APRENDER A APRENDER
No último ano do Ensino Médio Técnico, tive um professor de Português que me fez aprender, em um ano, com prazer, o que eu não havia entendido nos dez anteriores, por tédio!
Seu nome era Ulisses, mas ele dizia que também poderíamos chamá-lo de Odisseu, como o herói da mitologia grega. Tinha por volta de setenta anos.
Ele ensinou as diferenças entre o português coloquial, o formal e o científico e, desde então, procuro observá-las.
Outra prática que tenho há décadas é a de consultar dicionários, sempre que tenho dúvidas ou sou alertado sobre um possível equívoco.
Isso não evita que eu cometa erros. Consciente deles, procurarei não errar mais.
Uso gírias e regionalismos no dia a dia, mas só em conversas informais, nunca em textos ou apresentações profissionais. Quando o faço, uso aspas.
Outro dia, uma artista, que foi professora por cerca de dez anos, comentou que numa pós-graduação uma professora afirmou que a linguagem coloquial e regionalismos deveriam ser aceitos sem correções, pois isso seria uma forma de violência ou constrangimento.
Ela questionou a professora, afirmando que a escola era o lugar de aprender o correto e disseminá-lo, e não o contrário. Citou como exemplo sua mãe, que usava uma expressão incorretamente. Ela e a irmã a corrigiram, e ela não errou mais.
A professora, indignada, protestou afirmando que jamais corrigiria sua mãe.
O problema não está em corrigir, mas em como a correção é feita. Jamais pode ser de forma arrogante ou estúpida.
Basta ser alfabetizado para que o hábito de boa leitura seja incentivado. Ler textos bem elaborados ajuda a reconhecer erros e corrigi-los, além de enriquecer o vocabulário. Um professor que não faz isso está corrompendo sua profissão.
Ignorância, no sentido de ignorar, desconhecer, pode e deve ser corrigida, ainda mais no ambiente escolar, nunca formalizada. Ela pode ser “cômoda”, mas em nada contribui para a evolução do ser humano. Ele precisa aprender, inclusive a aprender, pois a aprendizagem é um processo contínuo.
Aceitar a ignorância só interessa aos que buscam conquistar a “simpatia” para os seus interesses, por meio de uma falsa empatia.
O tipo de simplificações e flexibilizações que alguns defendem é equivalente aos “cantos de sereias”, ao ciclope e ao feitiço de Circe, que transformava seres humanos em animais, que Ulisses enfrentou para voltar a Ítaca. Eram desvios, em nome de outros interesses “pedagógicos”.
Aprender a ler e escrever corretamente, como outras coisas úteis na vida, é um processo semelhante ao do retorno de Ulisses à Ítaca: uma odisseia! Demora alguns anos, envolve persistência para lutar contra obstáculos pessoais e impostos, mas nos instrumenta para sermos protagonistas de nossa própria história!
Adilson Luiz Gonçalves
Escritor, Engenheiro e Pesquisador Universitário
Membro da Academia Santista de Letras






