Amar sobre água: silêncios e desencontros em Pessoas Normais

Se as pessoas pareciam se comportar de maneira sem sentido em momentos de luto, era apenas porque a vida humana era sem sentido, e essa era a verdade que o luto revelava.

Sally Rooney

Por Margarete Hülsendeger

Há histórias de amor que se desenvolvem por meio de encontros decisivos e declarações claras. Em Pessoas Normais[1], de Sally Rooney, acontece o contrário: a relação entre os protagonistas, Connell e Marianne, avança sobretudo por meio de pausas, hesitações e escolhas nunca completamente explicadas. É nesse espaço de incerteza que o romance constrói sua força. Ao acompanhar os dois personagens desde a adolescência, em uma pequena cidade da Irlanda, até os anos de universidade em Dublin, Rooney mostra como duas pessoas podem atravessar longos períodos de proximidade sem conseguir comunicar plenamente aquilo que sentem.

Na escola, Connell ocupa uma posição confortável. Popular e admirado pelos colegas, ele representa o tipo de normalidade esperado naquele ambiente. Marianne, por sua vez, é vista como excêntrica e distante, pouco interessada em se adaptar às convenções sociais do grupo. A aproximação entre eles surge durante as visitas que Connell faz à casa dela, onde sua mãe trabalha como empregada doméstica.

Esse fato não é segredo. O verdadeiro conflito está na vergonha que Connell sente em assumir publicamente sua relação com Marianne. Apesar da intimidade entre os dois, ele teme o julgamento dos colegas e prefere manter o relacionamento escondido. Esse constrangimento atinge seu ponto mais doloroso quando Connell não a convida para o baile da escola. A decisão marca profundamente a dinâmica entre os dois e estabelece o padrão de aproximações e afastamentos que acompanhará sua ligação ao longo dos anos.

Rooney sugere que Connell e Marianne muitas vezes percebem o que o outro sente. A dificuldade está em expressar esses sentimentos. Palavras que poderiam esclarecer conflitos raramente são ditas; conversas necessárias são adiadas; decisões importantes acabam sendo tomadas com base em suposições ou receios. Grande parte do drama do romance nasce menos da falta de afeto do que da incapacidade de torná-lo explícito.

Margarete Hülsendeger – Possui graduação em Licenciatura Plena em Física pela Pontifícia Universidade Católica do Rio Grande do Sul (1985), Mestrado em Educação em Ciências e Matemática pela Pontifícia Universidade Católica do Rio Grande do Sul (2002-2004), Mestrado em Teoria da Literatura pela Pontifícia Universidade Católica do Rio Grande do Sul (2014-2015) e Doutorado em Teoria da Literatura pela Pontifícia Universidade Católica do Rio Grande do Sul (2016-2020). Foi professora titular na disciplina de Física em escolas de ensino particular. É escritora, com textos publicados em revistas e sites literários, capítulos de livros, publicando, em 2011, pela EDIPUCRS, obra intitulada “E Todavia se Move” e, pela mesma editora, em 2014, a obra “Um diálogo improvável: homens e mulheres que fizeram história”.

Os silêncios ocupam um lugar central na narrativa. Muitos acontecimentos decisivos aparecem de maneira indireta, sugeridos mais do que explicados. Marianne vive em um ambiente familiar marcado pela violência e pelo desprezo. O abuso que a personagem sofre dentro de casa, especialmente por parte do irmão, permanece pouco detalhado na narrativa, enquanto, no plano da história, a mãe tampouco o enfrenta, preferindo o silêncio. Essa dinâmica aparece em fragmentos, em pequenos gestos e tensões que revelam mais do que uma explicação direta.

Algo semelhante ocorre com a depressão que Connell enfrenta na universidade. O leitor acompanha seu isolamento e sua dificuldade crescente em encontrar sentido nas próprias escolhas, mas a narrativa nunca apresenta uma origem precisa para esse sofrimento, como se fosse resultado de um processo silencioso e acumulativo.

Esse conjunto de elementos produz um efeito particular. Pessoas Normais gera uma sensação levemente perturbadora, porque grande parte das relações parece se construir sobre um terreno instável. Os encontros e desencontros, somados aos silêncios que encobrem muitas das tensões do romance, dão a impressão de que tudo está sempre se transformando, sem alcançar uma forma definitiva. É como se as relações entre os personagens se construíssem sobre a água, mudando constantemente, sem firmeza nem certezas.

Mais do que narrar o destino de um casal, Sally Rooney parece interessada em mostrar como certas relações nos transformam de maneira duradoura, mesmo quando não alcançam estabilidade. Em Pessoas Normais, o amor não surge como solução conclusiva, mas como um vínculo intenso, imperfeito e incerto, capaz de revelar a vulnerabilidade e a complexidade da experiência humana. Ao final da leitura, permanece a impressão de que Connell e Marianne talvez nunca consigam dar forma definitiva àquilo que sentem. É justamente nessa instabilidade, nessa relação que insiste em existir mesmo sem garantias, que o romance encontra sua dimensão mais inquietante.


[1] ROONEY, Sally. Pessoas normais. Tradução Débora Landsberg. São Paulo: Companhia das letras, 2019.

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