O SILÊNCIO DA MEMÓRIA
Como se suporta? Sem um fogo a arder no peito. Sem um tu a quem voltar e abraçar.
Han Kang

Por Margarete Hülsendeger
A escritora sul-coreana Han Kang, vencedora do Prêmio Nobel de Literatura de 2023, reafirma, em Sem despedidas[1], sua habilidade singular de transformar em linguagem poética aquilo que costuma permanecer silenciado: a dor histórica, o luto coletivo e a violência estatal. Distante do glamour estético dos populares dramas coreanos que conquistaram espaço no imaginário global, a autora mergulha em uma das páginas mais sangrentas e esquecidas da história moderna da Coreia do Sul — o massacre de Jeju, ocorrido entre 1948 e 1949.
A ilha de Jeju, hoje conhecida por sua beleza natural e vocação turística, foi palco de uma repressão brutal promovida pelo recém-formado governo sul-coreano, com apoio direto das forças militares norte-americanas. Temendo o avanço do comunismo no sul da península, o Estado classificou como levantes subversivos diversas manifestações populares — muitas delas pacíficas e ligadas a questões agrárias. A resposta foi desproporcional: entre 25 e 30 mil civis foram mortos, e milhares de outros desapareceram.
Han Kang não permite que esses números permaneçam frios e distantes. Em determinado momento do romance, a narrativa lembra: “Não foi por coincidência que umas trinta mil pessoas foram mortas nesta ilha naquele inverno, e outras duzentas mil foram assassinadas no continente no verão seguinte”. A autora chega a relatar que as forças militares americanas ordenaram o extermínio de toda a população da ilha — cerca de trezentas mil pessoas —, se fosse necessário para impedir que se tornassem comunistas.

É nesse terreno histórico que a trama se desenrola. Kyung-ha, a protagonista, é uma escritora que parte de Seul rumo à ilha de Jeju para cuidar do pássaro de estimação de sua amiga Inseon, hospitalizada de forma repentina. Ao chegar à casa isolada da amiga, Kyung-ha passa a explorar não apenas o espaço físico, mas também os vestígios emocionais e históricos que ali permanecem guardados.
Ela encontra registros do massacre e mergulha em uma jornada de escuta, reconstrução e afeto — tudo envolto por uma atmosfera onírica, intensificada pelo elemento mais surpreendente da narrativa: um diálogo constante e silencioso com Inseon — ou com algo que dela permanece ali —, que atravessa o livro como uma presença tênue, quase espectral, mas profundamente afetiva. Essa comunicação silenciosa com o invisível gera uma tensão singular entre o sonho e o horror: “Os sonhos são coisas aterradoras. Não são humilhantes. Revelam coisas sobre nós das quais não tínhamos qualquer consciência”, reflete a protagonista em um dos trechos mais reveladores da obra.
A divisão do livro em três partes — Pássaro, Noite, Chama — reforça sua carga simbólica. O Pássaro remete ao início da jornada, ao cuidado e à fragilidade da vida. A Noite representa o mergulho na memória, no inconsciente, no luto e no esquecimento coletivo. Já a Chama encarna a dor e a resistência — uma força interior que persiste mesmo nas situações mais extremas.
E é justamente nessa terceira parte que a revelação central se desenha: a história contada por Inseon, em seus diálogos com Kyung-ha, não era sua, mas a de sua mãe — uma mulher que viveu calada, cujas dores e gestos de resistência permaneceram soterrados por décadas. Inseon confessa que só conseguiu conhecer verdadeiramente a mãe após sua morte, quando passou a reconhecer, no silêncio dela, não a passividade, mas a força de quem que sobreviveu à barbárie. A chama, nesse contexto, simboliza essa herança silenciosa de resistência que atravessa gerações.
Sem despedidas não é um romance linear, tampouco oferece respostas prontas. Pelo contrário, exige do leitor uma escuta ativa e um olhar atento para os fragmentos que, pouco a pouco, revelam o todo. Trata-se de uma obra que convida a montar um quebra-cabeça emocional, histórico e simbólico. A compreensão não surge de imediato; ela se constrói aos poucos, à medida que as peças se encaixam: vozes que emergem, imagens que retornam, ausências que pesam mais do que as presenças.
Nesse sentido, o romance se alicerça em três grandes eixos: memória, linguagem e silêncio. A memória, nesta obra, é uma força que resiste ao apagamento. Não é linear nem objetiva — emerge de forma esparsa, evocada por sonhos, documentos e sensações. A linguagem, por sua vez, é o instrumento com que Han Kang tenta nomear o indizível, mas também é constantemente tensionada por seus próprios limites. Suas frases curtas, quase sussurradas, jamais tentam se impor à violência que descrevem. Já o silêncio, longe de ser ausência, é tratado como matéria densa, quase tátil. Ele pesa sobre os personagens, sobre a narrativa e sobre o próprio leitor — e talvez seja esse peso o que mais aproxima a obra da verdade.
Com Sem despedidas, Han Kang reafirma sua vocação para escrever o que muitos evitam: os mortos sem nome, os traumas não elaborados, as histórias que os livros oficiais não contam. Em diálogo com seu aclamado Atos Humanos, que aborda o massacre de Gwangju, em 1980, este novo romance dá continuidade ao seu projeto literário de dar forma à dor coletiva, sempre de maneira ética, sensível e profundamente humana. Os episódios retratados — Jeju e Gwangju — têm em comum o silêncio que os envolve. São acontecimentos convenientemente esquecidos por uma sociedade que, ao buscar estabilidade e progresso, preferiu não revisitar seus próprios fantasmas. Mas Han Kang não aceita esse pacto de esquecimento. Sua literatura, ao contrário, é um chamado — não ao confronto violento, mas à escuta, à lembrança e à dignidade dos que foram calados.
Sem despedidas é um livro para ser lido com atenção, sensibilidade e paciência. Ele não se impõe — convida. Não instrui — sussurra. E, nesse gesto silencioso e firme, transforma-se não apenas em romance, mas em memorial literário, onde o amor, a perda e a memória se entrelaçam na tentativa de resistir ao esquecimento.
[1] KANG, Han. Sem despedidas. Tradução de Natália T. M. Okabayashi. São Paulo: Todavia, 2025.







