUEDO

Meu inconsciente cria fantasias que minha mente sã nunca ousaria imaginar.
Sigmund Freud
Por Margarete Hülsendeger
Entre um vídeo de gatinho e uma receita de bolo, ao rolar o feed das redes sociais, uma imagem curiosa interrompeu a sequência habitual: uma mulher embalava um bebê com a delicadeza que se reserva a uma vida recém-chegada. Nada destoava — a roupinha, a manta suave, a legenda carinhosa. Tudo transmitia um afeto real, até que, com mais atenção, percebeu-se que não era um bebê, e sim uma boneca.
As bonecas reborn, que imitam com impressionante fidelidade a aparência de recém-nascidos, surgiram nos anos 1990, nos Estados Unidos, como peças de colecionadores e objetos artísticos. Hoje, são produzidas com técnicas minuciosas: camadas de tinta que reproduzem o tom da pele, veias pintadas à mão, cílios implantados fio por fio, peso interno que simula o de um bebê real. Algumas, inclusive, vêm com sistemas que imitam respiração ou batimentos cardíacos.
As artesãs responsáveis por dar “vida” a essas bonecas são chamadas de “cegonhas”, numa referência simbólica à figura que traz bebês ao mundo. Muitas trabalham sob encomenda, atendendo tanto ao público infantil quanto a adultos que buscam algo além de um brinquedo.
Com o tempo, esse universo cresceu e se sofisticou. Há grupos online de troca, feiras especializadas, vídeos encenando cenas do cotidiano das bonecas e até certidões de nascimento personalizadas — gestos que reforçam o vínculo simbólico com a ideia de maternidade. Muitos entusiastas montam enxovais completos, com carrinhos, mamadeiras e roupas feitas sob medida. O envolvimento, aliás, não é apenas emocional: dependendo do nível de detalhamento, uma reborn pode custar de R$ 1.000 a mais de R$ 6.000, sem contar os acessórios. É um mercado que une afeto, estética e consumo — e que cresce à medida que o simulacro oferece o que a realidade nem sempre entrega.
Esse interesse ultrapassa os limites do lazer e do passatempo. Ao oferecer previsibilidade, controle, consolo — atributos raros na vida real — crescem também as dúvidas: o que, afinal, essas bonecas representam? A princípio, pode parecer apenas um escape criativo ou uma excentricidade, mas a popularidade crescente das reborn levanta questões mais profundas sobre o modo como lidamos com a dor, a solidão e o desejo de amor.
Para algumas pessoas, o contato com as reborn funciona como forma de relaxamento e expressão lúdica, ativando mecanismos emocionais positivos. Em determinados contextos, cuidar simbolicamente de uma boneca pode representar um gesto de autocuidado, uma tentativa de reconstruir vínculos ou de resgatar sensações de segurança emocional. No entanto, os efeitos variam conforme a intenção por trás da prática. Segundo a psicóloga clínica Larissa Fonseca, essas atividades podem ser benéficas, desde que não se tornem uma forma de escapismo: “A vida adulta pode ter pausas lúdicas, desde que ela não se torne uma fuga da realidade”[1].
A psicanalista Fabiana Guntovitch traz outro olhar: ela observa que a sociedade tende a desvalorizar o brincar na vida adulta, sobretudo quando envolve o universo feminino. “Homens jogarem videogame, muitas vezes, é considerado normal. Mas, para o feminino, existe uma resistência”[2], explica. Essa diferença de percepção não apenas reflete padrões de gênero arraigados, mas também limita a liberdade de expressão emocional de muitas mulheres. Brincar, segundo ela, também é saudável na vida adulta — seja colorir, montar quebra-cabeças, desenhar, jogar videogame ou, sim, cuidar simbolicamente de bonecas.
No entanto, nem sempre é fácil traçar a linha entre o brincar saudável e o escapismo. Em abril de 2025, o caso da adolescente Y.B., de Janaúba (MG), viralizou nas redes e exemplificou esse dilema. Ela publicou um vídeo no TikTok levando Bento, seu bebê reborn, ao hospital, dizendo que havia percebido que ele “não estava bem”. O conteúdo ultrapassou oito milhões de visualizações. Diante das críticas e confusões, Y.B. precisou explicar que tudo era ficção: “Eu faço vídeos fictícios como se fossem de verdade” e “sei que é um boneco de plástico e que não tem nada a ver com ‘maternar’[3]. Só que o problema é que todo mundo está acreditando que o que vê na internet é real”[4].

Quando a ilusão ganha forma tão precisa, tão próxima da realidade, é natural que os limites se embaralhem. E é justamente aí que surgem as perguntas mais incômodas: até que ponto o uso dessas bonecas ajuda a aliviar dores? E em que momento passam a impedir que elas sejam enfrentadas? O luto, por exemplo, é um processo profundo, que exige tempo, nomeação e enfrentamento. Substituir o vazio por um simulacro pode oferecer alívio imediato — mas, ao mesmo tempo, cristalizar uma dor que deveria, aos poucos, se transformar.
O vídeo da jovem mineira, assim como tantos outros nas redes, era delicado, afetuoso até. Mas também inquietante. Algo ali falava de ausência com cara de presença. De vida fingida para amenizar o peso da real.
E talvez seja isso. Talvez a grande ferida da vida adulta seja descobrir que não controlamos quase nada. Nem o afeto, nem a saúde, nem o tempo. E, diante desse caos suave e constante, alguns escolhem o consolo da ilusão bem feita.
Porque a filha (ou filho) de silicone nunca chora de madrugada. Nunca adoece. Nunca cresce. Nunca vai embora.
E talvez — só talvez — haja aí uma ponta de consolo. Ou uma ponta de desespero.
Resta saber qual dos dois pesa mais no colo de uma mãe de brinquedo.
[1] Disponível em https://www.cnnbrasil.com.br/lifestyle/bebes-reborn-entenda-o-que-sao-e-por-que-chamam-atencao/. Acesso em 20 maio 2025.
[2] Disponível em https://www.cnnbrasil.com.br/lifestyle/bebes-reborn-entenda-o-que-sao-e-por-que-chamam-atencao/. Acesso em 20 maio 2025.
[3] Maternar significa cuidar com afeto, como faria uma mãe — mesmo que não se trate de um filho real. No texto, o termo é usado para falar desse cuidado simbólico com as bonecas reborn.
[4] Disponível em https://www.cnnbrasil.com.br/lifestyle/bebes-reborn-entenda-o-que-sao-e-por-que-chamam-atencao/. Acesso em 20 maio 2025.






