O PARADOXO DO RABO DA SEREIA

hacia 1588
Óleo sobre lienzo. 174,5 x 494 cm
Museo Nacional Thyssen-Bornemisza, Madrid
Nº INV. 403
(1980.47)
Um trecho da música “A Novidade”, do grupo Paralamas do Sucesso, sugere uma reflexão sobre a desigualdade do mundo, a partir da novidade de uma sereia encontrada na praia: “Um paradoxo estendido na areia: alguns a desejar seus beijos de deusa, outros a desejar seu rabo pra ceia”.
Talvez um dos maiores paradoxos da humanidade seja a diferença entre o ideal e a realidade, que nem sempre pode ser transformada, o que justifica o termo utopia.
O ideal de um pode não ser o de outro, nem a sua real necessidade, que às vezes tolhe o discernimento: “Em casa que não tem pão, todos gritam e ninguém tem razão”.
Além disso, o ideal de um não pode ser imposto ao outro, ainda mais quando quem o impõe se coloca acima dele: “Faça o que eu digo, mas não faça o que eu faço” ou “Manda quem pode. Obedece quem tem juízo”, o que caracteriza autoritarismo.
Quando o interesse pessoal ou grupal, mesmo que considerado universal, é colocado como único, o resultado normalmente é preocupante, temerário, quando não desastroso.
A imposição de regimes totalitários, hegemônicos, vitimou milhões de seres humanos pela fome e guerras. No entanto, mesmo quando havia poucas pessoas no mundo, era difícil uma convivência harmônica entre elas.
Adão e Eva viviam tranquilamente no Éden, com toda a natureza ao seu dispor, mas havia uma cobra para tentá-los. Quando comeram a maçã, a única coisa proibida, eles foram expulsos do Paraíso, Adão condenado a trabalhar e Eva a sentir as dores do parto. Seus filhos, Abel e Caim, também protagonizaram um triste episódio. Caim, com inveja de seu irmão, o matou.
Embora esses dois episódios guardem um certo simbolismo, que também ocorre em outros textos sagrados de religiões, eles demonstram que nem tudo era um paraíso e que a convivência humana, até entre familiares, nem sempre é harmônica.
Desde que os seres humanos se reuniram em grupos, sedentários ou nômades, disputas por território e poder ocorreram. Alguns povos se vangloriavam de serem guerreiros e conquistadores, espoliando os vencidos, além de submetê-los à escravidão, pela ganância ou até em nome de ideologias e religiões, gerando ódios que ainda prevalecem, feridas culturalmente cultivadas.
Tribos guerreavam entre si para proteger seus territórios ou tomar os de outros, inclusive espiritualmente.
A ilusão do “paraíso”, a inveja e a disputa por poder permanecem, agora em escala global.
Teorias de conspiração à parte, guerras, epidemias e tentativas de impor algumas utopias têm resultado em mortes em larga escala, genocídios ou calamidades. Historicamente, alguns desses eventos foram associados ao fim do mundo, seara perfeita para mistificadores e radicais religiosos.
Há algumas décadas, estudiosos afirmavam que o limite de população do planeta seria de 8 bilhões, o que foi superado em 2024. Antes disso, passaram a falar em 12 bilhões, só que os efeitos da mudança do clima não só colocam esse limite em risco, como o da própria sobrevivência da humanidade em médio prazo.
Esse é o cenário perfeito para soluções radicais, adotadas por quem seguramente não estará sujeito a elas.
Nesse contexto, até as boas intenções precisam ser avaliadas de forma holística, inclusive para entender quem as apoia.
Talvez o maior paradoxo da atualidade seja como conciliar a vida humana com a natureza.
Como alimentar uma população que não para de crescer com a capacidade de alimentá-la? As soluções que ambientalistas radicais e idealistas propõem resolverão isso? Corporações e países que financiam algumas ONGs estão realmente interessados em preservar/recuperar o meio ambiente ou em assegurar mercados para seus produtos, evitar concorrência que os desestabilizem internamente ou pagar os créditos de carbono da culpa histórica alhures?
A fome é um problema universal, mas, parafraseando uma metáfora bíblica, nem só de pão vive o ser humano. Algumas soluções “ideológicas”, além de serem de difícil aplicação prática, são elitistas, pois só poucos podem pagar por suas opções. E mesmo que pudessem ser subsidiadas em nível universal, demandariam expansão de territórios produtivos e recursos financeiros que não dão em árvores.
Supondo que todos os seres humanos pudessem viver num “Éden” terreno, com um teto e alimento à disposição, sem a necessidade de esforço, isso lhes bastaria? O que diferenciaria a humanidade de um rebanho?
Há quem responderá em função de suas crenças religiosas ou ideológicas. Só que isso não se aplica à realidade secular, em que sempre haverá quem almeje poder sobre o semelhante ou em ser o dono da “verdade”, sem se importar com as consequências.
A equação da sustentabilidade demanda equilíbrio entre aspectos ambientais, sociais e econômicos, pois um depende dos outros.
Desprezar qualquer um deles em favor de outros tenderá a piorar cenários, agregando-lhes novos e previsíveis riscos, potencializando ações ainda mais radicais, tomadas por poucas pessoas.
O paradoxo do rabo da sereia permanece, e não é com proselitismo, hipocrisia e discursos panfletários ou messiânicos que ele será entendido e equacionado.
Isso só será possível com a aplicação de racionalidade em nível exponencial, o que também parece ser uma utopia, a presente.
Adilson Luiz Gonçalves
Escritor, Engenheiro, Pesquisador Universitário e membro da Academia Santista de Letras






