Há algo morrendo antes da morte… e estamos assistindo em silêncio
Tem lugares na vida que funcionam como casa… e, para mim, a Partes é um desses espaços. Escrevo aqui há muito tempo, e talvez por isso exista essa liberdade silenciosa de não precisar caber em formatos, expectativas ou personagens. Aqui, eu posso ser.
Posso atravessar temas, mudar de rota, aprofundar, provocar… ou apenas observar. Nos últimos tempos, tenho me percebido mais inclinada a escrever sobre a vida como ela pulsa de verdade, nas relações, nos recomeços, na capacidade quase invisível que o ser humano tem de se reinventar mesmo quando tudo parece já ter sido dito, perdido ou encerrado. Mas hoje… hoje a escrita vem de um lugar mais denso… mais desconfortável.

Um lugar que, confesso, tenho evitado até no cotidiano mais simples, como ligar a televisão ou ouvir um noticiário. Porque há algo que se repete com uma frequência que não deveria jamais ser normalizada… mais um feminicídio.
E não, esse texto não nasce para falar dos detalhes dos casos, dos números ou dos absurdos que já conhecemos, ainda que nunca devêssemos nos acostumar com eles. O que me atravessa aqui é outra pergunta, talvez mais incômoda… em que momento a humanidade começou a se perder de si mesma? Ou será que essa perda nunca foi recente… e o que estamos vivendo agora é apenas a evidência escancarada de algo que sempre esteve ali, silencioso, estruturado, naturalizado?
Existe algo profundamente desalinhado quando a vida do outro deixa de ser percebida como vida e passa a ser tratada como extensão, posse ou descarte. E isso não começa no ato extremo… começa muito antes, em pequenas permissões, em discursos disfarçados de normalidade, em relações onde o controle é confundido com cuidado e o silêncio vira estratégia de sobrevivência. Talvez o mais dolorido não seja apenas o fato em si, mas o quanto, de forma sutil, fomos nos adaptando ao inaceitável.
Como se a repetição anestesiasse. Como se a dor, quando constante, perdesse o direito de ser sentida com a mesma intensidade. E perde mesmo… ou fomos nós que desaprendemos a olhar? Eu não tenho respostas prontas, e desconfio de quem as tenha para temas que exigem mais escuta do que afirmação. Eu sinto que existe uma urgência que não é barulhenta… é interna. Uma urgência de revisão, de consciência, de responsabilidade sobre o tipo de relação que estamos construindo, permitindo ou ignorando. Porque quando a violência chega ao extremo, ela já percorreu um caminho longo demais sem ser interrompida. E talvez o ponto aqui não seja apenas olhar para o que aconteceu, mas ter coragem de olhar para o que vem sendo permitido há muito tempo.
Escrever sobre isso não é confortável. E definitivamente não deveria ser, mas talvez seja justamente nesse desconforto que exista alguma possibilidade de interromper o automático, de não seguir repetindo, em silêncio, aquilo que já não pode mais ser sustentado como “normal”. Mais um caso no noticiário… dito quase sem pausa, quase sem peso. E é aí que algo se rompe dentro de mim. Não é só sobre o fato… é sobre a naturalização dele. Eu temo essa “normalidade” que não atravessa o discurso, que não se transforma em consequência, que não encontra resposta concreta onde deveria existir justiça.
Porque no fim… a pergunta continua ecoando, insistente, quase pedindo coragem mais do que resposta… estamos nos perdendo agora… ou finalmente começando a enxergar?

Mentora de executivos e equipes há 28 anos. Provoco líderes a encontrarem clareza, verdade e presença em um mundo movido pela urgência.






