QUANDO OS DADOS DECIDEM: os dilemas da era algorítmica
Somos, ao mesmo tempo, os animais mais inteligentes e os mais obtusos no planeta. Somos tão inteligentes que conseguimos produzir mísseis nucleares e algoritmos superinteligentes. E somos tão obtusos que continuamos a produzir essas coisas, mesmo sem ter certeza de que conseguimos controlá-las – arriscando até sermos destruídos por elas, caso falhemos.
Yuval Noah Harari

Por Margarete Hülsendeger
E se você descobrisse que muitas decisões que orientam a sua vida já não são tomadas por outros seres humanos, mas por sistemas invisíveis, que não sentem nem pensam como nós? Isso o assustaria ou o tranquilizaria? Essa é uma das grandes provocações de Nexus[1], novo livro de Yuval Noah Harari, autor conhecido por transformar os dilemas da humanidade em narrativas acessíveis e inquietantes.
Diferentemente de Sapiens, no qual reconstruiu nossa origem, e de Homo Deus, em que especulou sobre o futuro, Nexus se debruça sobre o presente. Um presente em que biotecnologia, algoritmos e inteligência artificial já se entrelaçam de forma irreversível à vida humana, influenciando desde eleições até decisões pessoais. O título, que significa “ligação” ou “conexão”, sinaliza a proposta do autor: investigar como redes digitais e sistemas inteligentes estão se tornando o novo tecido da realidade.
Logo no início, Harari chama a atenção para algo que muitos preferem ignorar: “Embora nem todos possamos nos tornar especialistas em IA, devemos ter em mente que ela é a primeira tecnologia na história capaz de tomar decisões e criar novas ideias por si mesma”. Em outras palavras, não estamos lidando apenas com ferramentas neutras, mas com agentes que têm potencial criativo e certo grau de autonomia — ainda que sem consciência.
E é justamente aí que reside o perigo: a crença de que apenas o que tem consciência pode ser inteligente e, portanto, influente. Harari desconstrói essa ideia ao mostrar que sistemas não conscientes podem ser altamente eficazes na manipulação de comportamentos humanos — muitas vezes sem que percebamos sua atuação.
Ao tratar da informação, o autor vai além da noção simplista de que “mais dados = mais conhecimento”. Ele afirma: “A informação não necessariamente nos informa sobre as coisas. Em vez disso, ela põe as coisas em formação”. Ou seja, na era digital, a função da informação não é apenas esclarecer. Ela também organiza e estrutura realidades sociais, políticas e até subjetivas. Isso se torna ainda mais complexo quando, como o próprio Harari aponta, “o mero aumento da quantidade de informação numa rede não garante seu caráter benigno, nem contribui em nada para encontrar o equilíbrio correto entre verdade e ordem”.
A crítica ganha força quando o autor analisa o uso político das redes sociais. Harari menciona explicitamente a ascensão de Jair Bolsonaro como exemplo de manipulação da opinião pública. Uma manipulação impulsionada por redes digitais, capaz de redefinir os rumos da democracia.
Ele mostra como a campanha de Bolsonaro — assim como outras ao redor do mundo — soube explorar com eficiência os algoritmos. Não para informar, mas para inflamar. Ao perceberem que conteúdos emocionais — especialmente os que provocam medo, raiva ou indignação — têm mais chances de viralizar, grupos políticos passaram a investir em narrativas polarizadoras e simplificadas. Muitas delas falsas. O objetivo: capturar a atenção do público a qualquer custo.
É justamente aí que entra o papel dos algoritmos: eles não selecionam conteúdos com base em critérios éticos ou de veracidade, mas segundo sua capacidade de manter o usuário engajado. O que circula nas redes não é o mais verdadeiro, mas o que melhor prende a atenção.
Com isso, os sistemas de recomendação criam bolhas personalizadas, que reforçam visões de mundo e isolam opiniões divergentes — terreno fértil para a radicalização. O resultado é uma fragmentação social alimentada por um ambiente digital que valoriza o ruído em vez da reflexão, e o confronto em lugar da escuta.
Outro ponto de destaque em Nexus é a análise das consequências dessas transformações para a democracia. Pela primeira vez na história, o debate público não se limita mais a vozes humanas.
Harari observa que a democracia agora convive com uma cacofonia de agentes automatizados — inteligências artificiais que não apenas participam, mas moldam o discurso social. Não se trata de novos grupos humanos ganhando voz, e sim de entidades artificiais, guiadas por lógicas próprias, que atuam sem consciência e sem prestar contas — interferindo diretamente em decisões coletivas.

Embora pareça um cenário de ficção científica, Harari o descreve com clareza e equilíbrio, sem recorrer ao alarmismo. Ele reconhece o potencial extraordinário da tecnologia, mas alerta para o risco de delegarmos decisões fundamentais a sistemas que não compreendemos totalmente — e que não compartilham nossos valores.
Apesar da densidade dos temas, Nexus é escrito com fluidez e ritmo envolvente. Harari evita jargões, contextualiza conceitos complexos com exemplos acessíveis e adota uma postura crítica, sem cair no fatalismo. Seu objetivo não é ditar o que pensar, mas provocar o leitor a refletir de forma mais consciente e informada sobre o mundo em que vive.
Ele oferece um alerta claro, mas também um convite à responsabilidade. O futuro ainda não está escrito, mas será profundamente moldado pelas decisões que tomarmos hoje — decisões que envolvem não apenas a tecnologia, mas também a ética, a política e, sobretudo, o sentido de ser humano.
A pergunta final se impõe com mais força: se máquinas já conseguem pensar, decidir e criar — e se nossas emoções são manipuladas continuamente por sistemas que não compreendemos —, como garantir que continuaremos livres para escolher?
Seremos capazes de usar a tecnologia para expandir nossa humanidade, ou permitiremos que ela a reescreva por nós?
[1] HARARI, Yuval Noah. Nexus. Uma breve história das redes de informação, da Idade da Pedra à inteligência artificial. Tradução Berilo Vargas, Denise Bottmann. São Paulo: Companhia das Letras, 2024.






