Não foi só com ela

NÃO FOI SÓ COM ELA
É preferível sofrer a injustiça do que praticar uma injustiça. E eu prefiro sofrer uma injustiça do que praticá-la. Se você pratica a injustiça, pode ter certeza que a reparação um dia virá. Isso me conforta
Marina Silva
Chamaram Marina Silva ao Congresso com a mesma disposição de quem convida para um jantar já sabendo que servirá veneno. Um “convite institucional” – desses que chegam acompanhados de sorrisos contidos e microfones armados. Não para ouvir, mas para atacar.
Foi em maio, no Senado, que o primeiro episódio ganhou forma. Durante uma audiência, o senador Plínio Valério (PSDB–AM) afirmou, com frieza deliberada: “a mulher merece respeito, a ministra não”. Marina, com a serenidade de quem resiste há décadas a todo tipo de deslegitimação, exigiu um pedido de desculpas. Como não foi atendida, deixou a audiência. E o mais assustador é saber que esse mesmo senador, em outro momento, já havia usado a palavra “enforcar” ao se referir a ela — sim, uma ministra de Estado, alvo de frases que passam quase sem consequência quando o alvo é uma mulher firme em suas convicções.
Dois meses depois, veio o segundo capítulo — agora na Câmara dos Deputados. O deputado Evair de Melo (PP-ES), autor do requerimento de convocação, não poupou ataques. Comparou Marina Silva a grupos armados como as Farc e o Hamas, numa tentativa absurda de associar sua atuação ambiental a uma ameaça terrorista. E, como se não bastasse, voltou a compará-la a um câncer – metáfora que revela mais sobre quem a profere do que sobre quem a recebe.
Mesmo sob ataques, Marina respondeu com calma, afirmando que o que se via ali era o aprofundamento do desrespeito já naturalizado em outras esferas do poder. E que, apesar de tudo, sentia-se em paz.
Mas quem vive esse tipo de violência política sistemática sabe: paz, nesse contexto, é resistência disfarçada de silêncio.
E não foi só com ela.
A política brasileira é marcada por uma longa tradição de desrespeito e violência contra mulheres que ousam levantar a voz. Dilma Rousseff foi constantemente ridicularizada e desmoralizada em praça pública – muitas vezes com mais paixão do que argumentos. Tábata Amaral teve sua inteligência posta em dúvida por ser jovem, periférica e articulada. Talíria Petrone precisa de proteção armada. Benedita da Silva, com décadas de serviço público, ainda é tratada com condescendência. E Marielle Franco, vereadora do Rio, foi assassinada por dizer o que pensava.
Sim, assassinada. Após anos de investigações marcadas por silêncio, entraves e versões contraditórias, a Polícia Federal finalmente apresentou respostas mais concretas. Em 2024, foram presos três nomes de peso: o deputado federal Chiquinho Brazão, seu irmão, o conselheiro do Tribunal de Contas Domingos Brazão, e Rivaldo Barbosa, chefe da Polícia Civil do Rio na época do crime. A execução de Marielle não foi um ato isolado — foi parte de uma engrenagem que pune quem ousa expor o que muitos preferem manter escondido.
Mas nem toda a luta se dá dentro das instituições. Eunice Paiva, por exemplo, nunca ocupou cargo político — e foi uma das vozes mais firmes contra o silêncio da ditadura. Após o desaparecimento de seu marido, o deputado Rubens Paiva, sequestrado e morto pelo regime militar, Eunice passou a exigir o impossível: respostas, justiça e memória. Sua busca tornou-se missão pública, e mais tarde, trabalho jurídico. Atuou na defesa de povos indígenas, contra grilagens e expropriações. Sua trajetória é contada no filme Ainda Estou Aqui, em que a força de uma mulher sem cargo, mas com coragem, nos lembra o que é fazer política – mesmo fora da política.
A verdade é que o Brasil teme mulheres que falam. E teme ainda mais aquelas que falam em nome de outras. Que denunciam, confrontam, propõem. Que sabem que política não é camaradagem entre homens engravatados, mas decisão que afeta vidas.
E por isso, são interrompidas. São hostilizadas. São deslegitimadas.
Ou, como Marielle, são caladas para sempre.
É por isso que tantas vezes tentam silenciá-las: com interrupções, ofensas, ameaças ou, no caso extremo, com a morte.
Mas a história não esquece. E cada tentativa de apagamento só reforça a urgência de ouvi-las — antes que a velha lógica de poder finja, outra vez, que foi só com ela.







