SIMPLES PRAZERES

Por Adilson Luiz Gonçalves
Minhas avós eram portuguesas e, principalmente a materna, tinha um dom para temperar seus pratos.
O impressionante é que, por razões de saúde, sua dieta era bem sem graça, mas, quando recebia visitas, cozinhava os mesmos pratos deliciosos.
Minha mãe herdou esse dom, enquanto meu pai ficava encarregado das novidades. Ele aprendeu a fazer massa de pizza e fez o primeiro estrogonofe. Os aniversários em casa eram feitos a base de pizzas, salgadinhos, doces e bolos todos feitos em casa, com todos pondo “a mão na massa”.
Os cinco filhos aprenderam a cozinhar com eles, o que nos salvou de situações gastronômicas complicadas.
Quando estudei no exterior, havia um restaurante na faculdade, que só servia almoço. Paguei um trimestre, por comodidade, mas não renovei pois o “chefe”, que havia sido contratado por seu “currículo”, esqueceu que estudantes precisam de “sustança”.
Seus pratos eram estranhos, sem opções. Era o que tinha e pronto!
Além de um arroz quase sempre azedo, certo dia ele nos proporcionou um prato cuja “pièce de résistance” era tripas temperadas.
Olhei para aquilo e nem tentei comer. Pensei que o problema era eu, mas, ao levantar, quase sem nada comer ou sequer tocar “naquilo”, vi que a imensa maioria dos estudantes havia deixado seus pratos quase intactos.
Por conta disso, comprei uma chapa elétrica, panelas, tigela, prato e talheres, e passei a cozinhar pratos simples no quarto da faculdade. Foi o que me salvou.
A única exceção era aos domingos, quando comprava uma enorme pizza “royale”, feita num furgão próximo à faculdade. Eu a comi inteira! Bons tempos…
E é nessa simplicidade que me baseio até hoje.
Gosto de experimentar novos sabores, mas têm sido raros os que passam a fazer parte de meu cardápio. Prefiro ir na certeza.

Já fui a restaurantes diferenciados. Gostei de alguns pratos, mas nenhum memorável.
Por conta disso, sempre desconfio quando usam adjetivos como “gourmet”, exaltando o nome do “chef”.
Conheço pessoas que os frequentam para parecerem refinadas, às vezes pagando caro, comendo pouco e mal, só para contarem vantagem, jactando-se de terem conversado com o “famoso” autor dos pratos.
Experimentar coisas novas é interessante, mas não supera os simples prazeres de um arroz com feijão bem temperado, um bolo de fubá cremoso, um pudim de leite ou de um pedaço de pizza fria no café da manhã, e um “assalto” noturno à geladeira, apesar da preocupação com índices glicêmicos.
São pequenos prazeres que tornam a simplicidade altamente sofisticada, apreciada no silêncio do lar, ao lado de quem amamos, preparando pratos com carinho, sem soberba ou exibicionismo, mas que sempre merecem as estrelas do paladar satisfeito, além de outros sentidos.
Adilson Luiz Gonçalves
Escritor, Engenheiro, Pesquisador Universitário e membro da Academia Santista de Letras…






