VIVER VALE A PENA!

Recentemente tive uma conversa com uma colega sobre opções de vida, incluindo sobre o direito de interrompê-la em vários contextos, do suicídio ao aborto.
São temas realmente complexos e, em qualquer um dos casos, são ações que não têm volta.
Já vi cenas e ouvi histórias de casos em que essas decisões são norteadas principalmente por desespero.
Por outro lado, conheço relatos de superação e de total apego à vida, até seu último instante, bem como de sacrifícios, alguns que colocam o ser humano no mais elevado nível espiritual.
Gonzaguinha afirmou que as crianças dizem que a vida “É a vida! E é bonita!” Belchior acrescentou: “Viver é melhor que sonhar!”.
Viver é bonito, mas também é um desafio que não depende apenas de vontade própria. Daí Roberto e Erasmo afirmarem que “É preciso saber viver!”, pois não estamos sós.
Somos agentes e vítimas do meio em que vivemos. Sartre afirmou que “O inferno são os outros!”, e a vida também nos “prega peças”, surpresas que nos deixam desnorteados, colocando nossa existência em risco externo ou interno.
Eu tive uma dessas “surpresas” em 2017, ao ser diagnosticado com câncer.
Eu já apresentava alguns sintomas há meses, quiçá anos, mas tentava ignorá-los, como se isso bastasse.
Uma crise aguda fez com que eu fosse buscar auxílio médico e a doença foi detectada.
Houve uma cirurgia, seguida de várias sessões de radioterapia e quimioterapia. Usei bolsa de colostomia por nove meses, ao final dos quais uma nova cirurgia permitiu o retorno a uma condição quase normal de vida. Cheguei a ser considerado curado, mas não consegui me emocionar com a notícia, até porque o acompanhamento deveria prosseguir por cerca de cinco anos.
Meus irmãos foram alertados para que fizessem exames preventivos, mas uma de minhas irmãs achou que, por não ter sintomas, não seria necessário. Em 2020, ela foi diagnosticada com o mesmo câncer. Faleceu em menos de quatro meses.
Nesse mesmo ano, foi constatada uma metástase no meu fígado, com cirurgia considerada inviável nas condições existentes. Virei Estágio 4.
Meu oncologista me submeteu a uma quimioterapia extremamente rigorosa, com todos os efeitos colaterais possíveis e imagináveis, que a viabilizou em condições bastante favoráveis.
O cirurgião, além de remover os tumores, também extraiu minha vesícula biliar.
Após quimioterapia complementar, novo acompanhamento teve início.
Em 2023, houve nova metástase no fígado, com novo quadro complicado.
Mais uma quimioterapia agressiva, com mais efeitos colaterais, nova cirurgia e novo acompanhamento.
Meu abdômen parece vítima da marca do Zorro.
Em 2025, agora foi a vez do pulmão, com cirurgia por videolaparoscopia, que será seguida de longo período de quimioterapia e novo acompanhamento.
Quem me vê tem dificuldade em crer nesse histórico.
Por conta dele, tive e tenho constantes reflexões sobre a vida e sua efemeridade. Só pensei na possibilidade efetiva de morte para entender a burocracia que ela envolve e buscar auxílio para minha mulher lidar com esse momento. Mas a vontade de estar ao lado dela e de meu filho tanto tempo quanto possível sempre tem sido maior. Além da vontade, também há um tanto de medo, pois ela já me ameaçou, dizendo que, se eu morrer, me mata…
É fato que nesse processo de enfrentamento o amor familiar, as preces de amigos e o trabalho inspirador têm sido terapia tão ou mais efetiva do que os tratamentos e cirurgias.
Costumo dizer que o que tiraram não está fazendo tanta falta, e que a gente sabe como esse processo termina, mas não quando, parafraseando o dito popular “O futuro a Deus pertence!”.
Por isso, me entristece quando sei de pessoas que desistiram ou pensam em desistir da vida, talvez por temor de um dia ter que decidir sobre isso.
Já me disseram que eu deveria usar minha experiência para exortar outros a não desistirem de tratamentos, por mais desgastantes que sejam. Não o tenho feito, talvez por medo de um dia decepcionar quem me ouvir.
Mas já deixei claro que não pretendo ser um peso, quando o que tirarem ou eu perder me tornarem um peso insuportável para quem amo.
Afora isso, “Enquanto há vida, há esperança!” e viver continua valendo qualquer pena, pela competência de equipes médicas, pelas amizades sinceras, pelo trabalho que me motiva, pelo amor que sinto e compartilho por minha família e pela Graça de Deus!
Adilson Luiz Gonçalves
Escritor, Engenheiro, Pesquisador Universitário e membro da Academia Santista de Letras
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