PRIVACIDADE COMO RELÍQUIA AFETIVA

Na era da informação, a invisibilidade é equivalente à morte.
Zygmunt Bauman
Por Margarete Hülsendeger
Outro dia, no ônibus, uma moça atendeu o celular no viva-voz, como se estivesse sozinha na própria sala. Sem fone de ouvido, sem pudor. Conversava com alguém sobre o retorno de uma consulta médica, descrevendo sintomas, exames, recomendações. Detalhes pequenos, íntimos, que um dia foram restritos às paredes de casa. Hoje, ecoam entre estranhos como se todos fôssemos parentes íntimos. Quando desligou, sequer olhou em volta. Apenas seguiu rolando a tela. E eu ali, meio constrangida por ter presenciado, sem querer, a novela doméstica da semana.
Essa cena teria sido impensável vinte anos atrás, quando a privacidade ainda morava conosco, talvez num quartinho nos fundos, tímida, mas presente. Hoje, parece que ela virou peça de museu, daquelas que mostramos aos mais novos com um suspiro nostálgico: “Na minha época, conversas pessoais eram só pessoais.”
É curioso como a intimidade, que já foi uma espécie de abrigo, virou quase um espetáculo. É comum ver casais compartilhando cada beijo, briga ou café da manhã como se fossem capítulos de uma série. Há quem transmita a própria separação com trilha sonora triste e legenda reflexiva. Outros fazem questão de mostrar cada surpresa romântica, cada data comemorativa, cada “olha como ele é incrível!”. Tudo em tempo real, com emojis e filtros. A vida amorosa virou feed. E o amor, se não for performado, parece que perde valor.
Nos palcos da vida real, a coisa não é tão diferente. Tem acontecido com frequência: em teatros pelo país, atores têm interrompido espetáculos para pedir — ou até exigir — que o público desligue os celulares. E não é só pelo toque inoportuno, mas pelo hábito de gravar tudo, como se assistir com os próprios olhos não bastasse.
Em outubro de 2025, o ator Mateus Solano protagonizou uma cena curiosa durante a peça O Figurante: tirou o celular da mão de uma espectadora que filmava o espetáculo. A ação causou debate nas redes, mas Solano explicou que fazia parte da encenação (a personagem Ivana interage com o público) e que avisos claros sobre o uso de celulares são dados antes do início da apresentação. Mesmo assim, ele se desculpou pela situação, sem abrir mão de defender o essencial: o respeito ao trabalho dos artistas e à experiência coletiva que o teatro oferece. O momento que deveria ser vivido é, mais uma vez capturado para ser exibido. E se perde.
Claro que a internet trouxe muitas coisas boas. Aproximou quem estava longe, deu voz a quem era calado, iluminou cantos escuros. Mas, no meio desse show de luzes, nossa privacidade virou sombra. E não falo daquela relacionada à senha bancária ou ao número do CPF. Falo daquela outra: a de poder viver algo só seu, sem plateia, sem curtidas, sem registro.
Outro dia, uma amiga me contou que desinstalou o Instagram por uns dias. Disse que queria viver um pouco “fora da vitrine”. Foi passear, comeu fora, conheceu alguém legal, tudo sem registrar. Depois me disse: “Parecia que as coisas estavam acontecendo de verdade, sabe?”
Sei. Porque, no fundo, todo mundo sente essa diferença entre viver e exibir. Só que a gente vai esquecendo. A rotina nos empurra para o palco, muitas vezes, nem percebemos que estamos ali, performando a própria vida.
Talvez por isso eu ache que privacidade virou relíquia afetiva. Não porque não exista mais — ainda há quem a cultive, como quem rega uma planta rara. Mas agora ela carrega um valor que só reconhecemos quando sentimos falta. Como uma conversa com alguém que ouve de verdade. Como uma risada que não vira vídeo. Como um momento só nosso, sem sinal de Wi-Fi.
E talvez essa seja a pergunta que nos resta:
O que é que ainda é só seu?







