A importância da alfabetização de crianças com Síndrome de Down: a inclusão para o ensino regular

Myryan Sylvia Sousa de Almeida1

 

Resumo

Esse artigo é uma revisão bibliográfica de relevantes investigações por meio de vários pressupostos teóricos. O objetivo é salientar a importância da alfabetização para a inclusão das crianças com Síndrome de Down, no Ensino Regular, e se a escola vem se adequando ou não a esse novo paradigma da inclusão. Desse modo, o estudo procurou observar o desenvolvimento cognitivo das mesmas, bem como o processo de ensino e aprendizagem estabelecido pela práxis pedagógica do professor e sua interação com a comunidade escolar e, principalmente com as crianças especiais. A pesquisa possuiu um caráter qualitativo, ressaltando questões metodológicas relevantes para a alfabetização das crianças especiais.

Palavras-chave: Alfabetização, Crianças com Síndrome de Down, Inclusão, Ensino Regular.

INTRODUÇÃO

O Brasil vem enfrentando uma série de desafios na área da Educação, dentre os quais os índices não desprezáveis de repetência e evasão escolar; a precária formação de uma parcela dos professores; as inadequadas condições físicas e materiais das escolas e a qualidade do ensino diante do que se considera desejável.

Assim, as escolas não têm dado conta das condições necessárias às mudanças propostas por uma educação aberta às diferenças, pois não são preparadas para atender a diversidade em decorrência de possuir uma estrutura rígida e seletiva no que diz respeito à aceitação e à permanência de alunos que não correspondem às suas expectativas acadêmicas, clássicas e conteudistas. Diante desse quadro, há que se atentar, cada vez mais, para que direitos, historicamente conquistados, sejam assegurados e possam proporcionar condições propícias à integração escolar e social de todos os alunos, bem como aos alunos com necessidades educativas especiais.

1 – INCLUSÃO DAS CRIANÇAS COM SÍNDROME DE DOWN NO ENSINO REGULAR

A Educação Especial atualmente é Lei e foi um direito adquirido ao longo de processos de lutas pela conquista dos direitos humanos. No Brasil, teve seu início no século XIX, quando alguns brasileiros começaram a organizar serviços que atendessem deficientes mentais, deficientes físicos, surdos e cegos. Essas providências, porém, caracterizaram-se como iniciativas oficiais e particulares isolados, as quais refletiam o desejo de alguns educadores por este tipo de assistência, voltada a pessoas com algum tipo de deficiência (MAZZOTA, 2001).

A atual Lei de Diretrizes e Bases da Educação Nacional – LDB, nº 9.394/96 em seu capítulo V aponta que a Educação Especial deve ser ofertada, preferencialmente, na rede regular de ensino, com o atendimento educacional especializado aos portadores de deficiências2.

A Educação Especial está direcionada para o atendimento de alunos com necessidades educacionais especiais, frequentemente denominados deficientes. De um modo geral, “deficiente” é um termo amplo que abrange vários tipos de indivíduos, com diferentes deficiências, incluindo a síndrome de Down. Segundo RAIÇA (1990) a educação dessas pessoas é especial porque se diferencia metodologicamente da comum, haja vista que seu processo de ensino e aprendizagem difere por apresentar características peculiares no tocante a uma proposta de educação destinada à criança com síndrome de Down.

2 – CONTRIBUIÇÃO DA ALFABETIZAÇÃO PARA AS CRIANÇAS COM SÍNDROME DE DOWN

A alfabetização é considerada como o aprendizado do alfabeto e sua representação de grafemas e fonemas. É também vista como um processo de compreensão de significados e sua utilização como um código de comunicação. De certo modo, a alfabetização é definida como o processo que o indivíduo aprende à gramática e suas variações. Porém, esse processo não é apenas uma aquisição de habilidades mecânicas como a codificação e decodificação do ato de ler, mas sim no desenvolvimento da capacidade de interpretar, compreender e ressignificar o conhecimento. Com isso, essa capacidade só será efetivamente concretizada se os alunos tiverem acesso a todos os tipos de textos.

O educando precisa encontrar sentido em sua leitura, ou seja, descobrir o uso social da leitura e escrita. A alfabetização proporciona o desenvolvimento de novas formas de compreender o uso da linguagem e através desta linguagem promove sua socialização, já que possibilita trocas de conhecimento com outros indivíduos. Vale ressaltar que a alfabetização é primordial no exercício da cidadania e do desenvolvimento da sociedade.

Assim, é notório considerar a concepção de Paulo Freire no tocante à alfabetização, pois suas obras enfatizam como objetivo principal entender que a leitura de mundo antecede e acompanha a leitura da palavra, explicando que só haverá sentido em ler e escrever se esse conhecimento proporcionar uma compreensão maior da sociedade e das estratégias para melhorar esse ambiente que está inserido. […] não podemos deixar de lado, desprezado como algo imprestável, o que educandos, sejam crianças chegando à escola ou jovens e adultos a centros de educação popular, trazem consigo de compreensão do mundo, nas mais variadas dimensões de sua prática na prática social de que fazem parte. Sua fala, sua forma de contar, de calcular, seus saberes em torno do chamado outro mundo, sua religiosidade, seus saberes em torno da saúde, do corpo, da sexualidade, da vida, da morte, da força dos santos, dos conjuros (FREIRE, 1992, p. 85-86).

Segundo MILLS APUD SCHWARTZMAN (1999) a educação das crianças com síndrome de Down é uma atividade complexa, visto que requisita adaptações de ordem curricular que demanda acompanhamento minucioso dos educadores, pais ou responsáveis.

A metodologia de ensino para as crianças especiais tem que acontecer de maneira organizada e sistemática, seguindo um plano de ensino com passos estabelecidos antecipadamente. O ensino não pode ser enfadonho e apenas teórico, mas sim suceder de maneira satisfatória que provoque o interesse no educando.

Frequentemente, o lúdico fascina a criança e pode ser um recurso utilizado na educação, pois propicia o desenvolvimento da criança por meio da estimulação nas diferentes áreas do conhecimento.

Logo, para implementar essa proposta curricular é necessário que os recursos estejam disponíveis e o educador tenha conhecimento sobre as metodologias utilizadas na educação especial visando a eficiência do trabalho. E, também incluir o Down na comunidade e desenvolver sua aceitação social para a absorção no mercado de trabalho.

CONSIDERAÇÕES FINAIS

A aprendizagem resulta de uma integração complexa dos processos neurológicos e da consonância evolutiva de funções especificas como linguagem, esquema corporal, percepção, lateralidade e orientação têmporo-espacial.

Dessa maneira, o processo de alfabetização da pessoa com Síndrome de Down é o efeito de um amadurecimento físico, psíquico e motor. Assim, as atividades são elaboradas a partir dos programas de Estimulação Precoce, Alfabetização, Iniciação Profissional e Apoio Pedagógico.

As atividades de estimulação precoce precisam iniciar desde o nascimento com a participação ativa da família, pois essa participação é fundamental para seu desenvolvimento integral. O indivíduo com Síndrome de Down perpassa pelas etapas consideradas normais no desenvolvimento cognitivo, sensório-motor, operações concretas e operações formais.

O ritmo de aprendizagem existente na síndrome varia nas pessoas Down alterando o processamento de informação, a atenção, motivação, a memória visual e auditiva. De certo, durante o processo ensino-aprendizagem, o educador pode utilizar materiais que inclua objetos concretos e situações do cotidiano antes de iniciar conteúdos novos e conceitos abstratos, utilizando metodologias que integre as informações.

E nesse contexto é relevante considerar que o desenvolvimento do ser humano é contínuo, ocorre durante toda sua existência. Esse desenvolvimento deve ter como procedimento a integração com outras pessoas. Vale ressaltar que alguns teóricos enfatizam o processo de desenvolvimento da criança como gradual e contínuo, e outros, acreditam que o processo ocorre em etapas, com súbitas mudanças.

Porém, os teóricos admitem que o desenvolvimento seja um processo integrado que contempla todos os aspectos da vida humana. O educando que mostrar comprometimento em alguma das áreas de desenvolvimento apresentará dificuldades no aprendizado. Com isso, necessitará de atendimento educacional adequado, com o objetivo de garantir seu atendimento integral.

A proposta da educação inclusiva propõe a necessidade de todas as crianças serem educadas juntas, independente de suas diferenças e limitações. Portanto, a educação inclusiva requer um redimensionamento das práticas escolares, para que deem garantia de acesso e permanência a todos os seus alunos. Uma educação que entenda e valorize a diversidade. As mudanças implicadas no processo dizem respeito às adaptações curriculares, que permitem o acesso ao currículo; a formação docente adequada, para aceitar e trabalhar com as diferenças, e as redes de apoio, componente organizacional que facilita a inclusão.

Desse modo, acredita-se que é preciso que a escola se renove, repensando suas práticas, fazendo rupturas, com o objetivo de percorrer caminhos concretos para a construção da educação para todos. Para isso é imperioso atentar para os principais aspectos escolares que contribuem para o surgimento de uma escola renovada: a organização escolar fundamentada em um planejamento coletivo, envolvendo todos os sujeitos da comunidade escolar, no qual possam estar claros os reais objetivos da escola com relação aos seus alunos; criação de mecanismos e adaptações que contemplem as necessidades especiais de todos os alunos, garantindo-lhes, com eficiência, acesso e permanência na escola; busca de um desenvolvimento profissional que trabalhe essa diferença e dê apoio eficiente para a colaboração do processo escolar.

REFERÊNCIAS

MAZZOTA, Marcos J. S., Educação Especial no Brasil: Histórias e Políticas Públicas. 3ª ed., São Paulo: Cortez, 2001.

BRASIL. Lei de Diretrizes e Bases da Educação Nacional. Brasília: MEC, 1996.

______. Lei de Diretrizes e Bases da Educação Nacional, nº 4.024/61. Brasília: MEC, 1961.

______. Estatuto da Criança e do Adolescente no Brasil. Brasília: MEC, 1990.

FREIRE, Paulo. A educação como prática da liberdade. 8. ed. São Paulo: Paz e Terra, 1978.

______. Pedagogia da esperança: um reencontro com a pedagogia do oprimido. 2. ed. São Paulo: Paz e Terra, 1992.

MILLS APUD SCHWARTZMAN (1999)

RAIÇA (1990)

1.Myryan Sylvia Sousa de Almeida tem licenciatura em Pedagogia pela Universidade Federal do Amapá. Especialista em Psicopedagogia Clínica e Institucional. Especialista em Educação Especial e Inclusiva pelo Centro Universitário – UNINTER. Técnica em Assuntos Educacionais da Universidade Federal do Amapá. Contatos: sylvia-almeida@hotmail.com

2 Anteriormente, usava-se o termo portadores de deficiência, atualmente diz pessoas com necessidades educativas especiais.

 

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