BOAS E MÁS SEMENTES

Há alguns anos, quando eu ainda lecionava na universidade, tive uma conversa com uma colega sobre a condição dos alunos egressos do Ensino Médio.
Em minha opinião, era notável que a politização era bem mais evidente do que seus conhecimentos sobre matérias como Português, Matemática e História, entre outras. Mal sabiam escrever ou calcular, mas tinham discursos prontos sobre direitos e algumas ideologias.
Ela ponderou que isso não fazia sentido, justamente pelas limitações de formação acadêmica. Justificou que, se eles tinham dificuldades para se expressar de forma articulada, tampouco poderiam argumentar ideologias, também por ainda serem jovens e estarem em fase de amadurecimento.
Sua análise estava correta?
Bem, por estarem em fase de amadurecimento, as mentes dos jovens são seara ideal para plantar “sementes” do bem e do mal.
Assim tem sido há milênios, em todos os âmbitos da humanidade, como forma de impor tradições, dogmas e padrões de pensamento que tolhem o discernimento e comprometem o livre-arbítrio. Trata-se de uma forma de escravização mental, que atualmente tem sido chamada de imunização cognitiva.
O cenário atual me fez lembrar dessa conversa e de um fato que ocorreu comigo, no início dos anos de 1980:
Eu acabara de me formar em Engenharia Civil, em meio a uma enorme crise econômica. Obras haviam sido paralisadas e praticamente não havia nenhum investimento em infraestrutura no Brasil. Engenheiros experientes disputavam vagas com recém-formados até em empreiteiras de reformas residenciais!
Meu bom currículo escolar não serviu para competir com esse contingente de desesperados, cuja qualidade de vida havia decaído dramaticamente, mas permitiu que eu fosse aprovado num concurso de bolsas de estudo internacionais.
O processo seletivo foi demorado e, nesse meio tempo, eu trabalhei temporariamente para economizar, pois a bolsa não cobria algumas despesas obrigatórias, e minha numerosa família nunca foi abastada. Eu já trabalhava desde os 15 anos, economizando para cursar faculdade, o que continuei a fazer, informalmente, para custeá-la tanto quanto possível. Foi um período espartano.
Minhas irmãs, bem mais jovens do que eu, eram mantidas sob rígido controle por meu pai, o que limitava sua mobilidade exclusivamente à escola e aniversários familiares.
Surgiu a possibilidade de integrarem um grupo de jovens da igreja do bairro. Para que elas pudessem fazê-lo, meus pais entraram no grupo de casais.
Ocorria que os jovens, divididos em grupos etários coordenados por casais, tinham o hábito de saírem juntos, nos fins de semana. Meu pai só permitiria que elas fossem se eu as acompanhasse, e elas começaram a pedir meu auxílio.
A oportunidade surgiu quando resolveram criar um grupo de jovens universitários. Aderi.
O problema é que, mais velho, experiente e com uma percepção de vida forjada no enfrentamento de assédios morais e religiosos desde a infância, dentro e fora da família, que me forçaram a entender além das aparências, era difícil ver como casais sem filhos tinham maior ascendência sobre as crianças e adolescentes que coordenavam do que seus próprios pais. Percebi que havia algo mais do que apenas compromisso religioso, mas uma forma de compensação pessoal também permeada por ideologia secular.
Isso ficou patente quando recomendaram que os membros dos grupos participassem de um evento numa universidade local, onde padres fariam uma palestra.
Acompanhei minhas irmãs, também curioso sobre o conteúdo.
A plateia era majoritariamente composta por alunos universitários da área de Humanas. Havia jovens e mais velhos.
Os padres, todos jovens, começaram a fazer sua apresentação, basicamente sobre a Teologia da Libertação. Em dado momento, mencionaram Antonio Gramsci (1891-1937). Imediatamente, um dos assistentes, não sei se um aluno mais velho ou professor, pediu a palavra para ressaltar a importância de terem voltado a ler a obra desse filósofo e militante comunista italiano, que defendeu a hegemonia cultural e ressignificações como forma de alcançar mudanças sociais. Um dos padres concordou de forma veemente.
O curioso é que não lembro de ambos terem mencionado uma única vez o nome de Jesus Cristo ou de Deus com a mesma convicção e entusiasmo.
Não sei que tipo de frutos essas “sementes” geraram na assistência, pois tudo depende do “solo” em que foram plantadas e de como quem plantou cuida da seara. Mas isso me preocupa quando ocorre com crianças e adolescentes, ainda frágeis e sujeitos a aliciamentos maliciosos.
É uma fase em que o ser humano busca encontrar sentido em sua vida perante o mundo, mas muitos sequer ajudam nas tarefas domésticas ou fazem suas lições de casa sem que sejam obrigados. É um tempo em que estão particularmente vulneráveis à introdução a vícios e à fascinação por discursos que os exortam a mudar o mundo, sem terem o discernimento suficiente para entenderem o nexo e as consequências do que é proposto como ideal.
O confronto com diferentes formas de pensar a vida e o mundo faz parte do processo, mas pode gerar uma imensa bagunça mental, capaz de prejudicar o futuro dessas crianças e adolescentes pois, quando há doutrinação intensiva, a capacidade cognitiva pode estar sendo perigosa e permanentemente comprometida.
É possível mudar o mundo, sim. Mas não por meio de ideias hegemônicas, pois suas inevitáveis vítimas são o livre-arbítrio e a liberdade de expressão. O comunismo, o nazismo e religiões fundamentalistas fizeram e fazem isso com crianças e adolescentes, destruindo estruturas familiares, impedindo o congraçamento entre povos, disseminando preconceitos e ódio contra quem não se submete ao seu poder absoluto, patrulhando e constrangendo psicologicamente e até fisicamente quem diverge.
Olhando o que ocorre em certas universidades e escolas de Ensino Médio, isso é evidente. Lugares de ciência, no discurso e em cartazes mal escritos, alguns os tornaram locus de pregação ideológica radical massiva, em que o ensino é limitado e avaliado segundo as crenças de quem o administra. Quando isso ocorre, o termo “universidade” perde totalmente seu sentido primordial, assim como toda a formação acadêmica que segue esse modelo enviesado.
A história já nos deu exemplos de onde radicalismos podem nos levar. No entanto, parece que alguns faltaram nessas aulas, ou só leem e obrigam seus alunos a ler apenas o que define, apoia e norteia suas crenças.
Imposição de verdades absolutas e idolatria a líderes seculares, muitos dos quais não viveram de acordo com o que pregaram, fazem parte dessas práticas de “libertação” que, em verdade, não passam de uma escravização mental.
Lembrei daquela conversa com a professora. Ela não estava errada, tampouco eu.
Se as “sementes” são boas ou más e se o “solo” é fértil ou não, só o tempo dirá. Mas uma coisa é certa nesse “plantio”: se educar é uma profissão de fé na humanidade, doutrinar a juventude à intolerância e ao ódio hegemônico é colocar o futuro em risco!
Adilson Luiz Gonçalves
Escritor, Engenheiro, Pesquisador Universitário e membro da Academia Santista de Letras
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