Miopia Cultural e Educação Moderna: Uma reflexão Crítica sobre a Colonialidade do Saber

Miopia Cultural e Educação Moderna: Uma reflexão Crítica sobre a Colonialidade do Saber

Kailany Oliveira Andrade e Silva¹, Giovanna Martins Costa² e Roberta Mota Nascimento³

RESUMO

Este artigo tem como objetivo fazer uma análise crítica da educação moderna como instrumento de dominação e reprodução do colonialismo, discutindo seus impactos na valorização dos saberes locais e na homogeneização das identidades culturais. Partindo do conceito de miopia cultural, investiga-se como a imposição de modelos pedagógicos eurocêntricos contribuem para a marginalização de conhecimentos tradicionais e manutenção da estrutura de poder colonial. 

Palavras-chave: Educação Moderna; Colonialismo; Miopia Cultural; Saberes tradicionais; Descolonização.

ABSTRACT

This article aims to provide a critical analysis of modern education as an instrument of domination and reproduction of colonialism, discussing its impacts on the devaluation of local knowledge and the homogenization of cultural identities. Based on the concept of cultural myopia, it investigates how the imposition of Eurocentric pedagogical models contributes to the marginalization of traditional knowledge and the maintenance of colonial power structures.

Keywords: Modern Education; Colonialism; Cultural Myopia; Traditional Knowledge; Decolonization.

INTRODUÇÃO

A educação, frequentemente tratada como base para o progresso e para a emancipação social, também pode operar como um mecanismo sutil de dominação cultural. A imposição de modelos pedagógicos eurocêntricos ao redor do mundo tem desconsiderado as especificidades culturais e os saberes tradicionais de povos não ocidentais, contribuindo para a reprodução do colonialismo em contextos contemporâneos.

Este artigo propõe uma reflexão sobre a educação moderna, utilizando como ponto de partida o documentário “Escolarizando o mundo: o último fardo do homem branco” (Carol Black, 2010). Nosso objetivo é refletir sobre a atuação da educação moderna como instrumento de dominação, com especial ênfase no conceito de miopia cultural. Discutiremos como essa miopia, definida pela limitação em reconhecer e validar conhecimentos não ocidentais, contribui para a exclusão, desvalorização e apagamento de diversas formas de organização social, espiritualidade, ciência e linguagem.

Por meio da educação moderna é possível perceber que há um apagamento cultural a partir da escolarização da população, já que saberes empíricos são na maioria das vezes subestimados e acabam por serem apagados do processo educacional das/os estudantes, caracterizando a colonialidade do saber.

Para o processo de escrita desse trabalho leva-se em consideração a definição de educação moderna proposta pelos participantes do documentário “Escolarizando o Mundo: O Último Fardo do Homem Branco” (2010), dirigido por Carol Black. O mesmo longa aborda outros conceitos utilizados como miopia cultural.

Por fim, o artigo problematiza a colonialidade do saber propondo uma perspectiva contra-hegemônica por meio de uma  educação decolonial que seria, de acordo com Dos Santos (2025), uma forma de resistência e luta à colonialidade do saber que invalida saberes locais e ancestrais.

METODOLOGIA DA PESQUISA

Esta pesquisa caracteriza-se como uma abordagem qualitativa, de natureza teórica e caráter exploratório, cuja finalidade é refletir sobre os impactos da educação moderna na reprodução do colonialismo e na marginalização de saberes tradicionais. A escolha por essa abordagem fundamenta-se na complexidade do tema, que exige uma compreensão aprofundada de contextos históricos, culturais e políticos.

O estudo se estrutura a partir de uma análise crítica e interpretativa de conteúdo, baseada no documentário “Escolarizando o Mundo: O Último Fardo do Homem Branco” (2010), dirigido por Carol Black. Essa obra audiovisual é utilizada como fonte principal para ilustrar, exemplificar e sustentar os argumentos centrais desenvolvidos ao longo do artigo.

A análise do documentário foi orientada por uma perspectiva decolonial, com ênfase no conceito de miopia cultural — entendido como a limitação de reconhecer e validar formas de conhecimento distintas do modelo ocidental. Esse conceito funcionou como eixo interpretativo para examinar como práticas educacionais coloniais continuam presentes, mesmo em contextos contemporâneos e sob discursos de progresso e emancipação.

Além do documentário, foram utilizadas referências bibliográficas complementares de autores que discutem os efeitos do colonialismo na educação. A seleção dessas obras teve como objetivo construir um referencial teórico alinhado à proposta de análise.

A metodologia adotada não se baseia em coleta de dados empíricos, mas sim na análise textual e simbólica dos discursos presentes no documentário e nas obras teóricas, compreendendo-os como construções ideológicas e culturais que expressam e sustentam estruturas de poder. A crítica proposta parte do princípio de que a linguagem e os sistemas educacionais são instrumentos centrais na manutenção da dominação cultural.

Na análise bibliográfica e do documentário o artigo inspirou em Ortiz Ocaña e Arias López (2019), recorremos a um “contemplar comunal”. Isso significa engajar-se com as ideias das autoras e autores bem como da diretora do documentário de forma emotiva, colaborativa e sem julgamento prévio, gerando um diálogo de saberes e sabedorias decoloniais. A revisão bibliográfica e a análise do documentário, portanto, foram um encontro decolonizante com as vozes e pensamentos que desafiam as lógicas eurocêntricas.

Optou-se, ainda, por uma abordagem interdisciplinar, envolvendo os campos da educação, antropologia, sociologia e estudos culturais, o que permitiu ampliar a compreensão do fenômeno em questão e enriquecer a discussão. Essa estratégia metodológica visa romper com os limites das análises unidimensionais e oferecer uma visão mais complexa da problemática.

Por fim, é importante ressaltar que esta pesquisa adota uma postura ética e política de valorização, respeito e diálogo com as diferentes culturasbuscando contribuir para o debate sobre a urgência de práticas educacionais descolonizadoras, que respeitem e incorporem os saberes locais e promovam a justiça epistemológica.

RESULTADO E DISCUSSÃO

A análise da educação moderna revela que, ao invés de promover uma verdadeira emancipação dos povos, esse tipo de escolarização muitas vezes acaba por desvalorizar os saberes tradicionais, desintegrar comunidades locais e comprometer modos de vida sustentáveis, como ocorre em localidades do Himalaia, África e Filipinas, com vimos no documentário. O autor queniano Thiong’o (2025), nos alerta sobre os efeitos da educação moderna, ou conforme o autor, a educação burguesa, que leva a um processo de enfraquecimento das pessoas, fazendo com que elas creiam que não são capazes. Longe de dar às pessoas confiança nas suas habilidades e capacidades de superar obstáculos, tendem a fazer com que sintam suas inadequações, suas fraquezas e incapacidades. É uma educação marcada por uma miopia cultural, que enfatiza uma determinada cultura, subalternizando outras. Assim, mantém os privilégios de determinados grupos que permanecem no poder. Conforme o autor, “a educação como um processo de alienação produz uma galeria de estrelas ativas e uma massa indiferenciada de admiradores agradecidos” (Thiong’o, 2025, p.124).

Pode-se atribuir o conceito de  miopia cultural, como uma tendência de se considerar o modelo ocidental como universal e superior, ignorando as especificidades, valores e contextos das culturas locais. É a caracterização da monocultura do saber. Prevalece na sala de aula um daltonomismo cultural, apagando o arco-íris de culturas que compõe esse espaço. 

Ressalta-se que cada cultura funciona como um ecossistema único, construído com base em uma profunda interação com seu ambiente, desconsiderar essa diversidade cultural é, portanto, um gesto de prepotência que deslegitima conhecimentos que, embora sejam  diferentes dos conhecimentos acadêmicos, são igualmente valiosos. Além disso, o discurso da educação como solução para a pobreza e como porta de acesso a uma vida melhor muitas vezes encobre interesses geopolíticos e econômicos.

Em vez de libertar, esse modelo educacional tende a fortalecer uma monocultura global, moldando indivíduos para atender a lógicas urbanas e capitalistas. A permanência de práticas colonialistas no sistema educacional contemporâneo revela-se, entre outros aspectos, na imposição da língua inglesa como símbolo de progresso, modernidade e acesso ao conhecimento científico, promovendo um processo de apagamento identitário e epistemológico de povos originários e comunidades tradicionais. Essa hegemonia linguística, muitas vezes disfarçada sob o discurso da globalização e da internacionalização do ensino, contribui para a desvalorização de saberes locais e de línguas indígenas, reforçando estruturas de poder que remontam ao colonialismo histórico.

Nesse contexto, a escola assume papel central na manutenção de uma lógica eurocêntrica que silencia outras formas de conhecimento e resistência cultural. Como apontam Pennycook e Makoni (2020), a padronização linguística e a marginalização de línguas locais nas instituições de ensino são estratégias contínuas de dominação e controle social, reproduzindo hierarquias coloniais no campo da linguagem e da educação.

O conceito de miopia cultural se torna ainda mais evidente quando se observa como essas práticas educacionais afetam a autoestima dos povos tradicionais. Ao impor um único tipo de conhecimento como o legítimo — o ocidental — a escola acaba desqualificando outros saberes e práticas, o que contribui para o enfraquecimento cultural e simbólico dessas populações.

A principal característica dessa educação é a sua profunda desconexão com o ambiente local. O conhecimento tradicional, que permitiu a comunidades sobreviverem de forma sustentável por gerações, é ativamente desvalorizado. Saberes sobre o clima local, o solo, a água e a biodiversidade são substituídos por um currículo abstrato e universalizado, que ensina as crianças a valorizar produtos corporativos e a aspirar a uma vida urbana de consumo. O resultado é paradoxal e trágico: as crianças aprendem sobre o mundo “lá fora”, mas se tornam incapazes de sobreviver em seu próprio ambiente. A escola, nesse sentido, não educa, mas desenraiza.

É importante e necessário ressaltar como esse processo reproduz as estruturas psicológicas do colonialismo. A educação ocidental introduz um profundo senso de inferioridade nas crianças, suas tradições, sua língua, suas roupas e o conhecimento de seus antecessores são retratados como “atrasados”, “primitivos” e vergonhosos. A imposição de uma língua estrangeira, como o inglês, acompanhada de punições pelo uso da língua nativa que não são apenas simbólicas, exemplificada no documentário através da cobrança de quantias de rúpias na escola como castigo, acelera a perda de identidade e cultura. Logo, compreende que a educação moderna com traços do colonialismo cria indivíduos alienados de suas próprias raízes, que veem sua cultura como um obstáculo ao “desenvolvimento” . Além disso, ao definir um padrão único de sucesso, o sistema educacional global inevitavelmente rotula a maioria das pessoas como “fracassos”, criando hierarquias e desigualdades que antes não existiam.

A partir disso, vale atentar-se para como a ideia de o que é bom e evoluído é construída mediante uma visão Ocidental e assim acontece um efeito dominó de eventos que leva os influenciados a cair no meio da divisão de mundos e perderem sua história como parte de um povo. Atualmente, são impostos valores educacionais que nunca serão úteis para certas populações, já que são saberes direcionados aos países considerados “desenvolvidos”, então seriam praticamente inúteis em certas realidades. O que leva ao pensamento de o que é considerado bom? O que é considerado evoluído? O que é considerado confortável?

Sabe-se que o ser humano está sempre em busca de um prazer (seja em forma de sentimentos – alegria, felicidade, satisfação – ou de satisfação fisiológica – conforto), na sociedade eurocêntrica o que traria isso? Podemos dizer que seria o dinheiro, e a partir disso para consegui-lo é necessário um trabalho especializado que é alcançado através da chamada educação moderna. Agora levando o mesmo raciocínio para outros ambientes, o que desencadearia esse prazer? Apenas quem está lá é capaz de responder essa pergunta e quem impôs que a resposta para alcançar essa meta é através da educação moderna? Essa ideia vem dos próprios colonizadores, que trazem povos para o seu convívio, mas não para torná-los parte como iguais, mas sim para servi-los.

 Nesse sentido, o termo miopia cultural ilustra bem essa ideia de apagamento de certas culturas, já que os colonizadores enxergam apenas suas próprias. Muitos povos mostram no documentário que os seus jovens não sabem mais como sobreviver e viver em suas próprias casa, já que a educação que lhes é imposta não leva em consideração suas realidades e nem algo próximo a elas. A educação moderna não preenche a lacuna empírica que é inata ao ser humana, ela apaga esses conhecimentos e desvalida-os.

Ademais, o filme nos leva a entender melhor o conceito de colonialidade e como ela influencia na educação. Povos vistos como superiores apagam culturas crendo que a sua própria é de alguma forma superior, porém o que é considerado superior por esses, pode e não é superior para os outros. Culturas são formadas com o passar do tempo e elas são uma forma de conhecimento, com elas a raça humana sobreviveu pelo planeta Terra por milhares de anos, justamente por conta da sua diversidade e adaptação nos seus respectivos ambientes.

CONSIDERAÇÕES FINAIS

Ao analisar a educação moderna e suas marcar à luz da miopia cultural, o suposto progresso oferecido revela-se uma estratégia de homogeneização e imposição hegemônica. Ao promover uma única forma de conhecimento e um único modelo de vida, a escolarização global não apenas destrói a diversidade cultural e a sustentabilidade: ecológica, cultural, psicológica, cultural, religiosa, entre outras, mas perpetua a lógica colonial de desvalorização do outro, deixando um rastro de perda, alienação e dependência. A verdadeira educação deveria fortalecer as culturas locais e promover a diversidade, em vez de preparar indivíduos para servir a uma economia global extrativista que os desenraizam de seu próprio mundo.

Portanto, pode-se ver essa miopia cultural como uma forma desumana de manter o controle de parte da raça humana, é uma forma de apagamento cultural, de apagamento do ser e sua individualidade. Diante uma sociedade eurocêntrica que busca incansavelmente uma evolução, é contraditório suas ações nada evoluídas com outros considerados diferentes. É preciso olhar para a história para criar um presente e futuro melhores já que no passado os eventos em que um certo grupo achava-se superior resultaram nos maiores genocídios da humanidade. Sendo assim, deve-se lutar contra essa hegemonia para que todos sejam preservados, já que apesar de existir apenas uma raça, existem particularidades de cada um que devem ser preservadas e respeitadas.

REFERÊNCIAS

BLACK, Carol. Escolarizando o mundo: o último fardo do homem branco. Direção: Carol Black. [S.l.]: Lost People Films, 2010. 1 vídeo (65 min), son., color. Disponível em: https://youtu.be/3Xux89-8MX4?si=Se3bRxXEeCGNUgcd . Acesso em: 26 jul. 2025.

DOS SANTOS, Antônio Nacílio Sousa et al. THE CONVERGENCE BETWEEN THE TEACHINGS OF PAULO FREIRE AND THE PRINCIPLES OF DECOLONIAL EDUCATION: PATHS TO EMANCIPATION AND RESISTANCE TO EDUCATIONAL COLONIALISM. ARACÊ , [S. l.], v. 7, n. 2, p. 4914–4945, 2025. DOI: 10.56238/arev7n2-024. Disponível em: https://periodicos.newsciencepubl.com/arace/article/view/3131. Acesso em: 17 jul. 2025.

PENNYCOOK, Alastair; MAKONI, Sinfree. Innovations and challenges in applied linguistics from the Global South. London: Routledge, 2020.

THIONG’O, Ngugi Wa. Descolonizado a mente. Porto Alegre: Dublinense, 2025.

¹ Discente do curso de graduação em Enfermagem – ABI na Universidade Federal de Uberlândia – UFU, kailany.silva@ufu.br

² Discente do curso de graduação em Enfermagem – ABI na Universidade Federal de Uberlândia – UFU, giovanna.costa12@ufu.br

³ Discente do curso de graduação em Enfermagem – ABI na Universidade Federal de Uberlândia – UFU, roberta.mota@ufu.br

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