O IDIOMA SECRETO DO AFETO

Contar e recontar sempre a mesma história, usar e continuar usando sempre a mesma linguagem particular: é esta, afinal, a maneira de resistir a um tempo vertiginoso e trágico, de permanecer num lugar certo e “nosso”, nesse espaço desmedido e cheio de ruína que costumamos chamar de moderno.

Ettore Finazzi-Agrò

Natalia Ginzburg

Por Margarete Hülsendeger

Todo mundo carrega um dicionário secreto, feito de palavras e expressões que só fazem sentido dentro de casa. Pode ser um apelido carinhoso, uma bronca repetida desde a infância ou uma frase que, dita fora do círculo familiar, soaria incompreensível. É desse material invisível — tecido de afeto e memória, mas também de ritmo e som — que Natalia Ginzburg constrói Léxico Familiar[1], um dos mais belos retratos de família da literatura italiana.

Publicado em 1963 e vencedor do Prêmio Strega, o livro se apoia nas lembranças da autora sobre sua juventude na família Levi, de origem judaica, em meio à Itália dos anos 1930 e 1940. Ginzburg (1916–1991) nasceu em Palermo, mas cresceu em Turim, filha de Giuseppe Levi, respeitado professor universitário de anatomia, e de Lidia Tanzi, mulher de espírito leve e expansivo. A convivência com pais de temperamentos tão distintos o rigor disciplinador dele, a espontaneidade calorosa dela — moldou não apenas o ambiente familiar, mas também o estilo literário de Natalia: atento às palavras, claro na observação e sensível aos contrastes humanos.

O pai tinha um jeito peculiar de classificar as pessoas. “Negro” era quem tinha maneiras deselegantes, estabanadas e tímidas, quem se vestia de forma imprópria, quem não sabia ir à montanha ou falar línguas estrangeiras”. Já “burro” não significava ignorante, mas alguém que cometia indelicadezas ou grosserias. Esses termos, repetidos com naturalidade, funcionavam como uma senha de pertencimento — um código interno que unia os de dentro e delimitava as fronteiras com o mundo externo. A mãe, por outro lado, cultivava leveza: “era alegre por natureza, e onde quer que fosse arranjava pessoas a quem amar e por quem ser amada, onde quer que fosse arranjava um jeito de se divertir com as coisas que tinha a seu redor, e de ser feliz”.

Na edição brasileira, o livro traz um prefácio de Alejandro Zambra, intitulado A alegria do relato. O escritor chileno observa que “A originalidade de Natalia Ginzburg está, também, em sua recusa em buscar a originalidade em outro lugar que não na própria natureza da experiência”. Essa ideia não apenas descreve com precisão o projeto de Léxico Familiar, mas também aproxima Ginzburg de outra grande memorialista: a francesa Anne Ernaux. Assim como Ernaux, ela transforma a experiência pessoal em matéria literária sem recorrer a artifícios excessivos, confiando na força de uma linguagem simples, impregnada de vivência, para comover e iluminar o leitor.

Embora a narrativa esteja centrada em cenas domésticas, o pano de fundo é sombrio: o avanço do fascismo, a perseguição aos judeus e a repressão aos opositores políticos. Entre as medidas autoritárias estava o confinamento, que Natalia e seu primeiro marido, Leone Ginzburg, sofreram ao lado de amigos. Imposta a intelectuais e militantes contrários ao regime, essa pena os obrigava a viver em cidades pequenas e afastadas, sob vigilância policial. Foi nesse exílio silencioso — com poucas perspectivas e liberdade restrita — que Natalia amadureceu parte das memórias que registraria mais tarde, preservando-as não apenas como lembrança, mas como matéria literária.

A força de Léxico Familiar vem justamente dessa combinação: a leveza do relato íntimo atravessada pela gravidade da história. Ginzburg escreve com uma simplicidade apenas aparente, mas cada cena é construída com precisão rítmica e escolha rigorosa de palavras, revelando que preservar memórias é também preservar a linguagem que lhes dá forma. Essa dupla dimensão — afeto e palavra — mantém o leitor envolvido até a última página.

O volume se encerra com um pósfácio de Ettore Finazzi-Agrò, que destaca o papel central da linguagem na obra. Para ele, o “‘léxico familiar’, nesse sentido, se apresenta como vocabulário policromo do afeto — cujas cores, se não estivessem fixadas na página, estariam fadadas a esmaecer e sumir”. Ler Léxico Familiar é como folhear um álbum de fotografias onde, ao lado dos rostos sorridentes, se insinuam as sombras de uma época. Reconhecemos que, mesmo sem partilhar daquela história ou daqueles nomes, todos carregamos um léxico particular — feito de palavras que guardam o rastro de quem amamos. Ao preservar o seu, Natalia Ginzburg nos oferece mais do que um retrato de família: oferece um lembrete urgente de que é preciso proteger nossas próprias palavras antes que o tempo as apague.


[1] GINZBURG, Natalia. Léxico familiar. Tradução Livia Deorsola. São Paulo: Companhia das letras, 2018.

Margarete Hülsendeger – Possui graduação em Licenciatura Plena em Física pela Pontifícia Universidade Católica do Rio Grande do Sul (1985), Mestrado em Educação em Ciências e Matemática pela Pontifícia Universidade Católica do Rio Grande do Sul (2002-2004), Mestrado em Teoria da Literatura pela Pontifícia Universidade Católica do Rio Grande do Sul (2014-2015) e Doutorado em Teoria da Literatura pela Pontifícia Universidade Católica do Rio Grande do Sul (2016-2020). Foi professora titular na disciplina de Física em escolas de ensino particular. É escritora, com textos publicados em revistas e sites literários, capítulos de livros, publicando, em 2011, pela EDIPUCRS, obra intitulada “E Todavia se Move” e, pela mesma editora, em 2014, a obra “Um diálogo improvável: homens e mulheres que fizeram história”.

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