AVALIAÇÃO EM DUAS DIMENSÕES: Aprendizagem E Institucional

AVALIAÇÃO EM DUAS DIMENSÕES: Aprendizagem E Institucional
Letícia Belfort Laranjeira[1]
Simône de Oliveira Alencar[2]
RESUMO:
O presente artigo objetiva levantar reflexões sobre as duas dimensões da avaliação escolar: avaliação da aprendizagem e institucional, tendo como instrumento de mediação o Projeto Político Pedagógico (PPP). A metodologia utilizada foi a pesquisa bibliográfica apoiada em Azanha (1998), Sant’Anna (2014), e Luckesi (2011). Os resultados apontam que a avaliação possui um papel importante na educação escolar, e deve ser usada para fins de melhorias da qualidade do ensino e não apenas para obtenção de notas e/ou para manter as verbas na escola.
Palavras-chave: Avaliação escolar; Aprendizagem; Escola.
EVALUATION IN TWO DIMENSIONS: Learning and Institutional
ABSTRACT:
This article aims to raise reflections on the two dimensions of school assessment: learning and institutional assessment, using the Pedagogical Political Project (PPP) as a mediation instrument. The methodology used was bibliographical research supported by Azanha (1998), Sant’Anna (2014), and Luckesi (2011). The results indicate that assessment plays na important role in school education, and should be used to improve the quality of teaching and not just to obtain grades and/or to maintain funds at the school.
Kaywords: School assessment; Learning; School.
INTRODUÇÃO
Este texto é resultado do estudo realizado na disciplina Avaliação Educacional e Institucional, do curso de Pedagogia do Instituto de Educação, Agricultura e Ambiente (IEAA), da Universidade Federal do Amazonas (UFAM), desenvolvida no ano 2023, onde foi refletido sobre os temas: avaliação da aprendizagem escolar, avaliação institucional e Projeto Político Pedagógico (PPP) como dimensão da avaliação.
As temáticas supracitadas ajudaram a conhecer e compreender o conceito e o desenvolvimento de avaliação, não só no processo da aprendizagem, mas também como se efetiva no sistema escolar, principalmente no que se refere ao sistema de avaliação brasileira que ocorre nas instâncias da aprendizagem em seus diferentes níveis de ensino.
A temática é abordada com base nas leituras realizadas durante a disciplina, que contribuíram para o estudo sobre a avaliação. Haja vista que antes de ingressar na universidade, a avaliação é vista como motivo de pânico e estresse, uma vez que carrega consigo diversos fatores que podem ser vistos como pontos positivos ou negativos, o aprovado ou reprovado.
No curso de Pedagogia do IEAA, especificamente no componente curricular que trata da avaliação pôde-se discutir em sala de aula, ouvir contribuições dos colegas também, identificando os diversos instrumentos de avaliação e refletindo sobre os critérios que possibilitem a compreensão do que é ensinado e aprendido, assim também como pude conhecer as concepções e a fundamentação teórica da avaliação, com sua história e seus diferentes enfoques.
Deste modo o objetivo deste trabalho é refletir sobre questões que surgem quando se fala em avaliar: Por quê avaliar? E como avaliar? E, principalmente, compreender que o sistema avaliativo está em volta do sistema educacional.
O sistema avaliativo refere-se às avaliações institucionais em larga escala, que são estimativas externas que permite o Instituto Nacional de Estudos e Pesquisas Educacionais Anísio Teixeira (INEP) apresentar o quadro geral da educação básica brasileira, uma espécie de diagnóstico da educação brasileira.
O foco principal desta reflexão é levantar alguns pontos com um olhar da e na sala de aula das instituições escolares. Para isso realizamos um compilado de discussões acerca da temática, relacionando as duas dimensões da avaliação. Desse modo, o presente estudo está organizado em dois tópicos, o primeiro, trata da avaliação da aprendizagem escolar, o segundo, dialoga sobre a avaliação institucional.
Avaliação da aprendizagem escolar
A avaliação da aprendizagem que frequentemente é associada a notas e classificações, têm sido objeto de diversas pesquisas na área da Educação. Neste trabalho, busca-se aprofundar a discussão e levantar indagações sobre a avaliação da aprendizagem escolar.
Para início de reflexão apresento o memorial descritivo sobre meu processo de avaliação na educação escolar, por isso, nesse momento, utilizarei o pronome pessoal na primeira pessoa do singular, por se tratar de minha experiência pessoal. Ao recordar da época em que estudava no Ensino Fundamental (2005-2013) e Ensino Médio (2014 a 2016), vem algumas lembranças das avaliações que eu fazia para obter notas. Desde o meu primeiro contato em sala de aula nunca passei por uma avaliação diagnóstica, isto é, quando o professor faz para saber em que nível os alunos se encontram na aprendizagem, para a partir dos conhecimentos prévios, trabalhar os conhecimentos científicos. De acordo com Sant’Anna a avaliação diagnóstica:
Visa determinar a presença ou ausência de conhecimentos e habilidades, inclusive buscando detectar pré-requisitos para novas experiências de aprendizagem. Permite averiguar as causas de repetidas dificuldades de aprendizagem. (Sant’Anna, 2014. p. 32).
Tal tipo de avaliação, que é contínua, ou seja, em todo o período letivo o professor deve fazê-la, não apenas avaliar as habilidades e conteúdos dos alunos, mas também para se auto avaliar, saber se tal metodologia utilizada está atendendo as necessidades dos educandos, para assim fazer determinadas mudanças com vistas a alcançar seus objetivos de aprendizagem.
Hoje na faculdade realizando os estágios tanto na Educação Infantil quanto nos Anos Iniciais do Ensino Fundamental, percebo que alguns professores fazem todo processo para acompanhar o desenvolvimento de seus alunos. Seja para saber com quais conteúdos iniciarão o ano letivo, quais as melhores metodologias para trabalhar cada dificuldade encontrada, e quais os melhores procedimentos avaliativos para saber se com essa modalidade de avaliação está obtendo o resultado esperado, e ao fim para saber como os alunos vão concluir essa etapa. Quanto a função da avaliação Luckesi afirma que:
A função verdadeira da avaliação da aprendizagem seria auxiliar a construção da aprendizagem satisfatória: porém, como ela está centralizada nas provas e exames, secundariza o significado do ensino e da aprendizagem como atividades significativas em si mesmas e superestima os exames. Ou seja, pedagogicamente, a avaliação da aprendizagem, na medida em que estiver polarizada pelos exames, não cumprirá sua função de subsidiar a decisão da melhoria da aprendizagem. (LUCKESI, 2011. p. 42)
O uso da avaliação como “medidor” do conhecimento faz com que o objetivo principal seja, encaixar os alunos nas estatísticas de aprovados, a fim de reduzir o índice de reprovados. Como consequência temos alunos com “bons” desempenhos nas avaliações externas, onde grande parte deles são treinados para esses exames, mas pedagogicamente estão fragmentados por esse sistema, que não usa a avaliação como ferramenta para melhorar a aprendizagem.
Estas ações estão ligadas a avaliação da aprendizagem escolar, onde a escola é avaliada pelos exames com a finalidade de trabalhar com os resultados do diagnóstico para melhorar a qualidade de ensino dos alunos. Todavia, alguns professores ainda usam essa metodologia, pois o foco são as notas e desempenho da escola. Quanto ao uso da avaliação como obtenção de notas e a fim de disciplinar os alunos Luckesi afirma que:
Os professores utilizam as provas como instrumento de ameaça e tortura prévia dos alunos, protestando ser um elemento motivador da aprendizagem. Quando o professor sente que seu trabalho não está surtindo o efeito esperado, anuncia aos seus alunos: “Estudem! Caso contrário, vocês poderão se dar mal no dia da prova”. (LUCKESI, 2011. p. 36,37).
Isso serve como pressão para os alunos principalmente quando estão indisciplinados e o professor(a) quer que a sala fique em silêncio, e funciona por um tempo, e depois vem a outras “estratégias” tirar ponto dos faladores, dar pontos aos que fazem os exercícios, e a exposição para a sala: “se você continuar brincando desse jeito além de não tirar nota boa na prova, não vai passar de ano, os colegas vão passar e você vai ficar pra trás”.
Essas ações contribuem para uma educação fragmentada, onde os alunos não são estimulados e acabam decorando os conteúdos para a prova, depois da prova as informações são esquecidas pois o aluno já usou, ou seja, eles decoram para obter uma nota, com a finalidade de serem aprovados. Assim como acontece nas avaliações institucionais que avalia o processo contínuo da aprendizagem em sua implementação a mudanças necessárias.
Avaliação Institucional
As avaliações institucionais são feitas em determinados períodos (de ano em ano) e os alunos são preparados, de forma que os professores revisem edições passadas e conteúdo, que na grande maioria são de língua portuguesa e matemática, que irão sobrecarregar os alunos por pelo menos duas ou três semanas. São sequências de exercícios com perguntas objetivas que contém os conteúdos a serem estudados ou até mesmo decorados.
Os esforços para a realização e implementação de programas de Avaliação Institucional têm se intensificado, constituindo-se numa realidade no campo das políticas universitárias, dos governos e de alguns organismos intencionais de funcionamento da educação. Desse modo, as IES têm suas políticas internas construídas a partir de ajustes de sua prática cotidiana aos padrões existentes, as pressões políticas, sociais e governamentais. (SANCHES, p.107)
Todo esse processo de avaliação institucional se dá através da pressão social e política, que busca cada vez mais números favoráveis para o “bom” funcionamento da escola, os pais cobram boas notas e o governo dá bons resultados para continuar investindo na educação. Perde-se a essência da escola em focar no desenvolvimento dos alunos e na qualidade da educação na qual eles recebem.
Um bom planejamento faz com que a escola caminhe em harmonia para uma só direção, por isso é importante que a gestão escolar esteja disposta a fazer com que a equipe toda que faz parte da instituição, também esteja lutando pelos objetivos da escola e pelo que ela defende. Trabalhando em conjunto para avaliar o que deu certo e o que não deu, a fim de melhorar a qualidade de ensino. Lück afirma que:
A avaliação institucional tem como compromisso a melhoria da qualidade de ensino e do desempenho de seus profissionais (…) focaliza processos e desempenhos com vista à melhoria de práticas e seus resultados, em vista do que não personaliza esses aspectos, nem assume o caráter punitivo, rotulador ou de premiações meritocráticas. (LÜCK, 2012. p. 70,71)
Estes processos contribuem para que a equipe escolar trabalhe em conjunto, nas reuniões onde todos participam, nas atividades culturais e regionais, e na interdisciplinaridade com o objetivo de formar os alunos para o convívio em sociedade, ou seja, dentro da sua realidade. Em muitas ocasiões a busca pelos resultados torna o caminho mais difícil, pois a busca pelas melhores notas de forma mais rápida, trás metodologias tradicionalistas que colocam os alunos em uma bolha, conteúdos do livro sem um contexto da realidade.
Para que a escola se desvincule destes aspectos tradicionalistas é importante que, na elaboração do PPP, sejam organizados todos esses fatores para formar um perfil escolar com práticas pedagógicas voltadas para a diversidade cultural e principalmente para uma educação de qualidade. Sobre o PPP Azanha (1998) afirma que:
O projeto pedagógico da escola é apenas uma oportunidade para que algumas coisas aconteçam e dentre elas o seguinte: tomada de consciência dos principais problemas da escola, das possibilidades de solução e de definição das responsabilidades coletivas e pessoais para eliminar ou atenuar falhas detectadas. (1998, p. 15)
Formular o perfil da escola com base nos problemas a serem resolvidos, durante o período na qual o PPP irá ser reformulado é um compromisso social, pois nele estão os objetivos da escola, a filosofia e os princípios éticos que a instituição irá seguir, levando em consideração que a escola neste período também passará por avaliações.
O que leva a discussão para as avaliações institucionais, principalmente quando se fala no desempenho dos alunos, que são submetidos a testes que julgam e classificam os alunos, numa tentativa de melhorar e manter o funcionamento da escola, e para isso acabam sobrecarregando os alunos com os conteúdos, o financeiro da escola depende da média dos alunos nas avaliações em larga escalas de proficiência.
Um exemplo deste tipo de avaliação é a Prova Brasil, que é destinada aos alunos da 4ª série (5º ano) e 9º série (nono ano) e avalia as disciplinas de Língua Portuguesa e Matemática, sua primeira versão foi em 2005 e é elaborada pelo INEP (instituto de Estudos e Pesquisas Educacionais), hoje em dia o nome não é mais Prova Brasil e sim Saeb (Sistema Nacional de Avaliação da Educação Básica).
Estas provas em larga escala deixam todos sob pressão, os professores que precisam dar suporte aos alunos para que tenham um bom desempenho e os alunos que passam por diversas pré-provas, específicas de Língua Portuguesa e matemática, antes de fazer a oficial.
Isso tudo para que o rendimento da escola não decline e perca suas verbas anuais, o que particularmente defendo que as escolas mais carentes e que apresentam os índices mais baixos de aprovação, é que deveriam receber este apoio, para assim melhorar as instalações físicas e fornecer materiais didáticos para os alunos.
CONSIDERAÇÕES FINAIS
Fazendo uma reflexão sobre o que foi levantado neste trabalho percebe-se que a avaliação está em tudo no nosso cotidiano, desde a compra de um produto no mercado, quando julgamos pelo preço ou pela qualidade (marcar), ou quando compramos uma roupa se for de grife ou de boa qualidade mais com um preço mais acessível. E assim é na educação, os alunos são avaliados e classificados por notas e até mesmo classe social, e escola pelos seus índices de aprovação.
O sistema avaliativo é um sistema altamente classificatório e excludente, pois exclui os alunos mais carentes ou sem condições (sociais, financeiras e pedagógicas) da escola. Assim, as escolas, por sua vez, são separadas por classe social e bairro consequentemente. A avaliação é um processo contínuo, seu objetivo é que ao longo de todo o ano letivo as avaliações ocorram para que haja melhora no desempenho dos alunos.
Lutamos por uma escola que tenha como foco principal o desenvolvimento integral do educando e a qualidade da educação na qual lhes é oferecida, saber qual o papel/ função da avaliação neste processo de melhoria é essencial para que se possa abrir um novo caminho. Que é educar os alunos de modo que eles sejam produtores do conhecimento, formadores de opiniões.
REFERENCIAS BIBLIOGRÁFICAS
AZANHA, José Mário P. Proposta pedagógica e autonomia da escola. Cadernos de História e Filosofia da Educação, São Paulo, 1998.
SANT’ANNA, Ilza Martins. Por que avaliar? como avaliar? Critérios e instrumentos. 17. ed. Petrópolis, RJ: Vozes, 2014.
LÜCK, Heloísa, Perspectivas da avaliação institucional da escola. Petrópolis: Vozes, 2012 (Séries Cadernos de Gestão).
LUCKESI, Cipriano Carlos. Avaliação da aprendizagem escolar: estudos e proposições. 22. ed. São Paulo. Cortez, 2011.
SANCHES, Raquel Cristina Ferraroni, RAPHAEL, Hélio Sônia. Projeto Pedagógico e Avaliação Institucional: articulação e importância. 2006. Acesso: http://portal.mec.gov.br/provabrasil.

[1] Graduanda em Pedagogia, do Instituto de Educação, Agricultura e Ambiente (IEAA), da Universidade Federal do Amazonas (UFAM). E-mail: leticiabeofort80@gmail.com

[2]** Pedagoga, Doutora em Educação. Professora do Instituto de Educação, Agricultura e Ambiente (IEAA), e Professora Permanente do Programa de Pós-graduação em Ensino de Ciências e Humanidades (PPGECH) da Universidade Federal do Amazonas (UFAM). E-mail: simonealencar@ufam.edu.br






