Quando a beleza é forjada

Kim Novak

QUANDO A BELEZA É FORJADA

Margarete Hülsendeger

 

Dizes que a beleza não é nada? Imagina um hipopótamo com alma de anjo… Sim, ele poderá convencer os outros de sua angelitude – mas que trabalheira!

Mario Quintana

 

Margarete Hülsendeger é Física e Mestre em Educação em Ciências e Matemática/PUCRS. É mestra e doutoranda em Teoria Literária na PUC-RS. margacenteno@gmail.com

O verso de Vinícius de Morais, “As muito feias que me perdoem, mas beleza é fundamental” sempre me incomodou, talvez porque acredito tratar-se de um daqueles pensamentos infelizes e superficiais que depõem contra o poeta e a sua decantada sensibilidade. Afinal quem se importa em ver além das aparências sabe que existem diferentes formas de beleza, todas com seus próprios atrativos. No entanto, é preciso reconhecer que nos últimos anos a busca pela beleza externa tornou-se uma verdadeira obsessão.

Anúncios na TV, nas rádios, nos jornais e nas revistas mostram homens e mulheres com corpos esculturais vendendo um conceito de beleza, na maioria das vezes, inatingível. Em outra crônica[1], já abordei esse fenômeno, contudo, uma nova notícia veio confirmar o ponto de vista que anteriormente já havia defendido. Nos Estados Unidos, o personal trainer Andrew Dixon alerta que muitas das fotos utilizadas para alimentar a ideia do corpo perfeito são manipuladas com o uso e abuso do photoshop.

Sabe aquelas imagens que mostram homens e mulheres “antes” e “depois” de uma dieta ou de um treino? Pois bem: segundo Andrew, a maioria delas é forjada.

Para provar essa teoria, ele usou a si mesmo como cobaia. Fez algumas fotos suas quando estava se sentindo “um pouco inchado” e, em seguida, raspou a cabeça, o rosto e o peitoral, preparando-se para a foto do “depois”. Segundo ele, além dessas “raspagens” fez algumas flexões, mudou as luzes do quarto, encolheu a barriga e contraiu o abdômen. E, como num passe de mágica, “BOOM!”, uma foto “depois”, absolutamente diferente do homem real, surgiu. Se você não acredita procure o artigo no Huffington Post[2] e verá o “milagre” acontecendo.

No mesmo artigo, Andrew explica que levou apenas uma hora para produzir uma série de fotos que ilustrava uma suposta progressão, de peso e massa corporal, que seria alcançada após algumas semanas. Tudo isso para vender a ilusão de que se pode chegar ao corpo perfeito sem muito esforço e em pouco tempo. O objetivo do artigo, porém, não é desestimular as pessoas a fazerem exercícios físicos ou alimentarem-se de maneira mais saudável. Muito pelo contrário. O propósito é demonstrar que um corpo sadio requer determinação e um tempo considerável para conquistá-lo. Não há nenhum milagre envolvido. Assim, ele avisa que as pessoas devem aprender a não criar falsas expectativas sobre qualquer assunto que envolva seus corpos e, principalmente, suas mentes. Espelhar-se em modelos vendidos pela mídia é o caminho mais curto para a decepção e, em casos mais graves, para a doença.

Na Europa já se está tomando consciência de que uma mulher bonita não é necessariamente magra. Organizações preocupadas com o bem estar da mulher estão obrigando os grandes ateliês de costura a desestimular as aspirantes a modelos a se envolverem em dietas absurdas que as transformam em esqueletos ambulantes. Do mesmo modo, os homens. Músculos definidos ou muito desenvolvidos não significam corpos saudáveis, pois podem estar cheios de esteroides, produtos extremamente prejudiciais a saúde.

Não me entendam mal. Não estou defendendo o abandono dos cuidados com o corpo ou afirmando, como disse a escritora francesa Julie Lespinasse (1732-1776), que a mulher que se preocupa com a beleza “anuncia ela própria que não tem outro maior mérito”. Nada disso. Acredito que devemos, sim, nos tratar bem, física e emocionalmente. Se para isso precisamos frequentar o salão de beleza toda a semana, devemos ir sem culpa, extraindo do momento prazer e alegria.

Os alertas, não só de Andrew Dixon, mas de todos os profissionais da saúde, são contra os exageros. Sendo que o mais perigoso é o excesso de baixa autoestima. É ele que nos levará a acreditar nos anúncios enganosos e nas falsas promessas que eles apregoam. Se você se sente gorda(o) e quer emagrecer saiba que isso vai exigir sacrifícios de todo o tipo, desde recusar a sua sobremesa preferida, até ter de realizar exercícios exaustivos. Nada vai vir fácil para você. Nada.

Sei que parece clichê, mas é preciso sempre lembrar que a beleza externa – apesar de todos os avanços na cirurgia plástica – é efêmera, enquanto a interna, reduto da alma, é eterna. E mesmo que Vinicius de Morais em seu poema “Receita de Mulher” continue cantando que a mulher “Seja bela ou tenha pelo menos um rosto que lembre um templo”, eu prefiro pensar como Voltaire, “Para o sapo o ideal de beleza é a sapa”.

[1] A Eterna Maldição – http://www.partes.com.br/2013/07/02/a-eterna-maldicao-2/

[2] http://www.huffingtonpost.com/andrew-dixon/weight-loss-secrets_b_3643898.html

 

HÜLSENDEGER, Margarete Jesusa Varela Centeno . QUANDO A BELEZA É FORJADA. REVISTA VIRTUAL PARTES, SÃO PAULO, , v. 9, p. 4 – 5, 02 set. 2013.

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