CAMPO MINADO

Até os anos de 1960, era comum ver matilhas vagando pelas ruas, bem ao estilo “A Dama e o Vagabundo”.
O terror das crianças era ver o pessoal da “carrocinha”, ainda mais quando descobrimos qual era o destino dado aos cães de rua.
A preocupação era ser atacado por um deles. A crendice popular ensinava que era só passar falando “São Roque! São Roque!” que não haveria esse risco.
Mas risco, mesmo, era pisar nas “fogueiras”, também conhecidas como “alegrias de cachorro”, que eles deixavam pelas ruas, sobretudo num tempo em que a criançada andava descalça, brincando de “polícia e ladrão” e “bandido e mocinho”, quando era possível diferenciá-los, “pega-pega” e futebol.
Bem mais tarde, aprendi que as fezes de animais nas ruas compõem a chamada poluição difusa, que vai para o sistema de drenagem, contaminando praias e mananciais.
Atualmente é difícil encontrar cães sem domicílio, exceto os que, como seus companheiros humanos, vivem em situação de rua. No entanto, apesar de leis que obrigam à coleta de fezes de animais por seus condutores humanos, as ruas permanecem “campos minados”. Distraiu? Pisou no desaforo que se leva para casa.
Não é culpa dos animais irracionais, mas dos “racionais” que os acompanham, levando-os para defecar longe de suas residências, sem ter a menor intenção de recolher as fezes. E quando são advertidos, reagem de forma estúpida. E não é só nas ruas:
Em shopping centers já vi animais urinarem e defecarem, e os responsáveis humanos sequer avisarem o pessoal da administração para providenciarem a limpeza, evitando que outras pessoas, inclusive crianças, pisem ou escorreguem nos dejetos. Preferem sair disfarçadamente, ou achando graça da “arte” do amiguinho.
Normalmente, são as mesmas pessoas que levam seus animais para locais públicos fechados e deixam os cães latirem sem parar. Algumas raças têm um latido especialmente agudo e constante, que a acústica do ambiente amplifica ainda mais. Um decibelímetro seguramente consideraria esse ruído prejudicial à audição humana, até mais do que fogos de artifício. Esses, ao menos, têm época certa para serem usados.
Não é culpa dos cães, mas de seus acompanhantes, que não percebem que estão incomodando, que o ambiente é inadequado e que deveriam se retirar do local, por uma questão de respeito ao próximo. Infelizmente, o egoísmo virou um direito sem limites. “Os incomodados que se mudem”.
Os responsáveis por locais de acesso público parecem também não se importar muito, alguns até permitindo que animais frequentem praças de alimentação, em áreas sem isolamento acústico.
Ter um animal de estimação é uma opção pessoal, que deve ser exercida com responsabilidade perante o animal e respeito para com outras pessoas, e não acrescentando ao “campo minado” da falta de civilidade a agressividade de um “humano-de-guarda”.
Adilson Luiz Gonçalves
Escritor, Engenheiro e Pesquisador Universitário
Membro da Academia Santista de Letras






