Etnolinguística: pressupostos e tarefas

Etnolinguística: pressupostos e tarefas

Evanice Ramos Lima Barreto[*]

 

Publicado originalmente em publicado em 02/07/2010 como http://www.partes.com.br/cultura/etnolinguistica.asp


Evanice Ramos Lima Barreto é Mestre em Letras e Linguística pela Universidade Federal da Bahia. Professora de Linguística da Faculdade de Ciências Educacionais.

Resumo: O presente artigo tem por objetivo apresentar os pressupostos teóricos da Etnolinguística, disciplina que procura investigar os relacionamentos entre língua e visão de mundo a partir do contexto em que a língua é produzida, e cujo campo de estudo foi delimitado por Edward Sapir, que exigia para ela o mesmo rigor de todas as ciências. Além disso, apresenta também as tarefas da Etnolinguística conforme a perspectiva de Eugênio Coseriu, que procurou delimitar com precisão o objeto próprio dessa disciplina.

Palavras-chave: língua, cultura, estudos etnolinguísticos, tarefas da Etnolinguística.

 

Abstract: This paper aims to present the theoretical principles of the Ethnolinguistic, a discipline that investigates the relationship between language and worldview from the context in which language is produced, and whose field of study was limited by Edward Sapir, which required it the same rigor of all sciences. Furthermore, it also presents the tasks of Ethnolinguistic according to Eugenio Coseriu’s perspective, which sought to define precisely the proper object of this discipline.

Keywords: language, culture, ethnolinguistic studies, Ethnolinguistic tasks.

Introdução

A linguagem está presente em todas as atividades humanas. Além de sua função principal de estabelecer comunicação entre os homens, ela é responsável pela sistematização de suas experiências em relação aos fenômenos do mundo. A sociedade se constitui através da linguagem, visto que é devido à sua existência que o homem transmite tudo que aprendeu, conheceu ou experimentou a outras gerações. Portanto, ela é responsável pela transmissão de todo o acervo cultural acumulado pela humanidade durante séculos.

Os assuntos relacionados à linguagem sempre despertaram o interesse da humanidade que, desde a Antiguidade, já se debruçava sobre vários estudos a respeito de sua organização, bem como de seus constituintes. Tais estudos continuaram e continuam, sob outras perspectivas, a serem empreendidos até os dias atuais. No século XX, procurava-se investigar a linguagem, abstraindo os elementos exteriores ao sistema linguístico, preocupando-se em separar os estudos da linguagem, enquanto instituição, dos estudos da Linguística. Esta deveria ter uma autonomia, enquanto os problemas extralingüísticos deveriam ser tratados por outras ciências. Porém, nos estudos linguísticos, era latente a preocupação em relacionar a linguagem com outras disciplinas. Em A Linguística como ciência, por exemplo, Sapir evidenciava que

É especialmente importante que os linguistas, tantas vezes acusados, e acusados com justiça, de não saberem enxergar além dos elaborados padrões que depreendem em seu estudo, passem a perceber claramente o que a sua ciência significa para a interpretação da conduta humana em geral. Queiram eles ou não, terão de cada vez mais se interessar pelos múltiplos problemas antropológicos, sociológicos e psicológicos que invadem o âmbito da linguagem. (SAPIR, 1969, p. 27)

 

Surgiram, assim, diversas ciências (ramificações da Linguística) que procuram estabelecer relações com a Linguística: a Psicolinguistica, a Sociolinguística, a Antropolinguística, a Etnolinguística, etc. Esta última procura estabelecer relação entre linguagem e cultura. A linguagem, característica universal do homem, é eminentemente social, estando intimamente relacionada com a cultura. Através dela, todas as concepções do mundo são levadas ao homem.

Várias pesquisas foram realizadas em torno da linguagem enquanto fenômeno social, como as de Malinowski que, ao analisar um texto primitivo, mostrou que a língua está arraigada na realidade cultural, nos costumes de um povo, não podendo, portanto, ser explicada sem referência constante a estes. Levis-Strauss, por exemplo, ao analisar as relações de parentesco como formas de comunicação, exige, para a linguagem, a instauração da sociedade. Para ele, a cultura decorre da linguagem. Mas foi o estudo de Sapir-Whorf o de maior destaque nesse sentido. Eles consideraram a linguagem um poderoso símbolo de solidariedade em que, de forma inconsciente, sobre os hábitos da linguagem de um grupo, é construída a realidade.

Sem dúvida, a partir do desenvolvimento da Linguística como ciência e da Antropologia, a língua passou a ser analisada cientificamente como elemento da cultura. A cultura, de acordo com Montagu,

 

representa a resposta do homem às suas necessidades básicas. É o modo que tem o homem colocar-se à vontade no mundo. É o comportamento que aprendeu como membro da sociedade. Podemos defini-la como o modo de vida de um povo, o meio, em forma de idéias, instituições, potes e panelas, língua, instrumento, serviços e pensamentos, criado por um grupo de seres humanos que ocupam um território comum. (MONTAGU, 1972, P. 131)

 

 Já a língua se apresenta, de acordo com Mattoso Câmara,

como um microcosmo da cultura. Tudo que esta última possui se expressa através da língua; mas também a língua em si mesma é um dado cultural. Quando um etnólogo vai estudar a uma cultura, vê com razão na língua um aspecto dessa cultura. Nesse sentido, é o fragmento da cultura de um grupo humano a sua língua. Mas, como ao mesmo tempo a língua integra em si toda a cultura, ela deixa de ser esse fragmento para ascender à representação em miniatura de toda a cultura. E ainda mais: como elemento de cultura, a língua apresenta o aspecto muito curioso de não ser em si mesma uma coisa cultural de per si, à maneira da religião, da organização da família, da arte da pesca etc.; ela apenas serve dentro da cultura como seu meio de representação e comunicação. (MATTOSO CÂMARA, 1965, p.18)

Primeiros estudos etnolinguísticos

As pesquisas etnolinguísticas datam do século XIX, quando os norte-americanos passaram a estudar grupos tribais e suas respectivas línguas, com o objetivo de identificar a sua organização, classificando-os linguística e etnicamente. Nessas pesquisas, cada sociedade e cada língua foram analisadas em particular, sem estabelecer relação entre as mesmas. Assim, não foi aplicado o método histórico-comparativo da linguística europeia.

No final do século XIX, propondo estudar as sociedades indígenas em sua própria estrutura, Franz Boas, da Universidade de Colúmbia, nos Estados Unidos, realizou um trabalho pioneiro pesquisando línguas indígenas na costa do Pacífico norte. A partir do método das ciências naturais, ele descreveu com objetividade e rigor cada grupo, relacionando os fenômenos culturais aos fenômenos linguísticos e considerando ambos de natureza inconsciente.  Para ele, os fenômenos linguísticos jamais chegam a ser conscientes, enquanto os culturais podem atingir o nível da consciência individual. Mas isso não compromete o relacionamento entre eles e, assim, é possível utilizar-se de métodos etnológicos e linguísticos nas pesquisas, como se percebem na Etnolinguística. Boas deu um novo direcionamento à linguística, demonstrando que as afinidades entre línguas podem ser explicadas também pela difusão originada do contato entre grupos humanos. Influenciado por Boas, Edward Sapir deu continuidade aos seus estudos etnolinguísticos das línguas indígenas. Segundo ele, sendo a linguagem a expressão da capacidade de simbolização e o resultado da integração do homem no contexto cultural, é possível estabelecer relações entre a linguística e a etnologia. A tradição antropológica de Boas e Sapir na linguística norte-americana tiveram continuidade com Whorf, discípulo de Sapir, cuja premissa era a de que a língua molda a concepção de mundo dos grupos humanos e, portanto, esta depende da estrutura da língua falada pelo grupo.

Os estudos que relacionam linguística e antropologia tiveram continuidade na linguística norte-americana com a contribuição de vários pesquisadores, como Greenberg, que estudou a dupla natureza da linguística: parte da ciência da cultura e parte da semiótica; Pike, que propõe reunir os tipos de análise linguístico e extralinguistico num modelo comum; Goodenough,  que analisou termos referentes ao  sistema de parentesco, aplicando um método lógico-matemático; Swadesh, que procurou determinar, através de um  estudo estatístico, o ritmo das alterações no léxico das línguas, investigando lexias referentes a partes do corpo, cores, fenômenos meteorológicos, etc. que sofrem constantes mudanças em todas as línguas. Já na Europa, os estudos que envolvem linguística e antropologia não tiveram a mesma dimensão dos estudos realizados nos Estados Unidos. No entanto, alguns se destacaram, como os de Edward Tylor, que escreveu alguns capítulos sobre linguagem em Primitive Culture (1871) e Antropology (1881); Malinosky, que defendia uma teoria etnolinguistica que orientasse os estudos em sociedades primitivas relacionados com os estudos etnográficos destas; Firth que, influenciado por Malinosky, investigou a utilização da linguagem em diferentes sociedades, bem como os graus de comunicação estabelecidos através dela.

O que é Etnolinguística?

Etnolinguistica é uma disciplina que tem causado confusões no que tange à terminologia, bem como ao seu objetivo de estudo. Por isso, muitos estudiosos têm se dedicado à definição de seus fundamentos e suas tarefas. Geralmente é concebida como a disciplina que estuda as relações entre língua, cultura e sociedade.  Com mais precisão, ela se define como a disciplina linguística que estuda a variedade e a variação da linguagem em relação com a civilização e a cultura.

A Etnolinguística abrange domínios tanto da Linguística quanto da Antropologia, por isso não é uma disciplina isolada e autônoma. Ela se preocupa em investigar os relacionamentos entre a língua e visão de mundo, a partir do contexto em que a língua é produzida, analisando a sua adaptação a este contexto e seu poder de expressão. Através dela, é possível perceber de que forma a visão de mundo de um grupo está relacionada às suas experiências, bem como se verifica a influência da cultura no léxico e na gramática de uma língua, de acordo com as atividades, sua estrutura social e o ambiente geográfico.

          A Etnolinguística não analisa o fato linguístico isoladamente, mas sempre relacionado ao contexto em que ele foi produzido, considerando os dados paralinguisticos e extralinguisticos. Assim, de acordo com Dell Hymes, devem ser considerados: o emissor, o receptor, a forma da mensagem linguística, os códigos, os canais de comunicação, o tema e o contexto.

          O campo de estudo da Etnolinguística foi delimitado por Edward Sapir, para quem a Etnolinguística deveria ter o mesmo rigor de todas as ciências. Porém os métodos de estudo da Etnolinguística podem variar conforme a orientação e os interesses do estudioso.

Com o objetivo de definir as tarefas da Etnolinguística, Eugenio Coseriu (1978) procura delimitar com precisão o objeto próprio dessa disciplina. De acordo com ele, as definições da Etnolinguística são imprecisas e amplas demais, fazendo-se necessária a repartição de seus estudos em várias disciplinas, bem como a ampliação do objeto de estudo até então lhe atribuído. Dessa forma, ele limita a Etnolinguística (disciplina linguística, não etnológica nem etnográfica) ao estudo da variedade e variação da linguagem em relação com a civilização e a cultura.

          Considerando o ponto de partida dos estudos, Coseriu (1978) faz uma distinção entre uma Etnolinguística propriamente dita e uma e “Etnografia linguística”. Partindo da correlação linguagem-cultura, a Etnolinguística propriamente dita ocupa-se dos fatos linguísticos determinados pelos “saberes” acerca das coisas, enquanto a Etnografia linguística trata da cultura, dos “saberes” acerca das “coisas” expressos pela linguagem enquanto manifestação cultural.

Para melhor compreensão das tarefas dessa disciplina, Coseriu (1978) propõe ainda três planos da estrutura geral da linguagem, aos quais correspondem saberes e conteúdos linguísticos distintos:

  1. o plano universal do falar geral, ao qual correspondem o saber elocucional, independente da língua em uso, e a designação, referência à realidade, a “coisas” e “estados de coisas”;
  2. o plano histórico das línguas, ao qual correspondem o saber idiomático, domínio de uma língua e o significado, conteúdo dado pelas oposições idiomáticas;
  3. o plano individual do discurso, ao qual correspondem o saber expressivo, adequação do discurso ao contexto e o sentido, conteúdo próprio do discurso determinado por fatores extralingüísticos.

          Em razão disto, Coseriu define três linguísticas diferentes: a do falar, a das línguas e a do discurso. E pela mesma razão, distingue três planos para a Etnolinguística. Assim, ele propõe uma Etnolinguística do falar em geral, uma Etnolinguística das línguas e uma Etnolinguística do discurso, com tarefas e sentidos distintos. Estudar a linguagem definida pelo conhecimento universal do mundo, pelos saberes extralinguísticos concerne à Etnolinguística do falar. Já a Etnolinguística da língua se preocupa com os fatos de uma língua determinados pelos “saberes” acerca das “coisas” e, consequentemente, pela estratificação social das comunidades e da linguagem em si. A Etnolinguística do discurso, por sua vez, estuda os discursos, seus tipos e estruturas determinados pela cultura de uma comunidade.

         Por fim, ele salienta que, em sentido diacrônico, cabe à Etnografia linguística estudar “as mudanças na cultura manifestada pela linguagem” e à Etnolinguística diacrônica, “as mudanças na linguagem enquanto motivadas por mudanças na civilização e na cultura”.

Considerações finais

          A análise da língua de uma determinada comunidade, partindo dos fatos linguísticos para os fatos extralinguisticos, permite conhecer melhor a realidade social desta.  Em função dos fatores extralinguisticos, podem ser explicitados vários fenômenos linguísticos, como o aparecimento de determinadas formas lingüísticas.

          No que tange ao léxico de uma língua, por exemplo, os estudos demonstram que este pode situar preferências culturais de uma dada comunidade, refletindo mais as coisas que estão diretamente ligadas à sua vida diária. Conforme a atividade dessa comunidade, seus membros terão especificidade lexical mais desenvolvida nessa área, predominando as referências aos objetos, materiais, ações, conceitos relacionados a esta atividade. Assim, percebe-se a importância da cultura nos estudos linguísticos.

Referências

CÂMARA JR, Mattoso. Introdução às línguas indígenas brasileiras. Rio de Janeiro: Universidade do Brasil, Museu Nacional, 1965.

COSERIU, Eugênio. Fundamentos e tarefas da Sócio- e da Etnolinguística. I CONSEL. João Pessoa: 1978. (Mimeo).

DICK, Mª Vicentina de P. do Amaral. Aspectos de Etnolinguística: a toponímia carioca e paulistana contrastes e confrontos. São Paulo: USP.

ENCICLOPÉDIA Mirador Internacional. São Paulo: Enciclopédia Britânica do Brasil, 1995. 20 v.

MONTAGU, Ashley. Introdução à Antropologia. São Paulo: Cultrix, 1972.

SAPIR, Edward. A Linguística como ciência. Rio de Janeiro: Acadêmica, 1969.

WEEDWOOD. B. Introdução. In: História concisa da Linguística. São Paulo: Parábola, 2002.

MALINOWSKI, Bronislaw. Antropologia. Trad. Eunice R. Durham. São Paulo: Ática, 1986

[*] Mestre em Letras e Linguística pela Universidade Federal da Bahia. Professora de Linguística da Faculdade de Ciências Educacionais.

Como citar esse artigo:

LIMA BARRETO, Evanice Ramos. Etnolinguística: pressupostos e tarefas. P@rtes. (São Paulo). Junho de 2010. ISSN 1678-8419. Disponível em <>. Acesso em _/_/_.

 

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