A Opinião Pública: uma construção a partir da aliança entre o turismo e a internet

por Ana Marina Godoy

Ana Marina Godoy é turismóloga formada pela UFPR, profissional de marketing
através de MBA pela Fundação Getúlio Vargas e consultora em ambas as áreas.
anamarinagodoy@ig.com.br

No mundo atual, extremamente capitalista, o emprego do tempo livre, com a condição intrínseca de decidir sobre o que fazer, foi modificado para reproduzir as necessidades programadas e orientadas para a produtividade e consumo, com o apoio de fortes esquemas mercadológicos, a dimensão ideológica do lazer.

Wanderley Guilherme dos Santos (em “O estado social da nação”, 1985) situando o “tempo” e o “uso do lazer” entre os demais indicadores relevantes para aferir o estado social da nação, a partir de um núcleo universalmente aceito, coloca em xeque o lazer no Brasil, afirmando que o mesmo está para muitos como uma questão privada. O alcance do lazer turístico fica fora de cogitação para a maior parcela da população, conforme demonstram os dados censitários referentes à População Economicamente Ativa (PEA).

Com a disseminação da informática, internet e pontos de acesso gratuitos, o turismo virtual passa a ser uma possibilidade para quem não tem tempo e/ou dinheiro. A sinestesia, tão valorizada nos tempos pós-modernos, é substituída por algo de igual hierarquia, segundo a opinião pública: a praticidade, o alcance do objetivo. De alguma forma a pessoa viajou e conheceu outros lugares, sendo capaz de dialogar e discutir com quem esteve em carne e osso. Emoções hoje se criam também através de pílulas. Não só de experiências. O que pode evitar os inconvenientes de uma viagem. A mobilidade urbana implica número tão elevado de deslocamentos motorizados, que os congestionamentos, os ruídos e a contaminação atmosférica parecem ter-se incorporado, irremediavelmente, à vida os grandes conglomerados urbano-industriais, provocando a necessidade vital de outra mobilidade: a do fim de semana, para o necessário relaxamento e descanso. Aí surge outro problema intenso: o tráfego intenso nas rodovias de ligação com o litoral ou outros locais procurados nos finais de semana provoca novo congestionamento, oferecendo risco de vida a seus usuários. Irritabilidade, tensão nervosa e estresse são adquiridos justamente quando se buscam descanso e entretenimento.

São obrigações primeiras QUALIDADE DE VIDA E LAZER para um Estado responsável e para uma nação que tenham a justiça social como meta, em seu sentido mais amplo que necessidades básicas, dadas pela natureza a qualquer ser vivo e que apenas o mais inteligente dos seres nega a seus iguais.

O Turismo é um fator socioeconômico importantíssimo que intensifica e aperfeiçoa a mobilidade humana. Passou-se de uma sociedade em que as pessoas apenas se mudavam de casa para uma que faz turismo de massa. Não existe praticamente lugar de nossa geografia onde não se observe a influência desse fenômeno em maior ou menor intensidade. Uma das formas mais importantes de mobilidade é o Turismo.

O turismo de massa conferiu fisionomia marcadamente móvel e dinâmica ao mundo. Os fins de semana se converteram num fator de mobilidade trepidante, uma espécie de válvula de escape em busca da tranquilidade da praia ou do campo. Para o homem contemporâneo, o descanso é uma necessidade e é a oportunidade de encontrar a si mesmo, seu semelhante e a natureza. Ele tem necessidade vital de sair da cidade porque esta está cada vez mais desumanizada. A especulação econômica tornou muitas delas inabitáveis por falta de áreas verdes. Além da monotonia, o ritmo de
trabalho durante toda a semana exige também uma ruptura libertadora que o capacite para o desenvolvimento de outros aspectos fundamentais da vida, como o descanso, o desfrute e a contemplação da natureza, a formação cultural, o trabalho social livre (ajudar e cuidar do outro faz bem à alma), o entretenimento, a prática de esportes (antidepressivo natural).
Mas o sair de casa hoje é um conceito relativo. Pode estar mais evasivo alguém conhecendo a Rússia através do computador do que um executivo fazendo turismo de negócios em Tóquio e pensando na filha que está no hospital no Brasil.

Os conceitos de turismo e lazer tendem vir a se confundir. O lazer diz respeito àquele tempo de que dispomos para fazer qualquer coisa que nos agrada, até mesmo fazer nada. O turismo exige saída por mais de 24 horas da cidade cotidiana e pode abrigar remuneração. Com a internet e o advento do turismo virtual, até mesmo o turismo na própria cidade pode vir a existir, preenchendo o quesito evasão e descoberta, além de saída de rotina. “O Urbenauta”, de vivência e autoria de Eduardo Fenianos, mostra bem isso, através de filme e livro. A questão do olhar e da interpretação é desvendada de uma forma poética e o conhecimento acontece através de distâncias próximas aos caminhos rotineiros.

Fazer a opinião pública consumir mais produtos turísticos é interessante para todos os setores da sociedade, seja econômica ou socialmente, sem falar em outros aspectos como o da interculturalidade. É uma forma de democratizar conhecimento.
Prazer e paixão hoje podem ser programados, seja através de injeção de substâncias, de mudança de paradigmas – cada vez mais flexíveis e frágeis – no modo de encarar a vida e interpretar um mesmo olhar, seja numa viagem interior ou exterior.

Guiar a opinião pública não é o mais sensato dentro de um contexto tão carente de limites e com fronteiras tão tênues. A WEB é reflexo de tal colcha de retalhos, sem controle substancial. Apresentar possibilidades – de forma inteligente e pensada, verdadeira e sem frieza desumana– fazendo o público se sentir dono de seu pensar e escolher é muito mais lucrativo e pode ser uma oportunidade num país onde não mais faltam escolas, vagas ou programas de alfabetização (de acordo com órgãos oficiais nacionais e internacionais), mas educação. O turismo pode ser um grande passo para tanto. A tecnologia uma ferramenta e a opinião pública uma aliada.

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