Uma questão de berço?

Johnny L. Notariano

publicado em 21/01/2008

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Johnny Leonardelli Notariano – notarian@usp.br

É comum se ouvir dizer durante um relacionamento desgastado, /é uma questão de berço/. O que seria uma questão de berço se não a boa formação que tivemos até a década de 60. Nas cidades do interior tínhamos a separação das classes sociais e todos viviam muito bem dentro dos limites, nas grandes cidades, acredito, era a mesma coisa. Não se trata de preconceito ou discriminação, todos eram tratados da mesma maneira, havia respeito mútuo dentro das limitações, o bom senso determinava o respeito e os limites. É como a pirâmide social, as pessoas trabalham e vivem para melhor participar e se posicionar. O ser humano valia realmente muito. O credo religioso era valorizado e endereçado à todos; a formação escolar acolhia a classe pobre, a classe média e a classe rica. Além de o ensino ter excelência notável era de primeira ordem e gratuito. Laser; Saúde; Segurança, trabalho, a mesma coisa. Existia satisfação e prazer de se viver na comunidade interiorana. A igreja confortava aos menos privilegiados ao mesmo tempo em que educava e preparava para o bom relacionamento e para a vida, como faz muito bem ainda hoje. Quem viveu aquela época hoje sente saudades de tantas coisas lindas e memoráveis. Temos tanto a passar aos jovens de hoje que chegam a não acreditar que a felicidade realmente existia. Quando se fala em /Berço/, eu me lembro dos primeiros dias no curso fundamental; rodinhas de amigos; \pelada\ depois da aula; estudo em grupos na casa simples e humilde de algum colega ou amigo; de namoros e amores vividos intensamente com muito respeito; dos madrigais; da missa aos domingos aos cultos evangélicos; a atenção que se dava ao próximo; ao vizinho e o /sincero cumprimento/ àquele que nem se conhecia num gesto de carinho e gentilezas. O cinema; o rádio; os programas de auditório; a retreta aos domingos no coreto da praça e os flertes durante o footing nas ruas principais. O parque de diversão; o circo e o teatro, mesmo sendo apresentados pelos amadores da cidade, era o maior espetáculo para nós. Na mesma praça, quantos amores começados e hoje realizados pelos filhos e netos. Apreciava-se o verde das matas ao redor da cidade; passeios de bicicleta pela zona rural; leite extraído na hora nos currais; o verdureiro; o leiteiro; o jornaleiro. As serenatas cantadas pelos menestréis da cidade. Quem viveu como eu perto de uma estação de trens, que saudades do apito da Maria Fumaça, meio de transporte que hoje consideram inviáveis e, eu não sei o por que se o que se consome é nada mais que lenha e o vapor não trazia riscos de poluição. As cadeiras na calçada, as flores nas janelas; o velho fogão a lenha e as histórias contadas e ouvidas ao redor em tempos de inverno. O homem do realejo na praça, o algodão doce; a pipoca as cirandas e as cantigas de roda nas comemorações populares. Eu me lembro de um senhor que vendia amendoim /torradinho/ todas as noites, o dinheiro era escasso, mas o prazer ao saborear aqueles amendoins lembra um verdadeiro banquete infantil. Todos, éramos felizes e como diz o poeta, /Não sabíamos/.

Há! A água! Quantas cachoeiras faziam parte dos passeios dominicais. Hoje quantas não existem mais. Quantos riachos sem água; rios poluídos; lugares esquecidos. Quem conheceu as geleiras, o frio seco e gostoso sente-se frustrado e quem não conheceu não a verá jamais. Quantos desencontros e descasos com a natureza que sempre nos brindou com sua beleza e hoje parece que sentimos sua tristeza e sua revolta. Será que ela nos perdoará?

Como tudo mudou! Não existe mais o desconforto da separação de classe, mas tudo se confunde na crise de identidade. De volta ao /Berço/, o que esses jovens nascidos nas grandes cidades, nas vilas, têm para sentir saudades? O que têm no futuro para contar aos filhos? Pensem bem, nas favelas do Rio existia até a década de 60 o respeito e o prazer de se viver em harmonia, mesmo na pobreza existia felicidade, que hoje está ausente. Essa verdade é ratificada ao se curtir a música \Ave Maria do Morro\, tem um refrão que diz \.Lá não existe felicidade de Arranha–céu, pois quem mora lá no morro, já vive pertinho do céu\. Sinfonia de pardais anunciando o amanhecer. Como no interior lá também se curtia a alvorada, a passarada e o anoitecer. Quantas músicas populares e de carnaval de artistas nascidos no morro?! Quanta alegria proporcionada pelas escolas de samba. Turismo e laser. Quanto respeito entre todos.

Realmente, tudo está diferente. Hoje de maneira geral, com toda essa expectativa de vida melhor, os jovens são como moços envelhecidos ao contrário do passado. Aqueles da década de 60 que hoje ainda vivem são velhos moços e guardam no mais íntimo a alegria da infância e da juventude, até se portam como eram antes; tem muitas informações saudáveis a passar para os jovens. Respeito, gentilezas; boas maneiras; conhecimento geral como forma de cultura, hoje, são privilégios de alguns mais espertos. Temos tudo, ao mesmo tempo não temos nada, pois falta-nos o mais importante, tempo para viver o amor e sermos felizes. A tecnologia reduziu significativamente as distancias, mas aumentou demasiadamente no relacionamento familiar. Alguns segundos é o tempo que se gasta para se comunicar com qualquer parte do mundo pela internet, contato virtual por imagem e som. Muitas vezes na mesma casa, as pessoas passam meses sem um diálogo, sem contato e o mais importante, sem um abraço. A cada dia mais se propaga a solidão em grupo; o egoísmo, as incertezas no futuro e a esperança, esta parece que nos abandonou. Não somos culpados, somos responsáveis por não lutar contra essa pressa de se chegar ao abismo.

O que vemos hoje estampado no rosto das pessoas? Reparem. Medo; angústia; dúvida; desconfiança; dinheiro; solidão; ganância; vaidade; ansiedade; pressa e culto ao consumo. Com quantos amigos podemos contar se precisarmos? Com certeza aqueles do passado, fruto de uma relação mais autêntica e saudável, honesta e desinteressada. Hoje nos deparamos com pessoas doentes na alma; carentes e desalentadas. Agressão, humilhação e violência, se transformaram em coisas de rotina e normais.

Então reflitam, se muitos jovens hoje, não têm motivos para sentir saudades, são vazios; sem nenhuma informação, imaginem os jovens de amanhã. Tenho orgulho da minha época, rogo para que o futuro seja como ontem e espero por um milagre, que o passado dourado volte a ser nosso presente.

Grande e Fraternal abraço

Johnny Leonardelli Notariano – Universidade de São Paulo

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