Construindo uma escola antirracista: formação, organização curricular e práticas pedagógicas

Construindo uma escola antirracista: formação, organização curricular e práticas pedagógicas
Jozaene Maximiano Figueira Alves Faria[*]
RESUMO: O presente artigo tem por objetivo apresentar proposições teórico-práticas para a construção de uma escola antirracista. Para tanto fundamentamos nossas discussões em BNCC (2018); Cavalleiro (2012); Freire (1996); Munganga (2005); Trilhos da Alfabetização (2021); Santos (2022).Tais discussões asseveram para o reconhecimento da existencia do racismo para tomarmos atitudes para combatê-lo.
PALAVRAS-CHAVE: Racismo. Educação antirrascita. Formação de professores. Organização curriclar. Práticas pedagógicas.
ABSTRACT: This article aims to present theoretical and practical propositions for building an anti-racist school. To this end, our discussions are grounded in BNCC (2018); Cavalleiro (2012); Freire (1996); Munganga (2005); Trilhos da Alfabetização (2021); Santos (2022). These discussions emphasize the importance of recognizing the existence of racism in order to take action to combat it.
KEYWORDS: Racism. Anti-racist education. Teacher training. Curriculum organization. Pedagogical practices.
Introdução
Para iniciar esse texto precisamos antes de tudo reconhecer de que o racismo existe, tal compreensão é tão importante quando assumir atitudes antirracistas. O racismo foi um processo construído historicamente, a partir de relações de poder nas quais existem os superiores e os inferiores, tal dicotomia está enraizada e disseminada pela cultura eurocêntrica, que é reproduzida de maneira consciente ou inconsciente na nossa sociedade.
Romper o mito da democracia racial é tomar consciência sobre a existência do racismo e esse processo exige desconstruções profundas na maneira de agir e pensar, dentre elas: expressões racistas, silenciamentos de racismo no cotidiano, os privilégios da branquitude. Nesse contexto, escola pode contribuir ou reforçar atitudes de discriminação e preconceito, o objetivo desse texto é apresentar como a escola pode corroborar o enfrentamento do racismo estrutural e para o processo da construção de uma sociedade mais justa e igualitária por meio da: formação docente, organização curricular e práticas pedagógicas.
Formação docente
Cavalleiro (2012), em sua pesquisa aborda que existe racismo desde a infância, seja na família e no ambiente escolar, fato constatado no cotidiano escolar em que as crianças negras, de quatro a seis anos, “já apresentam uma identidade negativa em relação ao grupo étnico ao qual pertencem.” (CAVALLEIRO, 2012, p. 10). E que as crianças brancas possuem atitudes que reverberam superioridade, preconceitos e discriminação em relação às negras. No entanto, muitas vezes tais atitudes são silenciadas ou suavizadas pelos próprios professores. Munganga (2005), também destaca na apresentação de livro organizado por ele, Superando o Racismo na Escola, a falta de preparo do professor em lidar com a diversidade, acrescido ao preconceito incutido nos materiais didático-pedagógicos disponibilizado nas escolas.
Isto posto, o livro Trilhos da Alfabetização: Por uma educação antirracista (2021), apresenta ações práticas que podem ser assumidas pelo: contar histórias que valorizem personagens negras ou indígenas; realizar brincadeiras que valorizem as referências culturais das famílias; trazer lideranças de comunidades negras para dialogar com os estudantes; realizar passeios a locais de histórias e memórias afrobrasileiras; acolher com afetividade as crianças negras e indígenas que sofreram discriminação por suas características físicas e culturais; ter atitudes imediatas diante de situações cotidianas que envolvam racismo, apontado o erro e estimulando a revisão das ações.
Ampliando as atitudes relacionadas aos professores, o livro organizado por Santos (2022) apresenta diversas possibilidades de práticas educativas que combatem o racismo no cotidiano escolar, que corroboram para o combate ao racismo institucional, no qual a toda escola assume esse papel, “compreendemos que o “Projeto Construindo uma Escola Antirracista”, realizado de novembro de 2020 a abril de 2022, foi um primeiro e importante passo de enfrentamento ao racismo institucional que permeia práticas escolares.” (Santos, 2022, p. 41)
Nesse projeto podemos “afirmar que o ser e tornar-se professora é um processo contínuo. As professoras, participantes do Projeto, se desconstruíram e se reconstruíram, pois, com certeza, não são mais as mesmas. As atividades desenvolvidas nos levaram a compreender que, para efetivar uma educação antirracista, é necessário transgredir, ou seja, ir além do que está no currículo prescrito.” (Sousa, Silva Júnior, 2022, 60-61)
Organização curricular
A organização curricular das instituições educativas também precisa combater o racismo de diferentes maneiras. Nesse sentido, podemos destacar a Base Nacional Comum Curricular (BNCC, 2018) aponta a necessidade de inclusão das temáticas que envolvem relações étnico-raciais no currículo da educação básica. Santos (2022) organizou um livro que defende que o currículo deve ser construído, compreendendo e valorizando os povos africanos e afrodescendentes, apresentando relatos, sequências didáticas, ensaios e diversas experiencias educativas que convidam a pensar e realizar ações educativas de combate ao racismo.
Seguindo esse viés, o livro “Trilhos da alfabetização: por uma educação antirracista” também traz experiências e propostas metodologias que corroboram a desconstrução da rigidez de um currículo eurocêntrico e defende o enfrentamento do racismo cultural, a partir de um referencial pautado na superação de preconceitos e na diversidade.
Práticas pedagógicas
A partir das propostas curriculares por uma educação antirracista, podemos apresentar práticas pedagógicas que corroboram a construção de uma sociedade mais justa. O livro organizado por Santos (2022) apresenta proposições teórico-práticas que corroboram efetivamente para a construção de uma escola antirracista, dentre elas: para ingresso na escola de Educação Básica da UFU (ESEBA) destinou -se a reserva de vagas para estudantes pretos, pardos, indígenas e com perfil socioeconômico de baixa renda; e realização da pesquisa-ação: “construindo uma escola antirracista: ingresso e permanência de cotistas na educação básica”. As experiencias corroboraram para a formação dos professores, discentes e das famílias no enfrentamento do racismo estrutural, práticas que reverberam e fazem valer a pena, quando uma criança, partir das propostas do projeto, deixa de se considerar “rosada/bege” e se reconhece como negra nos de uma caixa de giz de cera nos tons de pele.
A obra “Trilhos da alfabetização: por uma educação antirracista” apresenta valores civilizatórios afro-brasileiros que corroboram a construção de uma pedagogia antirracista: oralidade, circularidade, corporeidade, musicalidade, ludicidade, cooperatividade, tais valores perpassam o afeto e a empatia com as crianças e constroem espaços que valorizam a cultura afro-brasileira, africana e dos povos indígenas.
Na prática pedagógica também precisamos reconhecer o branqueamento nas obras literárias levadas para as crianças nas escolas e refletir: quantos desses livros apresentam crianças negras como protagonistas? E em quais situações: de valorização ou de inferioridade, tristeza ou alegria? Existem autores (as) negras? E ilustradores? Infelizmente na literatura infantil também encontramos o privilégio da branquitude, no qual as crianças brancas têm mais oportunidades de se identificar em situações de destaque positivo e superior em relação as crianças negras. Tal fato corrobora na formação negativa da identidade das crianças negras. “Se a pessoa acumula na sua memória as referências positivas do seu povo, é natural que venha à tona o sentimento de pertencimento como reforço à sua identidade racial. O contrário é fácil de acontecer, se se alimenta uma memória pouco construtiva para sua humanidade.” (Andrade, 2005, p. 120). E ainda:
a diferença para uma criança não negra está no número de opções em que ela se vê para elaborar sua identidade. Em todo o leque dessa oferta, podemos encontrá-las nas mais diferentes formas, papéis e jeitos, o que compensa uma ou outra desqualificação. O mesmo não acontece para a criança negra, que encontra imagens pouco dignas para se reconhecer, o que não está na profissão, mas na altivez, simpatia, inteligência, enfim, integridade como pessoa e não apenas bobice como configuração. (Lima, 2005, p. 109)
Considerações finais
A construção de uma escola antirracista é um compromisso para promoção da justiça social, respeito a diversidade e equidade, é um processo que exige (re) construções e (re) elaborações de concepções construídas historicamente, incutidas de valores ideológicos e relações de poder. Reconhecer que o racismo existe é o primeiro passo para projetar ações para seu combate e no âmbito escolar, a mudança precisa partir do compromisso coletivo da instituição educativa, na formação dos professores, da organização curricular e das práticas pedagógicas. Para Freire (1996) “ensinar exige compreender que a educação é uma forma intervenção no mundo”, transpondo para combate ao racismo, temos que desmascarar a ideologia “eurocêntrica” dominante e abrir possibilidades para conhecer tempos e espaços sobre outras ópticas
Referências Bibliográficas
ANDRADE, Inaldete Pinheiro de. Construindo a auto-estima da criança negra. In: MUNANGA, Kabengele (Org.). Superando o racismo na escola. 2. ed. Brasília: Ministério da Educação, Secretaria de Educação, 2005. p. 117-124.
BRASIL. Base Nacional Comum Curricular. Ministério da Educação. Secretaria de Educação Básica. Brasília,
DF, 2018.
CAVALLEIRO, Eliane dos Santos. Do silêncio do lar ao silêncio escolar: racismo, preconceito e discriminação na educação infantil. 6ª ed. – São Paulo: Contexto, 2010.
FREIRE, Paulo. Pedagogia da Autonomia: saberes necessários à prática educativa. São Paulo: Paz e Terra, 1996.
LIMA, Heloisa P. Personagens negros na literatura infantil. In: MUNANGA, Kabengele (Org.). Superando o racismo na escola. 2. ed. Brasília: Ministério da Educação, Secretaria de Educação, 2005. p. 101-116.
MUNANGA, Kabengele. Superando o Racismo na Escola. Brasília: Ministério da Educação, Secretaria de Educação, 2ª Edição, 2005.
SANTOS, Neli Edite. (Org.). Construindo uma Educação Antirracista: reflexões, afetos e experiências. Curitiba: CRV, 2022. Disponível em: <https://www.editoracrv.com.br/produtos/detalhes/37385-construindo-umaeducacao-antirracistabr-reflexoes-afetos-e-experiencias?srsltid=AfmBOop9SwEXcsyKCpvfEww2YwYegTPFNvLAU2gAf54Ivecr3IA6QiCx >
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SOUSA, Léa Aureliano de; SILVA JUNIOR, Astrogildo Fernandes. Reflexões sobre a formação continuada de docentes no âmbito do projeto “Construindo uma escola antirracista”. In: SANTOS, Neli Edite (Org.). Construindo uma educação antirracista: reflexões, afetos e experiências. Curitiba: CRV, 2022. p. 47-62. Disponível em: https://www.editoracrv.com.br/produtos/detalhes/37385-construindo-umaeducacao-antirracistabr-reflexoes-afetos-e-experiencias







