Universo feito de papel

uNIVERSO FEITO DE PAPEL

Margarete Hülsendeger

Uma história, um romance, um conto – essas coisas assemelham-se a seres vivos, e talvez o sejam de fato. Elas têm sua cabeça, suas pernas, sua circulação sanguínea e sua roupa, como pessoas de verdade.

Erich Kästner

E se os personagens dos livros pudessem falar? E se eles pudessem dar ao seu criador o mesmo tratamento que receberam dele? Já imaginaram a loucura? Muita gente, com certeza, estaria em apuros.

De qualquer maneira, essa situação um tanto quando surreal – e porque não dizer, apavorante! – já foi tema de alguns livros. Ou seja, escritores se colocaram no lugar de seus personagens experimentando – ou tentando experimentar – a sensação de ser manipulado e controlado por um ente entranho, uma espécie de deus onipotente, que faz e desfaz com a vida dos outros sem nenhum tipo de arrependimento. Como leitora, tive a oportunidade de conhecer dois desses “experimentos literários”: a trilogia “Coração de Tinta” da alemã Cornelia Funke e “Viagens no Scriptorium” do norte-americano Paul Auster.

Surpreendentemente, os livros de Cornelia Funke encontram-se classificados na categoria infanto-juvenil. Expresso a minha surpresa porque uma análise mais profunda dos livros mostra que os temas ali tratados são sobre questões não só complexas, mas também polêmicas da literatura: a intenção do autor e o papel do leitor na construção do texto.

A autora cria toda uma fantasia em torno da ideia de que certos leitores, chamados “Línguas Encantadas”, teriam a capacidade de, ao ler em voz alta, dar vida aos personagens dos livros. E quando digo “vida” estou falando literalmente, ou seja, eles seriam arrancados das páginas do livro e trazidos para o mundo “real”.

Coloco entre parênteses a palavra “real” porque, conforme a leitura evolui, a autora também questiona o significado de realidade: ela seria a do mundo com o qual nos acostumamos a interagir ou aquela que encontramos dentro dos livros? Qual delas é a ilusória? Qual delas é a real? Perguntas que, sem a menor dúvida, já renderam (e ainda rendem) muitas dissertações, artigos e ensaios, não só no campo da literatura, mas da filosofia e até da ciência.

A autora de “Coração de Tinta” – brilhantemente, em minha opinião – traz para o debate de maneira lúdica (acho que por isso a classificação do livro em infanto-juvenil) algo que, há algum tempo, vem ocupando a mente de muitos teóricos e críticos literários: a intenção do autor quando cria suas histórias e a capacidade do leitor de trazer novos significados ao texto. No entanto, discussões acadêmicas à parte, quem sai ganhando é o leitor, pois no processo de construção da trama nos é proporcionado um passeio maravilhoso pelos caminhos da criação literária e do prazer que a experiência da leitura, mesmo com suas naturais ambiguidades, pode nos oferecer. Portanto, não se deixe enganar, “Coração de Tinta” não tem nada de infanto-juvenil. É preciso ter maturidade para encarar a sua leitura e, como sabemos, essa qualidade, muitas vezes, independe da idade.

Depois de “Coração de Tinta” passemos a “Viagens no Scriptorium”.

Primeira diferença: é um livro curto (124 páginas). Pode parecer preconceito, mas sempre desconfiei de livros curtos. Eles me passam a impressão de que o autor não tem muito a dizer. Bobagem, eu sei!

Segunda diferença: não existe aventura envolvida, pelo menos no sentido tradicional, ou seja, grandes momentos de ação e suspense que levam o leitor a prender a respiração e a esperar pelo melhor. No entanto, preciso reconhecer: à sua maneira, é um livro instigante.

O tema é praticamente o mesmo de “Coração de Tinta”, a relação de amor e ódio que pode se estabelecer entre o autor (e a sua obra) e os leitores. A abordagem, porém, é diferente, sem uma fantasia explícita, a não ser aquela que o leitor possa vir a imaginar e a ação está restrita ao que acontece diretamente ao personagem principal, em um ambiente perfeitamente delimitado no espaço e no tempo.

No início, Auster deixa bem claro que algo de muito estranho está acontecendo. Essa estranheza é percebida quando o narrador declara: “Vamos, por isso, deixar de lado o epíteto velho e chamar a pessoa que está no quarto de Blanck. Por enquanto, não há necessidade de um primeiro nome”. E já aviso: essa “necessidade” não se fará presente em nenhum momento da narrativa.

O autor apresenta seu personagem principal na forma de um velho desmemoriado, daí o nome Blanck – traduzido do inglês como vazio – sentado em uma cama, dentro de um quarto, com todos os objetos à sua volta com etiquetas indicando os seus respectivos nomes e sendo vigiado nas 24 horas do dia. Agora faça o que implicitamente o autor sugere: coloque-se no lugar de Blanck e tente se imaginar nessa situação. Preso em um quarto, sem saber quem é, como foi parar ali e o que fez para merecer semelhante castigo. É impossível ignorar a estranheza da situação. Auster, porém, consegue tornar tudo ainda mais estranho.

Blanck, além de receber visitas de pessoas que ele mal reconhece, encontra sobre uma escrivaninha uma pilha de fotos de mais pessoas desconhecidas e um manuscrito inacabado. Nenhum dos visitantes responde claramente as suas perguntas, impedindo-o de saber o que aconteceu com ele. Porém, apesar de sua total falta de memória, um sentimento parece nunca abandoná-lo, atormentando-o e sendo, quem sabe, o responsável pelo seu atual estado mental. Blanck sente culpa, muita culpa. Só não saber dizer do quê.

E há, é claro, não podemos esquecer, o manuscrito. Nele o leitor, incluí-se aí Blanck, vai se deparar com outra história: o relato autobiográfico de um homem, uma espécie de agente secreto, que é enviado para uma terra estranha com o objetivo de investigar uma ameaça de insurreição. Nessa história dentro da história poderemos encontrar algum tipo de ação, mas de forma bem moderada. Tudo é narrado numa voz monocórdia, sem muita emoção. E é essa história que se encontra, misteriosamente, na escrivaninha do quarto de Blanck a pista “mais quente” sobre a atual situação do personagem.

Em determinado momento, um pouco além da metade do livro, um suposto médico (nesse livro tudo, na verdade, são apenas suposições) instiga Blanck a concluir a história narrada no manuscrito. A intenção, segundo o médico, é realizar um “exercício de raciocínio criativo” com a finalidade de ajudá-lo a recuperar a memória. A proposta inicialmente não é muito bem recebida por Blanck, que chega a perguntar: “E desde quando a imaginação tem alguma coisa a ver com raciocínio?”.

A pergunta não tem da parte do médico uma resposta clara, no entanto, ela traz à tona outra questão importante: do que é feita a literatura?

Não vou nem tentar responder, porque se os especialistas, estudiosos da literatura e de suas especificidades, ainda não chegaram a um acordo, não serei eu a dar qualquer tipo de opinião a respeito.

De qualquer maneira, entre essas duas histórias, a “real” e a “imaginária” (reparem nos novos parênteses!), o autor estabelece um diálogo entre dois textos que nada mais são do que duas faces da mesma moeda. Quem seria, então, Blanck? Personagem-autor? Personagem-leitor? Ou, simplesmente, um personagem sem qualquer tipo de intenção “maléfica”? Auster, é obvio, não responde a nenhuma dessas questões.

O fato é que Blanck, dentro daquele quarto fechado, recria um universo também repleto de personagens, de cenas vívidas e experiências angustiantes. Nessa construção textual há uma clara referência ao que Roland Barthes – escritor, filósofo e crítico francês – chamou de “ilusão referencial”. Ou seja, não há a necessidade de se estar em contato efetivamente com o mundo real, pois segundo Barthes, “O livro é um mundo”. Tudo pode, portanto, acontecer dentro do imaginário do escritor.

Infelizmente, na minha opinião, o final de “Viagens no Scriptorium” não está à altura da proposta do livro. Parece que autor, de repente, ficou sem saber como terminar, concluindo a história de forma abrupta e deixando para o leitor toda a responsabilidade de colocar os pingos nos “is” e atar os últimos nós. Talvez seja algum tipo de estratégia para instigar uma nova leitura (aliás eu fiz isso!) e, portanto, uma nova interpretação. Não sei, mas se a questão se centrar na opção “gosto ou não gosto”, reconheço que eu não gostei.

Enfim, “Coração de Tinta” e “Viagens no Scriptorium” convergem para o mesmo ponto: a importância do leitor nessa experiência única chamada leitura. Os dois livros, ao contrário do que algumas escolas literárias já defenderam não bane ou exclui o leitor do texto. Ao contrário. Ele é um dos protagonistas, aquele que faz a narrativa evoluir decidindo, pelo menos metaforicamente, o destino, não só dos personagens, mas também do autor. Afinal, como dizia Proust, “Na realidade, cada leitor é, quando lê, o próprio leitor de si mesmo”.

 

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