ESCALADA ASSIMÉTRICA E O PODER DOS IMPÉRIOS

Escalada assimétrica, no contexto geopolítico, é considerada no âmbito de estratégias de conflito.

Historicamente, impérios se impuseram militarmente, gastando fortunas para manter seus exércitos, desenvolver novas armas e, assim, expandir seus domínios territoriais, receber tributos, assegurar matérias-primas e vassalagem, e impor suas regras e produtos.

Mas impérios caíram, geralmente por dentro e pela incapacidade de manter a logística necessária para manter seus domínios. Isso valeu desde a Antiguidade, e o histórico mais recente foi o do declínio do Império Britânico — aquele em que o Sol nunca se punha — após a Segunda Guerra Mundial, processo posteriormente ocorrido com as guerras de independência de colônias de outros países europeus, e culminou com o esfacelamento da União Soviética.

Mas há uma enorme diferença no contexto atual, que teve origem a partir da década de 1950.

O uso bélico da energia nuclear teve início na década de 1940 e uso prático e nefasto em 1945, com a justificativa de encerrar o conflito com o Japão. Segundo os EUA, o uso das bombas de urânio e plutônio em Hiroshima e Nagasaki, respectivamente, evitou milhões de mortos na tentativa de invadir o Japão. Talvez a segunda bomba não fosse necessária, mas eles tinham duas, e alguém considerou que deveriam testá-la também, aproveitando-se da estupefação geral diante do inusitado.

O problema é que ninguém sabia exatamente quais seriam os efeitos pós-explosões, no que se refere à contaminação radioativa e seus efeitos sobre os seres humanos, diretos e diferidos. Demorou muito até entenderem esses problemas e pensarem em soluções que ainda não são suficientes.

A lógica da guerra e de seus mentores admite esse tipo de avaliação.

Os usos da energia nuclear passaram a servir a objetivos pacíficos e extremamente úteis à humanidade, mas a proliferação de armamentos e modos de sua utilização tornaram o mundo um ambiente extremamente perigoso.

Os testes feitos pelos EUA no deserto de Nevada, resultaram, indiretamente, na ocorrência de câncer em participantes da produção do filme “Sangue de Bárbaros” (EUA, 1956), inclusive John Wayne, Susan Hayward e Dick Powell.

Soldados foram desavisadamente expostos em áreas após explosões nucleares, em testes sobre como seria a atuação da infantaria no caso de um confronto nuclear.

A Rússia detonou, em 1961, a Tsar Bomb, 3,3 mil vezes mais potente do que a utilizada em Hiroshima. Um poder destrutivo teratológico!

A Ucrânia tinha o segundo maior arsenal nuclear da URSS. Para obter sua independência, após a derrocada do regime soviético, fez parte do acordo a Ucrânia transferir todo esse arsenal para a Rússia. Caso não o tivesse feito, provavelmente a Rússia não teria iniciado a guerra atual, pois teria um enorme poder de dissuasão.

E, por falar em poder de dissuasão, muitos países passaram a desenvolver programas nucleares com objetivo militar.

Atualmente, os cinco países do Conselho de Segurança da ONU com poder de veto (EUA, Rússia, China, França e Reino Unido) dispõem de poderio nuclear ofensivo e defensivo. Isso lhes assegura um poder que pode assegurar dissuasão, mas também capacidade ofensiva que os torna perigosos.

Não à toa, nenhum deles aceita que outras nações tenham controle sobre as tecnologias envolvidas. Isso não impediu que Índia, Paquistão, Israel e Coreia do Norte as tenham desenvolvido, inclusive prevendo lançamento de artefatos nucleares via mísseis intercontinentais.

Lembro do filme “O Rato que Ruge” (Reino Unido, 1959), no qual uma pequena nação, cuja única receita vinha da exportação de vinhos, ao ser objeto de elevada taxação pelos EUA, resolveu declarar guerra ao “Tio Sam”, com o propósito de perder o conflito e, assim, gozar de programas similares aos aplicados na Europa e no Japão, após a Segunda Guerra Mundial. Um pequeno grupo expedicionário foi enviado aos EUA e sequestrou um cientista, sua filha e uma bomba atômica.

O resultado foi muito melhor do que o esperado, pois a pequena nação passou a ser respeitada por dispor de poder dissuasor. Bem, o enredo é um pouco mais detalhado e divertido nesse “nonsense”, que faz sentido.

A diferença entre os impérios até a década de 1970 é que as potências nucleares, dependendo de quem decide ou opera os sistemas, geram algumas vantagens em negociações de múltiplos interesses.

O atual conflito no Irã é um exemplo, assim como o quadro geopolítico atual.

A disputa pelo controle dos países do hemisfério sul pelas potências mundiais, sobretudo EUA e China, é notória e preocupante, e toda a ligação é considerada perigosa.

Os EUA têm atuado diretamente para assegurar a manutenção estratégica de seu “quintal”, ou oferecendo ameaças à soberania, veladas ou não, a quem se aproximar muito da China ou Rússia.

No caso do Brasil, independentemente de questões ideológicas, como ignorar ou dispensar um parceiro comercial como a China?

Se nossa economia fosse forte, baseada em pesquisa científica e desenvolvimento tecnológico, considerando todos os recursos naturais e competência de cientistas e técnicos brasileiros, não seríamos tão dependentes das potências atuais.

Infelizmente, isso não parece constar em planos estratégicos dos governos, mais preocupados em manter o poder do que no efetivo desenvolvimento socioeconômico do Brasil.

Isso nos torna frágeis e dependentes, internamente e externamente.

No episódio de Cuba, em 1961, o presidente Kennedy ameaçou o primeiro-ministro soviético, Nikita Kruschev, dizendo que os EUA tinham poder nuclear para destruir a URSS quatro vezes, enquanto a URSS só dispunha de arsenal para destruir os EUA uma vez.

Kruschev respondeu que à URSS bastaria destruir os EUA uma única vez.

Os impérios atuais, mesmo que entrem em decadência, ainda assim disporão de seu poderio militar para buscar, pela coação e força, compensações e meios de sobrevida.

Se todas as vítimas desse cenário também desenvolverem programas nucleares com objetivos defensivos ou ofensivos, o mundo estará muito próximo do Apocalipse, por conta da insanidade de líderes políticos, militares tresloucados ou terroristas fanáticos.

Uma escalada assimétrica entre pessoas, cada uma subindo o tom das ameaças e agressões verbais, pode gerar vias de fato.

Entre nações, também!

É preciso evitar isso, mas abrir mão de poder e buscar consensos também parece não estar na pauta dos que comandam o mundo.

Além disso, precisamos de menos ideologias radicais, narrativas oportunistas e populismos, e de muito mais tecnologia, inovação e fortalecimento da economia empreendedora para efetivamente alcançarmos os tão almejados soberania e protagonismo no concerto das nações.

Adilson Luiz Gonçalves

Escritor, Engenheiro, Pesquisador Universitário e membro da Academia Santista de Letras

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