Diário de ideias e a alfabetização criativa

Diário de ideias e a alfabetização criativa

Jozaene Maximiano Figueira Alves Faria[*]

RESUMO: O presente artigo tem por objetivo apresentar o Diário de ideias como uma metodologia criativa do ensino e aprendizagem da leitura da escrita. Para tanto, nosso texto aborda as pesquisas e implicações teórico-práticas de Muniz e colaboradoras em: Muniz et al. (2021), Muniz (2020), Muniz, Dornellas e Lima (2021), Muniz, Dornellas e Lima (2022)

PALAVRAS-CHAVE: Alfabetização. Metodologia inovadora. Ensino e aprendizagem. Criatividade. Protagonismo das crianças

ABSTRACT:

This article aims to present the Diário de Ideias (Ideas Journal) as a creative methodology for teaching and learning reading and writing. To this end, the text discusses the theoretical and practical implications of the research developed by Muniz and collaborators, as found in: Muniz et al. (2021), Muniz (2020), Muniz, Dornellas and Lima (2021), and Muniz, Dornellas and Lima (2022).]

KEYWORDS: Literacy. Innovative methodology. Teaching and learning. Creativity. Children’s protagonism.

Introdução

Muniz (2020) apresenta o “Diário de ideias” como uma metodologia inovadora na alfabetização, a partir de sua pesquisa de doutorado que buscou compreender como as crianças aprender a ler e a escrever, mas junto a isso, como a criatividade se expressa nesse processo e como se desenvolve a subjetividade, com os elementos dos processos emocionais, afetivos envolvidos no processo de aprendizagem. A autora define o diário:

em um espaço que  presentifica o autor, e que pode ser composto pelo acontecer das ações em meio a processos de imaginação e criação. Diário pode retratar algo privado, mas também algo que pode ser compartilhado com o outro. Mais do que um simples caderno, o diário é um instrumento autoral que coloca cada pessoa como produtora nas suas experiências, ideias e sentimentos.(MUNIZ, 2020, p. 39-40)

Fundamentação teórica da metodologia do Diário de ideias

No percurso da construção da metodologia do Diário de ideias, a autora se fundamenta na Teoria da Subjetividade de Gonzalez Rey, nas perspectivas da criatividade de Mitijanes Martínez e em Paulo Freire dos quais discorreremos a seguir.

Gonzalez Rey apresenta a Teoria da Subjetividade, nela considera como caráter gerador do ser humano frente ao que se vive, o sujeito age e transforma o mundo, permeado pela história, a cultura, rompendo com ideia de passividade para receber algo, linearidade. Transpondo esse conceito para a educação, o caráter gerador da subjetividade é a possibilidade do ser humano ir além da realidade vivida, assim a aprendizagem escolar como um processo subjetivo, possibilita considerar as diversas experiências vividas pelas crianças em diferentes contextos – afetadas por processos emocionais dentro de produções simbólicas, se estruturam e consolidam-se nos processos de aprendizagem, acrescidas de outras produções subjetivas das crianças geradas nesses momentos.

Nesse contexto, Muniz em sua investigação buscou compreender a complexidade da leitura e da escrita e encontrou diversos estudos que consideravam separadamente os elementos constituintes nesse processo de aprendizagem e encontrou o desafio de compreendê-los unindo o emocional e o simbólico em uma unidade. E assim, a pesquisa de Muniz dialoga com a criatividade de Mitijans Martínez, que criou a perspectiva de que para aprender criativamente é necessário: personalizar a informação (utilizar o que aprendemos em nosso cotidiano); confrontação da informação (questionar o que está aprendendo); produção, geração de ideias próprias e novas que transcendem o dado (criar novas ideias, produções, a partir do que vivenciou, não simplesmente reproduzir o que foi ensinado).

As autoras ainda identificaram um quarto elemento que diferencia a aprendizagem criativa da leitura e da escrita dos outros tipos de aprendizagem: a relação lúdica, que é uma relação de entrega, espontânea, na qual das crianças tem a possibilidade de inventar palavras, criar narrativas e histórias, confecção de materiais e registros próprios (diários, cadernos), escritas espontâneas sobre suas experiências, encontram encantamentos e estranhamentos, problematizações e a busca por novas possibilidades de aprender, um envolvimento gratuito da criança frente a linguagem escrita, imaginação, reflexão e geração de ideias e ações em que em alguma medida se direcionam a ir além do que está posto ao aprendiz.  Desse modo, “compreendemos que na aprendizagem criativa da leitura e da escrita estão presentes processos que envolvem o jogo e o brincar na singularidade de cada caso.” (MUNIZ, 2020, p. 57-58)

Para promover esses momentos, compreendendo o professor como um pesquisador que está na escola diante das observações e das possibilidades da turma, Muniz propõe a criação de um cenário social, termo utilizado por Gonzalez Rey na metodologia da Epistemologia Qualitativa, que consiste em criar um espaço de diálogo, proximidade entre as crianças, construção de vínculos, confiança no outro para dizer o que sente, pensa.

Considerando esse cenário, uma das propostas do “Diário de ideais” é a roda dialógica, a partir dos Círculos de Cultura de Paulo Freire, no qual organização das turmas em círculos, envolve a cultura, o coletivo do aprender. E assim possibilita a escuta atenta, diálogo, respeito ao outro, olhar para a realidade de cada, suas vivências, suas histórias, quem somos e como tais fatores podem participar da aprendizagem no contexto escolar. Nesse sentido, os conteúdos rígidos dão lugar aos que são produzidos a partir das experiências e dos interesses do grupo e o planejamento é colaborativo das ações cotidianas. As rodas dialógicas possibilitam trocas, perguntas, interesses, sentimento de pertencimento ao contexto escolar a partir das experiências de cada um.

Muniz (2020) apresenta a propostas das rodas dialógicas sobre uma colcha de retalhos, não de maneira aleatória, mas com significado, cada pedaço de tecido separado representa uma roda, uma ideia, um momento, uma experiência e eles são unidos por alinhavos, para conectar, compartilhar esses momentos em contextos sociais distintos a partir de diversas linguagens. Os registros das rodas dialógicas rendem uma ou duas linhas experiências que são as possibilidades de ideais e ações que serão efetivadas, assim o planejamento está intrinsecamente relacionado as experiencias vividas pelas crianças.

Diante dessa breve explanação dos aspectos teórico-metodológicos do Diário de ideias, apresentamos os três pilares essenciais da proposta: experienciar; registrar; compartilhar que estão interligados. Larrosa já nos dizia que a experiência nos toca, nos transforma de alguma maneira, nesse sentido, os registros feitos pelas crianças em seus diários de ideias, nas diferentes vivências nos contextos familiares e outros, possibilitam registrar de maneira autoral e compartilhar seu universo, suas compreensões e assim são evidenciadas as potencialidades das crianças. Assim sendo, “no Diário de ideias, está presente a escuta sensível, atenta e interessada para as narrativas e os registros dos aprendizes, para as possibilidades da diversidade da linguagem infantil, para as investigações próprias das crianças sobre o universo da leitura e da escrita.” (Muniz, 2020, p. 24)

A riqueza desses registros conta com ilustrações, escrita, narrativas das crianças, rótulos, desenhos, músicas, recortes, pinturas diversas materialidades que envolvem múltiplas possibilidades de expressão humana e fazem parte do cotidiano e dos interesses das crianças. Nesse sentido, podemos Muniz também fundamenta sua proposta do Diário de ideias em Vygotsky ao apresentar que para se aprender a ler e escrita precisa haver uma necessidade de comunicar com o outro. Por meio dos registros as crianças comunicam o que é importante e foi criado por elas.

As ações do projeto Diários de ideias são expansivas, envolvem a formação de professores, as famílias das crianças, diversas formas de expressão e comunicação das crianças: Jornal Diário de Ideia; Espaço CriAtiva Criança; Diário de ideias da família; ViDiários; Ações solidárias, Oficinas; clube de leitura; dentre outros.

Considerações finais

Portanto, a aprendizagem criativa da leitura e da escrita mobilizada pela metodologia inovadora do Diário rompe com a visão limitada da reprodução e memorização e se apresenta como processo de comunicação, imaginação, expressão e criação; compreensão; autoria das crianças; utilização da escrita para interação com o outro. Nesse sentido,

propõe-se que o ensino da leitura e da escrita esteja em consonância com a formação de um aprendiz produtor e não assimilador de ideias, que seja capaz de, quando ler ou escrever, realizar essas ações pensando, gerando ideais próprias capazes de transformar suas ações. (MUNIZ, 2020, p. 65)

Partindo das vivências dos estudantes, na escuta sensível de suas experiências, as expressões e produções das crianças torna possível a aprendizagem criativa, mobiliza sentimentos das crianças que se reconhecem como protagonistas do seu processo de desenvolvimento.

Referências Bibliográficas

GONZÁLEZ REY, Fernando. Pesquisa qualitativa e subjetividade: os processos de construção da informação. São Paulo: Cengage Learning, 2017.

MUNIZ, Luciana Soares; FERREIRA, Juliene Madureira; LIMA, Lucianna Ribeiro; MITJÁNS MARTÍNEZ, Albertina (Orgs.). Aprendizagem e trabalho pedagógico: criatividade e inovação em foco. Uberlândia: EDUFU, 2021.

Disponível em: <https://repositorio.ufu.br/bitstream/123456789/35395/8/eClasse_Aprendizagem_Trabalho_Pedagogico%20%282%29.pdf> Acesso em 10 set. 2025.

MUNIZ, Luciana Soares. Diário de ideias: linhas de experiências. Uberlândia: Edufu, 2020. Disponível em: <https://edufu.ufu.br/sites/edufu.ufu.br/files/diario_de_ideias_ebook_2020_1.pdf > Acesso em 10 set. 2025.

MUNIZ, Luciana Soares; DORNELLAS, Vaneide Corrêa; LIMA, Lucianna Ribeiro (Orgs.). O processo de ensino e aprendizagem nos anos iniciais do ensino fundamental: linhas de experiências. Curitiba: CRV, 2021.

MUNIZ, Luciana Soares; DORNELLAS, Vaneide Corrêa; LIMA, Lucianna Ribeiro (Orgs.). Diário de Ideias: Experiências de Implementação e seus impactos no processo de ensino e aprendizagem na Educação Básica. Curitiba: CRV, 2022.


[*]Mestre em educação pelo Programa de Pós-Graduação em Educação/PPGED/UFU. Professora da Educação Infantil na rede Municipal de Ensino de Uberlândia, ORCID: https://orcid.org/0000-0003-0499-8472 e e-mail: josy2209@yahoo.com.br.

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