O Inquilino e os Bichos da República

Carta a um Senhor em Brasília

Por Gilberto da Silva

Senhor Deputado,

Antes de tudo, peço desculpas pela ousadia de escrever-lhe. Sinto muito ocupar lhe com detalhes diante de seus inúmeros atributos e tarefas no Congresso Nacional. No entanto, sinto que é meu dever relatar os acontecimentos que culminaram na ruína do seu apartamento funcional — aquele que me foi cedido “por mútua conveniência” durante sua ausência em missão diplomática, financiada, claro, com dinheiro público. Fico honrado e eternamente agradecido com o seu desprendimento.

Desde que me instalei no apartamento, algo em mim se desregulou. Senti-me estranho, nauseado, com dores de cabeça. A princípio, atribuí ao ar seco (Brasília me era desconhecida), ou talvez ao silêncio oblíquo das paredes revestidas de madeira nobre — paredes um tanto cafonas, diga-se. Mas não. Era mais profundo. Comecei, lentamente, a vomitar gados.

Sim, pedaços de gado no início, o que me levou a suspeitar da qualidade da carne vendida na cidade. Mas logo vieram os gados inteiros. Com olhos bovinos e mugidos abafados que ecoavam pelo corredor. No começo, um por semana. Eu os mantinha no banheiro, alimentava com restos de salada e os distraía com vídeos de seus discursos. Eles pareciam gostar. Discursos poderosos! Eu os retirava do site da Câmara Federal. Posteriormente, passei a comprar ração mais nutritiva — um gasto mensal considerável. Agora percebi como o agro é complexo!

Mas então, para minha surpresa, vieram os lagartos. Escamosos, silenciosos, com olhos que me julgavam. Surgiam entre os gados, como se fossem seus advogados. E eu vomitava mais. Às vezes três porções por dia. O tapete persa (aliás, bonito — trouxe de onde?) do hall virou um pântano. A geladeira, um viveiro. A biblioteca, uma trincheira que eu tentava sempre proteger visto que lá tem livros que creio eu o senhor ainda deseja ler ou reler. Talvez depois de ler esta carta o senhor possa ler o exemplar de Bestiário, do belga argentino Júlio Cortázar, que enfeita a segunda prateleira em Literatura fantástica e atente sobretudo ao conto Carta a uma Senhorita em Paris.

Tentei controlar. Meditei. Tomei chá de boldo. Assisti a sessões da Câmara. Inspirava-me nos discursos mais sórdidos — às vezes nos mais pitorescos. E haja retórica pitoresca! Nada funcionou.

O problema, senhor Deputado, é que os gados começaram a se multiplicar. E os lagartos, a conspirar. Um deles, o maior, subiu à sua escrivaninha e começou a redigir algo. Não sei o quê. Mas usava sua caneta Montblanc (de onde surgiu caneta tão famosa, não sei não).

Ontem, o apartamento explodiu. Não literalmente. Mas metaforicamente. Os vizinhos fugiram. A síndica me denunciou. E eu, cercado por mugidos e répteis, entendi: a realidade já não me pertence. A polícia chegou. Fui intimado.

Devolvo-lhe as chaves. E peço que, se possível, envie um exorcista.

Atenciosamente,
O inquilino que vomita o Brasil.

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