Da diversificação à sojalização: comoditização da agricultura familiar em Imbituva (PR), 1995-2023
De la diversificación a la sojalización: comoditización de la agricultura familiar en Imbituva (PR), 1995-2023

Zaqueu Luiz Bobato[1]
Resumo: O artigo analisa as transformações na estrutura produtiva agrícola do município de Imbituva (PR) entre 1995 e 2023, com foco no processo de comoditização e na reconfiguração da agricultura familiar. Utilizando dados dos Censos Agropecuários do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE, 1998; 2009; 2019) e do Instituto Paranaense de Desenvolvimento Econômico e Social (Ipardes, 2025), identificou-se a expansão de culturas com forte inserção no mercado de commodities e a redução da área e produção de culturas historicamente vinculadas ao mercado interno, como arroz e mandioca. Apesar de movimentos de diversificação, especialmente com cereais de inverno e hortaliças, tais experiências ainda são pontuais em comparação à participação majoritária dessas culturas. O estudo fundamenta-se em referenciais da Geografia Agrária e examina os efeitos da modernização, da integração produtiva e das políticas públicas para o setor. Conclui-se que o fortalecimento da agricultura familiar em Imbituva está associado à diversificação produtiva e ao desenvolvimento de estratégias locais de adaptação frente às transformações do setor agrícola.
Palavras-chave: Agricultura familiar; Comoditização; Sojalização; Especialização produtiva.
Resumen: Este artículo analiza las transformaciones en la estructura productiva agrícola del municipio de Imbituva (PR) entre 1995 y 2023, con enfoque en el proceso de comoditización y en la reconfiguración de la agricultura familiar. Utilizando datos de los Censos Agropecuarios del Instituto Brasileño de Geografía y Estadística (IBGE, 1998; 2009; 2019) y del Instituto Paranaense de Desarrollo Económico y Social (Ipardes, 2025), se identificó la expansión de cultivos con fuerte inserción en el mercado de commodities y la reducción del área y producción de cultivos históricamente vinculados al mercado interno, como el arroz y la mandioca. A pesar de movimientos de diversificación, especialmente con cereales de invierno y hortalizas, tales experiencias aún son puntuales en comparación con la participación mayoritaria de esos cultivos. El estudio se fundamenta en referenciales de la Geografía Agraria y examina los efectos de la modernización, de la integración productiva y de las políticas públicas para el sector. Se concluye que el fortalecimiento de la agricultura familiar en Imbituva está asociado a la diversificación productiva y al desarrollo de estrategias locales de adaptación frente a las transformaciones del sector agrícola.
Palabras clave: Agricultura familiar; Comoditización; Sojalización; Especialización productiva.
Introdução
Nas últimas décadas, o município de Imbituva (PR) passou por profundas transformações em sua estrutura produtiva agrícola, marcadas pelo avanço de culturas como soja, milho e fumo, e pela retração de cultivos tradicionais voltados ao abastecimento interno, como arroz e mandioca (IBGE, 1996; 2006; 2017; Ipardes, 2025). Esses processos refletem tendências nacionais de especialização produtiva, reorganização das cadeias agrícolas e redefinição do papel da agricultura familiar, em grande parte associados à modernização do setor rural.
No período analisado (1995–2023), o crescimento expressivo das commodities agrícolas em Imbituva coincidiu com novas configurações fundiárias e produtivas, enquanto cultivos voltados ao consumo local diminuíram sua participação relativa. Conforme Pires (2024), em 2017, quatro das cinco principais culturas da agricultura familiar brasileira (soja, milho, café e fumo) já apresentavam forte inserção em cadeias de mercado externas ou industriais, revelando uma tendência nacional de especialização produtiva. Em Imbituva, os dados indicam uma dinâmica semelhante, com predomínio das monoculturas e redução relativa da presença de culturas alimentares tradicionais, resultando em uma menor diversidade da matriz produtiva local, segundo os indicadores analisados. Em escala nacional, Bazotti et al. (2017) destacam que esse processo de comoditização, ao orientar a produção para mercados globais, pode levar a uma reconfiguração da matriz produtiva, com reflexos na diversidade de cultivos e na dinâmica de abastecimento interno, tendência observada em regiões com alta especialização em commodities para exportação.
Diante desse cenário, este artigo analisa a comoditização e a reconfiguração da agricultura familiar em Imbituva no intervalo de 1995 a 2023, destacando os efeitos da especialização produtiva sobre a diversidade agrícola. A investigação fundamenta-se em dados oficiais e no referencial da Geografia Agrária, buscando contribuir para o entendimento das dinâmicas recentes do espaço rural local.
Bases teóricas para a reconfiguração agrária em Imbituva
A análise das transformações recentes na agricultura de Imbituva exige a consideração das dinâmicas estruturais que caracterizam o rural brasileiro, com ênfase na modernização produtiva, na reorganização fundiária e nas novas formas de inserção da agricultura familiar nos circuitos de mercado. Conforme Cunha (1991), o avanço técnico-científico e a intensificação da inserção mercantil não romperam com a concentração fundiária existente, coexistindo com a presença crescente do capital industrial e financeiro no espaço rural, o que tem gerado novas formas de articulação entre produtores familiares e cadeias agroindustriais.
No plano conceitual, os processos de territorialização permitem compreender como o espaço rural é apropriado e utilizado por distintos agentes, sendo o território resultante de relações sociais, econômicas e políticas materializadas nas formas de produção e uso da terra (Bobato, 2017). Em Imbituva, observa-se a presença de relações contratuais entre agricultores familiares e grandes empresas, especialmente no setor fumageiro, configurando uma forma de territorialização do capital que reorganiza práticas produtivas sem eliminar a presença dos pequenos produtores. Segundo Bobato (2017), a combinação entre territorialização do capital e monopolização do território modifica os arranjos locais, redefinindo a autonomia produtiva e a organização do espaço agrícola.
A predominância de culturas como soja, milho e fumo, identificada nos dados do município, relaciona-se ao avanço das cadeias globais e nacionais de valor e ao processo de especialização produtiva. Em 2017, 64,6% do valor bruto da produção agrícola da agricultura familiar nacional foi destinado a commodities, com a soja liderando em valor (Pires, 2024). Esse cenário evidencia uma transição na matriz produtiva, com menor participação relativa de cultivos para o mercado interno. Estudos discutem que essa trajetória de especialização, se não acompanhada de políticas de diversificação, pode representar desafios para a resiliência econômica dos estabelecimentos familiares e para a estabilidade dos sistemas alimentares locais a longo prazo.
Ainda que a produção de commodities pela agricultura familiar não resulte, necessariamente, em insegurança alimentar imediata, o aprofundamento desse modelo tende a comprometer gradualmente a oferta interna de alimentos e a aumentar a vulnerabilidade dos sistemas alimentares locais. Estudos destacam que a agricultura familiar, tradicionalmente responsável pelo abastecimento, vem sendo redirecionada para a produção de commodities (Bazotti et al., 2017), tendência mais intensa na região Sul, onde há maior concentração de crédito e especialização exportadora em detrimento do abastecimento local.
As políticas públicas, como o Pronaf, contribuíram para ampliar o acesso ao crédito rural, embora algumas análises indiquem que sua aplicação tenha favorecido, em muitos casos, culturas com maior inserção mercadológica, reforçando a especialização produtiva e a articulação com cadeias agroindustriais (Bazotti et al., 2017; Pires, 2024). Experiências baseadas em circuitos locais e práticas de cooperação vêm sendo debatidas como alternativas para recompor a diversidade produtiva e fortalecer a renda das famílias. A valorização dos recursos locais, a mobilização de agentes vinculados à economia solidária e o desenvolvimento de novas estratégias são apontados como caminhos para enfrentar a desterritorialização promovida pelo capital monopolista (Rocha Filho; Cunha, 2018).
Metodologia
A análise das transformações na estrutura produtiva agrícola de Imbituva baseou-se na coleta, organização e interpretação de dados estatísticos oficiais relativos ao período de 1995 a 2023. Os principais dados quantitativos foram extraídos dos Censos Agropecuários do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE) anos de 1996, 2006 e 2017, e dos relatórios anuais do Instituto Paranaense de Desenvolvimento Econômico e Social (Ipardes), por meio do painel de indicadores municipais. Para o período posterior a 2017, utilizaram-se as informações do painel Cadernos Municipais do Ipardes, assegurando a continuidade da série histórica e a comparabilidade dos dados.
Foram consideradas as principais culturas temporárias do município (soja, milho, fumo, feijão, mandioca, arroz, batata-inglesa, cebola, entre outras), tomando como critério sua relevância econômica, presença na matriz produtiva e representatividade social. A produção física anual, expressa em toneladas, permitiu identificar tendências de especialização, diversificação ou retração produtiva no período analisado.
Os dados foram tratados por meio de abordagem quantitativa descritiva, com elaboração de séries temporais e cálculo das variações relativas, visando identificar movimentos de expansão, retração ou estabilidade, sempre comparando períodos censitários e intervalos anuais. Essas análises foram articuladas aos resultados de pesquisas nacionais recentes sobre agricultura familiar (Pires, 2024) e às discussões sobre políticas públicas e comoditização no meio rural (Bazotti et al., 2017).
No referencial teórico-conceitual, a interpretação seguiu estudos sobre modernização agrícola, territorialização do capital, especialização produtiva e reterritorialização econômica, com foco nos impactos para a agricultura familiar e na organização do espaço agrário paranaense (Cunha, 1991; Bobato, 2017; Rocha Filho; Cunha, 2018).
Para contextualizar os resultados, realizou-se revisão de literatura acerca dos condicionantes históricos, institucionais e econômicos que influenciam a agricultura local e regional. A análise qualitativa permitiu relacionar as tendências dos dados estatísticos às dinâmicas de territorialização das cadeias produtivas, ao papel das políticas públicas e às estratégias de resistência ou adaptação das famílias rurais.
Resultados e discussão
A evolução da produção agrícola em Imbituva (1995–2023) evidencia transformações profundas na estrutura produtiva local, marcadas pelo avanço da especialização em culturas voltadas ao mercado externo, retração de cultivos tradicionais e adaptação dos agricultores familiares às dinâmicas de mercado e às políticas públicas rurais. A análise da série histórica das principais culturas temporárias, apresentada na Tabela 1, permite identificar padrões de expansão e retração e compreender os desafios do rural contemporâneo paranaense, em sintonia com debates sobre comoditização (Pires, 2024; Bazotti et al., 2017), territorialização do capital (Bobato, 2017) e impactos das políticas públicas (Cunha, 1991).
Tabela 1 – Produção anual de culturas temporárias selecionadas no município de Imbituva-PR (1995-2023)
| Produto da Lavoura Temporária | 1995 Toneladas | 2006 Toneladas | 2017 Toneladas | 2019 Toneladas | 2020 Toneladas | 2021 Toneladas | 2022 Toneladas | 2023 Toneladas |
| Alho | 7 | 0 | – | 8 | 8 | 12 | 8 | 13 |
| Arroz em casca | 362 | 13 | – | 63 | 32 | 11 | 12 | 12 |
| Aveia branca em grão | 3 | 29 | 311 | 2.240 | 2.240 | 2.240 | 5.040 | 3.900 |
| Batata-inglesa | 1.721 | 69 | 1.834 | 10.075 | 8.490 | 8.490 | 8.214 | 3.125 |
| Cebola | 1.428 | 1.708 | 1.891 | 4.655 | 5.220 | 3.640 | 3.510 | 2.800 |
| Centeio em grão | – | – | – | 780 | 780 | 594 | 484 | 594 |
| Cevada em grão | 9 | – | – | 4.320 | 2.880 | 3.420 | 2.343 | 3.420 |
| Feijão em grão | 4.267 | 5.963 | 6.609 | 11.561 | 12.548 | 9.639 | 10.957 | 12.217 |
| Fumo em folha | 5.372 | 6.778 | 8.525 | 9.094 | 10.440 | 9.469 | 8.488 | 8.740 |
| Mandioca | 307 | 11 | 90 | 2.128 | 1.388 | 2.000 | 1.800 | 975 |
| Melancia | – | 50 | 60 | 420 | 324 | 324 | 420 | 432 |
| Milho em grão | 22.520 | 57.485 | 29.870 | 43.118 | 73.140 | 74.100 | 52.240 | 54.900 |
| Soja em grão | 23.208 | 34.379 | 63.429 | 88.504 | 93.936 | 90.000 | 112.850 | 116.850 |
| Tomate | 395 | 0 | – | 190 | 216 | 136 | 177 | 204 |
| Trigo em grão | 339 | 4.007 | – | 11.780 | 11.780 | 11.780 | 11.040 | 12.160 |
| Triticale em grão | – | – | – | 616 | 616 | 280 | 220 | 280 |
Fonte: IBGE. Censo Agropecuário 1996, 2006 e 2017; Ipardes, 2025.
Nota metodológica: Os dados de produção agrícola municipal apresentados para o período de 1996 a 2017 são provenientes dos Censos Agropecuários do IBGE. Para os anos posteriores a 2017, as estatísticas oficiais do Paraná passam a ser divulgadas pelo Ipardes por meio do painel Cadernos Municipais.
A Tabela 1 demonstra o crescimento expressivo de soja e milho, atingindo 116.850 e 54.900 toneladas em 2023, respectivamente, tendência que acompanha o padrão nacional de especialização produtiva em commodities agrícolas (Pires, 2024). Em contrapartida, cultivos de autoconsumo, como arroz (de 362 toneladas em 1995 para 12 em 2023) e mandioca (com oscilações e 975 toneladas em 2023), perderam relevância. O feijão, ao contrário, apresentou crescimento contínuo, alcançando 12.217 toneladas em 2023, resultado da lógica da sucessão de culturas com a soja, que otimiza o uso da terra e potencializa a renda anual, além de favorecer a sustentabilidade agronômica (Pires, 2024).
O incremento do feijão está, portanto, mais associado a uma estratégia de otimização agronômica e de renda dentro do sistema de rotação de culturas do que a um movimento autônomo de valorização desse cultivo. Em muitos territórios de agricultura familiar do Brasil, a produção de feijão recuou diante do avanço das commodities, mas, em Imbituva, sua ampliação está associada ao modelo de rotação e à lógica do agronegócio local. Ao mesmo tempo, a persistência de culturas como batata-inglesa, cebola e tomate revela oscilações marcantes e instabilidade, ligadas à volatilidade de mercado, sazonalidade e limitações logísticas, fatores que desafiam a diversificação produtiva (Bazotti et al., 2017).
O fumo, que permaneceu entre 5.372 e 8.740 toneladas, exemplifica a importância dos contratos de integração e da territorialização do capital industrial, constituindo uma das principais atividades econômicas locais. Esse cenário também aponta desafios observados por Bobato (2017) quanto à implementação de políticas de reconversão produtiva em determinadas regiões fumicultoras. Nos anos recentes, nota-se a expansão dos cereais de inverno (aveia, cevada, trigo, centeio, triticale), em geral atrelada à intensificação da rotação de culturas, mitigação de riscos agronômicos e orientação técnica mercantil (Pires, 2024). Tais culturas, embora representem certa diversificação, ainda permanecem subordinadas às cadeias agroindustriais, principalmente para ração, indústria alimentícia e abastecimento externo.
Produtos de menor expressão, como alho, tomate e melancia, apresentam produção irregular e volumes modestos, refletindo tentativas pontuais de diversificação e desafios de inserção em mercados maiores. A instabilidade na produção de hortaliças resulta da alta perecibilidade, inserção em circuitos curtos e ausência de políticas de apoio estruturantes, tornando o segmento sensível a variações de mercado e a deficiências de infraestrutura (Bazotti et al., 2017; Rocha Filho; Cunha, 2018).
De modo geral, apesar dos sinais de diversificação, sobretudo com cereais de inverno e hortaliças, a especialização produtiva em commodities permanece dominante. A manutenção dessa trajetória levanta questões sobre seus impactos de longo prazo na diversidade da oferta de alimentos no mercado local e na exposição dos agricultores familiares a flutuações de preços e demandas de mercados globais (Pires, 2024; Bazotti et al., 2017). Esse quadro reforça a necessidade de políticas públicas que favoreçam a recomposição da diversidade produtiva e a sustentabilidade dos sistemas agrícolas, em consonância com o debate sobre reterritorialização e fortalecimento de estratégias coletivas (Rocha Filho; Cunha, 2018).
Reterritorialização produtiva e alternativas locais
Apesar do predomínio das culturas voltadas ao mercado externo e da especialização produtiva em Imbituva, observam-se movimentos pontuais de diversificação e busca por alternativas econômicas entre segmentos da agricultura familiar. O incremento dos cereais de inverno, a introdução de hortaliças e frutas e as oscilações de cultivos de autoconsumo evidenciam tentativas, ainda incipientes, de recompor a diversidade produtiva e fortalecer circuitos econômicos locais.
A literatura recente destaca a reterritorialização como resposta às dinâmicas de desterritorialização e subordinação do capital global e das empresas integradoras. Para Rocha Filho e Cunha (2018), a reterritorialização econômica implica reinventar relações entre agentes, recursos e identidades territoriais, valorizando práticas cooperativas, formas associativas e circuitos alternativos de produção e comercialização ancorados nas potencialidades locais.
Em contextos como o de Imbituva, tal processo não significa retorno a formas tradicionais nem ruptura com o mercado, mas reconfiguração de estratégias para ampliar a autonomia dos agricultores e promover a circulação de riqueza no território. Iniciativas de economia solidária, agroindústria familiar, feiras locais e arranjos cooperativos buscam desafiar a centralização e a subordinação produtiva.
Segundo Rocha Filho e Cunha (2018), fortalecer redes sociais locais, qualificar agentes e valorizar recursos endógenos são elementos essenciais para consolidar a reterritorialização, articulando desenvolvimento econômico, inclusão social e sustentabilidade territorial. Em Imbituva, tais elementos ainda se apresentam de modo fragmentado, mas apontam caminhos possíveis para alternativas à dependência do agronegócio e das cadeias globalizadas.
A reterritorialização, portanto, constitui estratégia relevante para o debate sobre o futuro da agricultura familiar e do desenvolvimento rural, indicando a importância de políticas públicas de apoio à diversificação produtiva, ao fortalecimento das redes locais e à valorização dos atores e saberes do território.
Considerações finais
A análise da reconfiguração produtiva em Imbituva evidencia o predomínio da especialização em commodities (principalmente soja, milho e fumo) e a consequente retração de culturas alimentares tradicionais. Esse cenário, alinhado às tendências da modernização agrícola nacional, caracteriza-se pela profunda integração da agricultura local às cadeias globais de commodities. Diante disso, estudos recentes apontam para a necessidade de equilibrar os ganhos de eficiência desse modelo com estratégias de diversificação produtiva, visando à sustentabilidade de longo prazo da agricultura familiar e à robustez do abastecimento alimentar local.
Apesar do contexto adverso, o município apresenta sinais de diversificação produtiva, ainda que incipientes, por meio do incremento de cereais de inverno, hortaliças e tentativas de inserção em nichos de mercado. Tais experiências, porém, esbarram em obstáculos estruturais, como a volatilidade dos mercados, o acesso restrito ao crédito, limitações logísticas e a ausência de políticas públicas continuadas.
Diante desses desafios, recomenda-se a formulação e implementação de políticas públicas integradas que priorizem a diversificação produtiva, a assistência técnica qualificada e o fortalecimento de redes locais de cooperação. Incentivos à economia solidária, apoio à agroindústria familiar e à organização de feiras e circuitos curtos de comercialização podem criar condições para ampliar a autonomia dos agricultores familiares e estimular a circulação de riqueza no território.
A valorização dos saberes locais, a formação de associações e a articulação entre agentes públicos, privados e comunitários devem ser estimuladas para consolidar processos de reterritorialização produtiva e fomentar um desenvolvimento rural mais justo e sustentável. O caso de Imbituva, portanto, destaca tanto os desafios inerentes a um modelo de alta especialização em commodities quanto as possibilidades de construção de alternativas territoriais e econômicas baseadas na cooperação, diversidade e autonomia produtiva.
Referências
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Como citar este artigo:
BOBATO, Zaqueu Luiz. Da diversificação à sojalização: comoditização da agricultura familiar em Imbituva (PR), 1995-2023. Revista Partes [online], São Paulo, DATA MÊS. ANO. Disponível em:<LINK DA PUBLICAÇÃO>. Acesso em: DATA MÊS. ANO.

[1] Professor Formador no curso de Geografia Licenciatura UAB da Universidade Estadual de Ponta Grossa-UEPG (2025). Pós Doutorando em Geografia, na linha de pesquisa Análises Socioeconômicas e Dinâmicas Regionais e Urbanas na UEPG (2025). Doutor em Geografia, na linha de pesquisa Produção e Transformação do Espaço Urbano e Regional pela Universidade Federal do Paraná (UFPR, 2013-2017). Mestre em Geografia, área de concentração em Gestão do Território: Sociedade e Natureza na linha de pesquisa Dinâmicas Regionais e Urbanas pela UEPG (2010-2012). Graduado em Geografia Licenciatura pela Universidade Estadual do Centro-Oeste (UNICENTRO), campus Irati-PR (2006-2009). ORCID:
https://orcid.org/0009-0003-0961-3137 E-mail: zaqueudegeo@gmail.com






