CONCERTOS PARA TENTAR CONSERTAR
Vivi minha infância nos anos de 1960 e a adolescência nos de 1970.
Nessa época, emissoras de rádio e TV programavam músicas e espetáculos de vários estilos e idiomas, além de promoverem festivais nacionais e internacionais. A música estava no ar, para todos os gostos!
Estudei em escolas públicas até o Segundo Grau, e no então Ginásio (quatro últimas séries do Primeiro Grau), uma das disciplinas era Educação Musical.
Como atividades extracurriculares, uma das professoras nos levou para assistir a uma apresentação da Orquestra Sinfônica de São Paulo, além de concertos dos pianistas Arthur Moreira Lima e Eudóxia de Barros. Como diria o Sr. Spock, fascinantes!
Participar valia um ponto a mais na nota, porém, o fascínio pela música clássica se instalou, sem nunca deixar de lado a música popular, o rock e tudo o mais que me fazia bem aos ouvidos. Aliás, faz até hoje.
Passei a assistir, enquanto durou, ao programa “Concertos para a Juventude”, nas manhãs de domingo. Fiquei surpreso ao descobrir que conhecia várias das obras executadas, que já ouvira em trilhas sonoras de filmes e novelas.
Os discos da coleção “Mestres da Música”, de minha cunhada, que eu ouvia sem ela saber, agregaram valor à minha cultura musical. Também constatei que já ouvira algumas daquelas melodias em versões de cantores e grupos famosos.
Naquele tempo, vários dos instrumentistas de grupos pop e rock, sobretudo o progressivo, tinham formação clássica.
Passei a pesquisar os compositores clássicos.
Descobri que muitos eram de origem humilde, o que não os impediu de desenvolver seus talentos, num tempo em que a música erudita era popular. Embora pobres, seu talento foi reconhecido e apoiado por mecenas.
Notei que a erudição também estava presente na música popular contemporânea, ao ponto de alguns artistas terem seus instrumentos como “sobrenome”.

Hoje, infelizmente, o que era popular, diversificado e universal nos anos de 1960 e 70, agora é uma massificação de qualidade e mesmice pífias, em alguns casos até ofensiva e degradante. A voz, a letra e a melodia são cada vez menos importantes.
Faltam alternativas? O mercado impõe? Isso é intencional?
Não sei, mas hoje sou como o menino do filme “O Sexto Sentido”: só ouço gente morta!
Há honrosas exceções, reconheço, mas não têm muito espaço na mídia.
Sei que é caro levar uma orquestra até onde o povo está, embora alguns artistas famosos recebam milhões para fazer apresentações que o público ainda tem que pagar caro para ver. Mas bem que algumas emissoras de TV de maior apelo de mídia poderiam voltar a incluir música clássica em suas programações.
Quem sabe ainda haja conserto para a indigência cultural atual.
Adilson Luiz Gonçalves
Escritor, Engenheiro e Pesquisador Universitário
Membro da Academia Santista de Letras






