O rumor da ausência

O RUMOR DA AUSÊNCIA

[…] ganhar o domínio sobre outra pessoa é uma coisa dura, impor domínio sobre outra pessoa é errado; dar o domínio de si mesma para outro é uma coisa má.

Toni Morrison

Por Margarete Hülsendeger

Toni Morrison é um dos nomes mais importantes da literatura contemporânea. Primeira mulher negra a vencer o Prêmio Nobel de Literatura, em 1993, também recebeu o Pulitzer por Amada, romance que expõe os traumas deixados pela escravidão na experiência de uma mãe que tenta proteger a filha a qualquer custo. Ao longo da carreira, Morrison se dedicou a narrar histórias de mulheres negras e marginalizadas, sempre com uma linguagem densa, sensível e profundamente humana.

Em Compaixão[1], a autora revisita o passado — mais precisamente, o final do século XVII, quando a América do Norte ainda se organizava como colônia. A trama se passa antes que escravidão racial fosse plenamente legalizada, embora as bases desse sistema brutal já estivessem sendo assentadas. O cenário é uma terra fria, marcada por epidemias e governada por um puritanismo rígido, que controla corpos, crenças e afetos.

A narrativa acompanha um grupo de mulheres que vive em uma fazenda isolada, sob o comando de Jacob Vaark, um senhor anglo-holandês relativamente tolerante para os padrões da época. Estão ali: Florens, uma menina africana entregue como pagamento de dívida; Lina, uma indígena que sobreviveu à destruição de sua aldeia; Rebekka, esposa branca de Vaark, vinda da Europa; e Sorrow, uma jovem negra enigmática, de passado fragmentado. Cada uma delas vive com perdas profundas, e o que as une não é a afeição imediata, mas a convivência forçada, os silêncios compartilhados e a necessidade de sobreviver.

Essas personagens femininas são o verdadeiro centro da narrativa. Embora a história comece e termine com Florens, Morrison alterna o foco entre elas, revelando camadas emocionais e culturais distintas. Florens busca amor e pertencimento, mas carrega uma ferida antiga: a ausência da mãe. Lina, que a acolhe como uma filha, reconhece esse vazio e o nomeia com precisão: “Fome de mãe – ser uma ou ter uma –, ambas tremiam com esse desejo que, Lina sabia, permanecia vivo, viajava nos ossos”.

Lina, aliás, oferece uma das visões mais lúcidas e amargas sobre o processo colonial. Para ela, o homem branco é um predador que devora tudo ao redor: “Era seu destino mastigar o mundo e cuspir um horror que destruiria todos os povos primordiais”. É por meio dessas vozes femininas que Morrison reconstrói a realidade de uma sociedade nascente, cuja crueldade, por não estar plenamente institucionalizada, soa ainda mais selvagem.

Ao retratar essa época, Morrison evita qualquer simplificação. Não há personagens idealizados. Rebekka, embora sofra com o isolamento e com as perdas, também revela um lado cruel quando seus interesses estão em jogo. Lina, por mais sábia e protetora, é tomada pelo ressentimento. Sorrow, a mais isolada entre todas, encontra na maternidade um ponto de virada silencioso. Em comum, todas enfrentam alguma forma de exclusão: da cultura, da terra, da língua ou da liberdade.

A violência do mundo ao redor é constante. As regras são frágeis, e a escravidão já desenha suas fronteiras. Em um trecho, Morrison resume com clareza como o sistema de opressão racial estava sendo construído: “Ao autorizar qualquer branco a matar qualquer negro por qualquer razão; ao recompensar proprietários pela mutilação ou morte de um escravo, eles separavam e protegiam todos os brancos de todos os outros para sempre”. A frase revela o nascimento de uma estrutura social baseada na exclusão e no medo — algo que perduraria por séculos.

Nesse ambiente hostil, Florens descobre o amor — um sentimento que, para ela, se mistura com dependência e insegurança. Seu envolvimento com um ferreiro negro livre desperta o desejo intenso de ser amada, mas também traz à tona seus traumas mais profundos. A ausência da mãe, a rejeição não compreendida e a condição de “propriedade” explodem em momentos de dor e confusão.

É apenas no último capítulo que o gesto inicial, motor da narrativa, se mostra por completo. Pela primeira vez, Morrison dá voz à mãe de Florens. Descobre-se que não houve abandono, mas um ato silencioso de compaixão. Diante da ameaça do abuso e sem meios de proteger os dois filhos, a mãe entrega Florens a um homem que, aos seus olhos, parecia menos cruel. A escolha não foi por fraqueza, mas por amor — um amor que só pôde se expressar na separação. Essa descoberta muda o sentido da história e carrega enorme impacto emocional. A compaixão, enfim, se revela — e com ela, a dor de quem foi mal compreendido por toda uma vida.

Compaixão exige do leitor atenção e escuta. Não é um romance sobre heroínas, mas sobre mulheres reais, em luta constante com suas perdas e esperanças. Como em Amada, Morrison mostra que o amor materno pode ser dilacerante — e ainda assim, intensamente humano. Sua escrita é precisa, bela e atenta aos detalhes da linguagem, da história e da alma de suas personagens.

Compaixão não é apenas uma narrativa sobre o passado, mas um convite a rever os julgamentos fáceis e a reconhecer os gestos invisíveis de cuidado que resistem ao tempo. É um livro que permanece em nós — como um sussurro que, uma vez ouvido, não se esquece.


[1] MORRISON, Toni. Compaixão. Tradução José Rubens Siqueira. São Paulo: Companhia das Letras, 2019 (E-book Kindle)

Margarete Hülsendeger – Possui graduação em Licenciatura Plena em Física pela Pontifícia Universidade Católica do Rio Grande do Sul (1985), Mestrado em Educação em Ciências e Matemática pela Pontifícia Universidade Católica do Rio Grande do Sul (2002-2004), Mestrado em Teoria da Literatura pela Pontifícia Universidade Católica do Rio Grande do Sul (2014-2015) e Doutorado em Teoria da Literatura pela Pontifícia Universidade Católica do Rio Grande do Sul (2016-2020). Foi professora titular na disciplina de Física em escolas de ensino particular. É escritora, com textos publicados em revistas e sites literários, capítulos de livros, publicando, em 2011, pela EDIPUCRS, obra intitulada “E Todavia se Move” e, pela mesma editora, em 2014, a obra “Um diálogo improvável: homens e mulheres que fizeram história”.

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