23 anos depois: ainda estamos tentando quebrar o mesmo átomo
Por Madalena Carvalho
Em 2003 escrevi um texto sobre preconceito.[1]
Na época eu dizia que ele nascia de julgamentos precipitados, ignorância e comportamentos herdados sem reflexão. Eu acreditava que a chamada Era da Informação talvez nos ajudasse a enxergar melhor nossas próprias contradições.

Passaram-se vinte e três anos. A informação realmente explodiu. O conhecimento também.
Mas o preconceito… continua encontrando novos caminhos para sobreviver.
Hoje ele muitas vezes aparece travestido de opinião, ironia ou defesa de valores. Às vezes se esconde em comentários aparentemente inofensivos. Outras vezes se manifesta de forma brutal, como estamos vendo novamente em ataques públicos dirigidos a pessoas cuja única “transgressão” foi existir fora de um padrão confortável para alguns.
Curiosamente, o preconceito raramente começa com ódio. Ele começa com algo mais simples e mais silencioso: a incapacidade de lidar com aquilo que não compreendemos.
Quando escrevi aquele texto em 2003, citei diferentes grupos que historicamente enfrentavam exclusão. Naquele momento, eu imaginava que a ampliação do debate público talvez acelerasse nossa capacidade de convivência.
Avançamos em muitos aspectos, é verdade. Mas também criamos uma nova arena onde as mesmas tensões humanas se amplificam com velocidade impressionante. Talvez o ponto central continue sendo o mesmo de décadas atrás. A dificuldade humana de aceitar que o outro tem o direito de existir de forma diferente.
Nos últimos dias, por exemplo, voltamos a assistir ataques dirigidos à deputada Erika Hilton. A discussão rapidamente se transforma em rótulos, disputas e reações emocionais. O debate se perde.
E então percebo algo curioso. Talvez o meu sonho seja mais simples do que muitas discussões complexas que vemos por aí. Eu sonho com o dia em que certos adjetivos deixem de ser necessários. O dia em que a palavra “trans” não precise aparecer como marcador obrigatório de identidade. Talvez um dia possamos falar apenas de pessoas.
Homens.
Mulheres.
Seres humanos.
Cada um vivendo sua própria experiência de existir. Sem que isso seja interpretado como ameaça, afronta ou provocação.
A história mostra que a humanidade sempre levou tempo para ampliar seus círculos de convivência. O que antes parecia inconcebível, com o tempo passa a parecer óbvio. Talvez estejamos apenas no meio de mais uma dessas travessias.
Em 2003 eu terminei aquele texto lembrando uma frase atribuída a Einstein: é mais difícil quebrar um preconceito do que um átomo.
Vinte e três anos depois continuo achando que ele tinha razão. Mas também aprendi outra coisa nesse intervalo. Preconceitos não se quebram apenas com discursos inflamados. Eles começam a perder força quando as pessoas desenvolvem algo muito mais raro do que informação.
Consciência.
E consciência costuma nascer quando temos coragem de olhar para dentro e perguntar, com honestidade desconfortável: o que exatamente em mim ainda precisa evoluir?
[1] Revista Partes – Setembro, 2003

Mentora de executivos e equipes há 28 anos.
Provoco líderes a encontrarem clareza, verdade e presença em um mundo movido pela urgência.






