Puruborá: indígenas ressurgidos e a construção da identidade

Anatália Daiane de Oliveira[*]

Claudineia Gomes Brito[†]

José Joaci Barboza[‡]

 

 

RESUMO: Este artigo objetiva problematizar o processo de mistura ocorrido com os Puruborá, pois como afirma Barboza (2012, p.12) “pensar a mistura entre os Puruborá é pensar a própria existência dos mesmos”. Também problematiza e discuti acerca das representações ligada às grupos indígenas “ressurgidos”. A metodologia adotada foi a revisão bibliográfica e a adoção da pesquisa qualitativa no âmbito da História Oral (MEIHY, 2000). Como o projeto está em fase de desenvolvimento, não temos um resultado final a apresentar. Porém, fazemos algumas reflexões acerca da imperiosidade da mistura para a sobrevivência de vários povos indígenas. 

Palavras-chave: Puruborá. Índios “ressurgidos”. História Oral. Identidade.

 

RESUMEN: Este artículo tiene como objetivo analizar el proceso de mezcla se produjo con Puruborá porque como dijo Barboza (2012, p.12) “creo que la mezcla entre Puruborá pensar es la propia existencia de la misma.” También desafía y discutir acerca de las representaciones unidos a los grupos indígenas “resucitados”. La metodología utilizada fue la revisión de la literatura y de la adopción de la investigación cualitativa en la Historia Oral (MEIHY, 2000). A medida que el proyecto se encuentra en fase de desarrollo, que no tenemos que presentar un resultado final. Sin embargo, le hacemos algunas reflexiones sobre la imperiosidad de la mezcla para la supervivencia de muchos pueblos indígenas. 

Palabras clave: Puruborá. Indios “resucitados”. Historia Oral. Identidad.

 

Introdução 

O presente artigo busca refletir acerca dos grupos indígenas “ressurgidos”, particularmente o povo Puruborá, adicionando-se a um total de onze trabalhos, sendo sete resumos e quatro artigos completos apresentados em eventos regionais, nacionais e internacionais sobre variados temas, como a questão de gênero, percepção de território para o povo Puruborá e a relação dos indígenas com seus idosos. Estes trabalhos foram produzidos por diversas/os integrantes do Grupo de Pesquisa de Educação na Amazônia (GPEA), da Linha de Pesquisa “História e Memória dos Povos Indígenas em Rondônia: O caso dos Puruborá”, dentro do Projeto de Extensão Universitária “Resgatando a memória e a história do Povo Puruborá”, PROEXT, PIBIC/2011/2012, e PIBIC 2012/2013.

O povo Puruborá é um grupo indígena ressurgido na década de dois mil no estado de Rondônia, que anteriormente fora considerado extinto pela Fundação Nacional do Índio (FUNAI). Os índios deste povo foram estigmatizados como índios “mestiços” e em conseqüência disso tornaram-se vítimas de um doloroso processo de exclusão e de negação de sua identidade, sendo inclusive expulsos do seu território. No entanto, mesmo após um passado tão inglório, o grupo subsiste e atualmente mesmo diante de muitos obstáculos, encontra-se na luta pela demarcação do seu território[§], pois esta questão está estreitamente ligada ao resgate e revitalização de sua cultura e de sua identidade de grupo indígena.

As pesquisas realizadas acerca dos Puruborá são poucas, temos conhecimento de duas pesquisas: uma que já foi finalizada, da pesquisadora Ana Vilacy Galúcio[**], que apresenta contribuições acerca do sistema fonológico da língua materna deste grupo, bem como, informações etnográficas do mesmo; e as iniciativas do Conselho Indigenista Missionário de Rondônia (CIMI-RO), ligado à igreja Católica e do Conselho de Missão entre os Índios (COMIN), ligado à igreja Luterana, e, também, os projetos coordenados pelo professor Ms. José Joaci Barboza.

O presente artigo é resultado de uma pesquisa qualitativa, utilizando-se da revisão bibliográfica acerca do tema, bem como, do método da História Oral (MEIHY, 2000). No entanto, como o projeto ainda está em fase de desenvolvimento não temos um resultado final a ser apresentado, contudo através das entrevistas e estudos já realizados podemos afirmar que para os povos indígenas no geral e em específico para o povo Puruborá o processo de mistura foi algo inevitável, tendo em vista que foram expulsos de suas terras e se viram obrigados a se integrarem às comunidades não indígenas e aos modos de vida delas e este processo somado ao de “ressurgência” está estreitamente relacionado à construção da identidade deste grupo.

Objetivando proporcionar ao leitor uma melhor compreensão acerca do trabalho, o presente foi estruturado em três tópicos. O primeiro tópico aborda acerca da história brasileira que é uma história de invisibilidade dos povos indígenas, o segundo busca refletir acerca dos índios “ressurgidos” e a luta dos mesmos pelo reconhecimento da identidade e o último tópico apresenta algumas considerações que não são finais.

 

1. A história brasileira: a invisibilidade dos povos indígenas 

Em 22 de abril do ano 2000 completou 500 anos da “descoberta do Brasil”. A história brasileira é feita e vista pelo viés do dominador. No entanto, muitos autores, entre eles Ribeiro (1995) e Amorim (2003) buscam ir de encontro com esta história dominante. Ribeiro (1995) relata o desafio que é produzir a história brasileira pelo viés do dominado:

 

[...] Parece impossível, reconheço. Impossível porque só temos o testemunho de um dos protagonistas, o invasor. Ele é quem nos fala de suas façanhas. É ele, também, quem relata o que sucedeu aos índios e aos negros, raramente lhes dando a palavra de registro de suas próprias falas. O que a documentação copiosíssima nos conta é a versão do dominador. Lendo-a criticamente, é que me esforçarei para alcançar a necessária compreensão dessa desventurada aventura. (p. 30)

 

Amorim (2003) contribui para a ruptura dessa lógica, ou seja, que a história brasileira seja vista pelo viés do dominado, que por muito tempo não teve voz, já que sempre permaneceu e ainda permanece como história verdadeira aquela feita e vista pelo viés do dominador. O mesmo relata que, para os povos indígenas a invasão ocorrida pelos portugueses a mais de 500 anos atrás trouxe consigo “[...] uma drástica diminuição dos povos existentes anteriormente a 1500, além da dispersão, miscigenação e perdas identitárias e construções de outras, como a língua, prática de rituais, usos e costumes, práticas medicinais, educação continuada” (p. 24).

Quando nos remetemos à história das populações pré-colombianas no Brasil é possível perceber um antagonismo entre as práticas dos missionários, colonos e o estado português e uma diversidade de concepções em relação ao papel do índio na história brasileira. Observa-se que o objetivo dos missionários era a propagação da fé cristã e a defesa dos interesses das ordens religiosas que os mesmos representavam, já para os colonos este objetivo era a possibilidade de suprir a carência de mão-de-obra, enquanto o estado português objetivava transformá-los em cidadãos ativos na tarefa de povoamento por meio de sua integração na comunidade. (PORTELA, 2006)

Vivemos em uma sociedade que a concepção de homem indígena ainda se mantém baseado nas antigas concepções: o índio é selvagem, cruel, brutal, feroz, bárbaro, atrasado e preguiçoso. Ou seja, ainda persiste uma visão simplificadora e estereotipada do indígena. Segundo Portela (2006, p. 108): “Essa designação do índio como selvagem, está presente tanto nos relatos dos representantes do governo, quanto nos dos missionários e moradores das vilas”.

Existe ainda a perspectiva que busca naturalizar a violência aos índios. Neste sentido, o índio é tido como um ser qualquer, que não tem direito a vida. Assim, vale lembrar da Terceira carta de Paulo Freire[††] que relata a barbárie que aconteceu em Brasília, onde cinco adolescente no dia 20 de abril de 1997, um dia depois da comemoração do dia do índio, mataram o índio pataxó Galdino Jesus dos Santos, que dormia numa estação de ônibus. 

[...] Disseram à polícia que estavam brincando. Que coisa estranha. Brincando de matar. Tocaram fogo no corpo do índio como quem queima uma inutilidade. Um trapo imprestável. Para sua crueldade e seu gosto da morte, o índio não era um tu ou um ele. Era aquilo, aquela coisa ali. Uma espécie de sombra inferior no mundo. Inferior e incômoda, incômoda e ofensiva. (FREIRE, 2000, p. 65)

 

Arraigado a essa concepção de homem indígena, existe ainda resquícios da “tese de extinção” dos povos indígenas, que permaneceu entre os séculos XIX e XX, e que sofre influência da teoria norte-americana de aculturação (PORTELA, 2006). Sendo assim, ainda permanece nos dias atuais o conceito de “puritanismo” indígena. Conceito este impossível de se conceber desde a chegada dos portugueses no Brasil, já que como cita Amorim (2003, p. 25) uma estratégia de sobrevivência dos povos indígenas foi a miscigenação, e ainda nos dias atuais não poderia deixar de ser, já que “é a única via de continuidade e representatividade ancestral”.

Cabe ainda ressaltar que para este autor (2003, p. 26) o processo de miscigenação, “orgulho” nacional, “para os grupos indígenas ressurgidos é um “drama”, pois isso implica em serem reconhecidos como índios somente por seus semelhantes ou em eventos públicos (durante o processo de ressurgência) ou organizacionais”.

De acordo com Albuquerque (2012) a nossa sociedade ainda concebe o “índio” que fala a Língua Portuguesa como “índio aculturado”, o que parece até sarcástico, uma vez que desde a chegada dos portugueses no Brasil, a Língua Portuguesa tornara-se língua obrigatória, e inclusive os “índios” que “teimavam” em continuar falando a língua materna eram castigados.

 Neste sentido, segundo este autor (2012) é muito trabalhoso aos indígenas provar e ter reconhecida, pública e oficialmente, a sua identidade. Cabe ressaltar que a imagem do ser humano sobre o outro não é nato, é fruto das relações deste ser com outros e com o meio em que se encontra.

De acordo com Albuquerque (2012) durante o processo de elaboração da Constituição Federal Brasileira de 1988 os “índios” obtiveram muitos parceiros, bem como, muitos inimigos declarados e não declarados, sendo que a FUNAI, de acordo com os povos indígenas foi considera como inimiga. Vale ressaltar que no caso dos Puruborá, a FUNAI que era o órgão público que deveria protegê-los e assegurar a integridade do seu território, foi quem negou a identidade dos mesmos e os expulsou de suas terras contribuindo assim, para a “diáspora” do grupo.

Entre os inimigos da causa indígena também se encontra a mídia, uma vez que raramente é usada de forma positiva. Se fosse utilizada de forma positiva, ela teria muito a contribuir, uma vez que milhões de brasileiros buscam informações exclusivamente nela. Mas não é isto que acontece. De forma geral a mídia constitui-se o pior inimigo e como “detentora da verdade”. Neste sentido, Amorim (2003, p. 22) relata que os meios de comunicação propagam e o sistema educacional divulga a imagem do “índio” de forma marcada, estereotipada, “[...] persistindo a descrição dos primeiros cronistas coloniais, políticos, viajantes, artistas e cientistas naturais, que vêem ‘o índio’ e não os índios em sua diversidade e particularidades históricas, culturais, étnicas”.

Albuquerque (2012) traça uma crítica acerca de uma mensagem publicitária de 60 segundos produzida pela FUNAI em abril de 1988 e reproduzida no filme Yndio do Brasil e no Programa de Índio da Rádio USP em maio do mesmo ano, com o intuito de homenagear o índio pelo seu dia. Segundo este autor na mensagem a FUNAI apresenta o “índio” como preservador da natureza e afirma ser necessário falar dos “índios”, cuidar da liberdade dos mesmos, preservar suas terras, sua cultura e também ouvi-los. Visão típica da ciência do século XX, que pensa o homem a partir da ideia de natureza humana (BOCK, 2000)[‡‡]. Contudo a própria FUNAI estava longe de cumprir o que propagava uma vez que estava aliada a governos anti-indigenistas e dificulta(va) o reconhecimento étnico de muitos povos, assim como a demarcação de suas terras.

Assim como Albuquerque, Portela (2006, p. 116) também critica o uso da mídia em alguns momentos, pois ela contribui para reforçar a visão estereotipada do “índio”. A autora relata um trecho do Jornal O Popular de abril 1982, que aborda este lado negativo da mídia:

 

Hoje, vestidos como brancos, comendo como brancos e agindo como brancos, os últimos índios da extinta aldeia Karajá de Aruanã não passam de atrações turísticas. As pessoas os procuram, em épocas de temporada, para servirem de guias nas caçadas, pescarias e passeios nas praias mais distantes [...]. Resistirão, embora por pouco tempo, à cobiça de pessoas que querem a todo custo comprar o pouco de terra que lhes resta. Resistirão ao extermínio enquanto estiverem conseguindo o cigarro Continental, a cachaça, o macarrão Madremassas e os ensinamentos nem sempre corretos que a civilização branca lhes transmite [...] Hoje não é mais Dia de Índio.

 

Enfim, segundo Portela (2006) de forma geral os estudos acerca do “índio” privilegiam aspectos negativos, ao abordar acerca da dizimação física e cultural que os povos indígenas foram submetidos, ao conceber os indígenas como parte constitutiva da formação social do Brasil situando a importância dos indígenas no passado, sendo o presente de pouca relevância, já que não são “verdadeiros” indígenas.

 

2. Índios ressurgidos: a luta pelo reconhecimento da identidade

 

Até o presente momento foi possível perceber que a invisibilidade dos grupos indígenas se faz presente na sociedade brasileira. Além disto, existem vários grupos indígenas e cada um deles é singular, o que também não é respeitado por ela. Neste sentido, Amorim (2003, p. 31) relata que a sociedade não reconhece a diversidade étnica dos povos indígenas, bem como, a multiplicidade cultural, que foi construída individualmente com base histórica de 500 anos de enfrentamentos e resistências a essa sociedade. Ao contrário, ela “ao deparar-se com a realidade étnica no Brasil, noutros paralelos, se violenta frente a tais realidades multifacetadas e a tendência, geralmente, e a mutilação dessa diversidade ou, em outras palavras, a sua negação”.

É por este e outros motivos, que na maioria das vezes, os “índios” passam vários meses e até anos para se “apresentarem” como “índios” a esta sociedade, “ressurgirem”. Neste sentido, “ressurgir” é dar-se conhecer publicamente. É após o “ressurgir” que os grupos indígenas iniciam o processo de dar visibilidade à sua busca identitária no processo de ressurgência e constituição de sua (auto)imagem, baseada na construção de uma nova etnia, necessitando de apoio para continuar a existir e manter a prática do resgate do processo de ressurgência e afirmação étnica. (AMORIM, 2003)

Para ele (2003) o ponto mais importante após o “ressurgir” é:

 

[...] dar continuidade as relações interétnicas estabelecidas e manter diferentes vínculos com seus semelhantes, com a sociedade local, com o movimento indígena, além de interagir com o mundo político (as demandas de terra para trabalhar, saúde e educação diferenciada – principais bandeiras de luta dos povos indígenas atuais) e seu universo social, que se multiplica de forma “inesperada” e geralmente conflituosa. (p. 27)

 

É a partir deste “ressurgir” que começa a construção de uma auto imagem e a desconstrução da outra construída historicamente. Sendo assim, o termo “ressurgido” é uma imagem-conceito em relação aos povos indígenas, que possuem infinitas outras, sendo que além de “índios” ressurgidos, encontram-se “índios” isolados e contatados. (AMORIM, 2003)

A pesquisa realizada por este autor (2003, p. 23) foi acerca dos povos Tumbalalá, Kalankó, Karuazu, Catókinn e Koiupanká, que são grupos indígenas ressurgidos que buscam “construir sua identidade indígena, contrapondo-se aos padrões de reconhecimento étnico do indigenismo oficial, como a exigência de tradições e tragos físicos particulares”. Ou seja, os grupos indígenas “ressurgidos” possuem características em comum, ou seja, a busca identitária e reafirmação de uma auto imagem.

O mesmo acontece com os Puruborá, que vem reforçando suas lutas pela recuperação de seus territórios e isso acontece porque esta conquista contribuirá na afirmação de sua identidade indígena, reconstrução cultural deste grupo, pois de posse de seu território será possível recuperar a prática de suas atividades de sobrevivência e rituais ancestrais.

Albuquerque (2012) analisa a dupla reivindicação na década de 1980 dos “índios ressurgidos”, ou seja, a exigência do direito aos territórios tradicionais e a construção de sua identidade diante de uma sociedade que se diz favorável às lutas populares, mas que mostra resistente à possibilidade de conquista dos direitos reivindicados. 

De acordo com este autor (2012) antes da década de 1980 persistia o silêncio imposto pela ditadura militar, mas posterior a esta década é possível perceber a organização e mobilização dos “índios” em busca de assegurar os direitos da nova Constituição Federal. Este autor ainda postula a importância do reconhecimento e da legitimidade social em relação às suas culturas, territórios e modos de viver para efetivação destes direitos.

Assim, é possível perceber como característica comum entre os “ressurgidos” a luta em dar visibilidade à sua busca identitária e a construção de sua imagem. Neste sentido, antes de falarmos de identidade, convém estabelecermos uma definição para esse conceito. Segundo o que consta no dicionário Aurélio, identidade é o conjunto de caracteres próprios e exclusivos de uma pessoa como nome, idade, sexo, estado civil, filiação etc., contudo percebemos que essa é uma definição bem restrita e singela, pois o conceito de identidade “[...] é demasiadamente complexo, muito pouco desenvolvido e muito pouco compreendido na ciência social contemporânea [...]” (HALL, 2002, p.09), contudo percebe-se que essa definição nos faz perceber que identidade seria tudo aquilo que faz com que consigamos nos definir enquanto sujeitos.

Trazendo essa problemática para o âmbito da discussão acerca dos povos indígenas e em específico sobre os povos ressurgidos, ou seja, aqueles que foram dados como extintos pelos órgãos oficiais e tempos depois reaparecem, nota-se que a questão do reconhecimento da identidade torna-se algo importantíssimo. Os “índios” ressurgidos em sua totalidade passaram por processos de expulsão de suas terras, como é o caso dos Puruborá, e consequentemente tornaram-se vítimas de exclusão social, tendo inclusive de se adaptarem aos modos de vida dos não indígenas para sobreviver e, é nesse contexto que após ressurgirem, muitas vezes, veem sua identidade indígena questionada.

Isso tudo acontece porque ainda predomina no ideário nacional a ideia de que o “índio” para ser considerado “puro” tem que viver na floresta, falar apenas a língua materna, usar somente trajes exóticos e viver somente embasados em seus costumes. Contudo, tendo em vista que a maior característica do Brasil é a miscigenação de seu povo e o histórico dos povos indígenas em nossa sociedade, nota-se a necessidade de se desmistificar a visão acerca do “índio”, pois como afirma Barboza (2012) no Brasil existem índios que só falam o português, que se vestem de forma idêntica as populações regionais e que nem por isso deixaram de ser indígenas.

Hall (2002) traz importantes reflexões acerca da identidade cultural. O autor problematiza as concepções de identidade do sujeito do iluminismo, do sujeito sociológico e do sujeito pós-moderno. Para a concepção de sujeito iluminista a pessoa humana seria um indivíduo totalmente centrado e unificado provido de razão, consciência e poder de ação sendo que o centro de tudo isso consistia num núcleo interior inato. Já a concepção de identidade do sujeito sociológico não nega a existência de um núcleo ou essência interior, mas considera que a identidade é formada através da interação do “eu real” com a sociedade. Finalmente a concepção de identidade do sujeito pós-moderno afirma que não há uma identidade fixa, essencial ou permanente. Acerca da identidade do sujeito pós-moderno, o autor relata que:

 

A identidade torna-se uma ‘celebração móvel’: formada e transformada continuamente em relação às formas pelas quais somos representados ou interpelados [...]. O sujeito assume identidades diferentes em diferentes momentos, identidades que não são unificadas ao redor de um ‘eu” coerente. Dentro de nós há identidades contraditórias empurrando em diferentes direções, [...]. Se sentimos que temos uma identidade unificada desde o nascimento até a morte é porque construímos uma cômoda estória sobre nós mesmos [...]. A identidade plenamente unificada, completa, segura, coerente é uma fantasia. (HALL, 2002, p.13)

 

 Mesmo estando em contato com outra cultura que não a sua e assimilando aspectos desta, nada impede que os indígenas mesmo “misturados” assumam sua identidade étnica, o que segundo Emmi (2007) é um aspecto positivo, uma vez que o critério principal utilizado para a Antropologia é a auto identificação e ser identificado pelos/as demais, e, por isso, os “índios” aldeados e desaldeados, os residentes nos campos e nas cidades, os resistentes e os isolados são incluídos.

 

3. Considerações que não são finais

 

No decorrer do presente artigo foi possível refletir acerca da história brasileira e os povos indígenas e como ela possui uma visão unilateral em relação aos estes povos, ao repercutir a visão do dominante, do colonizador. Por meio desta visão unilateral e oficial[§§] não é possível visualizar a história contada pelos povos indígenas no Brasil.

Entretanto, houve um crescimento das pesquisas que buscam ouvir a história dos indígenas, entre eles, os que foram utilizados na revisão bibliográfica no presente artigo (AMORIM, 2003; GALÚCIO, 2005; PORTELA, 2006; ALBUQUERQUE, 2012; BARBOZA, 2012). Consideramos este acontecimento como de grande importância na luta contra os preconceitos e estereótipos em relação aos indígenas.

Vale ressaltar ainda que pesquisar os povos indígenas negando a mistura ocorrida entre povos indígenas e povos indígenas, povos indígenas e não indígenas é negar todo o processo histórico ocorrido em nossa história, reforçando uma história de invisibilidade e as relações conflituosas entre os indígenas e não indígenas. Desta forma, é indispensável pensar nesta mistura e a relação que existem entre ela e a “ressurgência” de alguns “índios” no Brasil e como ambas contribuem na busca pelo reconhecimento da identidade deles.

Em particular, buscamos a partir destas e de outras reflexões e ações realizadas no decorrer dos projetos acima citados, contribuirmos com a luta dos Puruborá pela demarcação do seu território e re/construção de sua identidade, através do resgate e revitalização de sua cultura: das histórias, das memórias, das músicas, rituais, enfim, das experiências de vida deste povo.

 

Referências 

ALBUQUERQUE, Manuel Coelho. Pelos direitos de ser índio: artes e atitudes educativas. I Encontro Internacional de Direitos Culturais. Universidade de Fortaleza, n. 1, 2012. Disponível em: http://www.direitosculturais.com.br/ojs/index.php/articles/article/view/77/62. Acesso em: 10 out. 2013.

 

AMORIM, Siloé Soares de. indios Ressurgidos: A construção da auto-imagem- Os Tumbalalá, os Kalankó,os Karuazu, os Catókinn e os Koiupanká. Campinas, SP, 2003, Dissertação (Mestrado), Universidade Estadual de Campinas.

 

BARBOZA, José Joaci. Puruborá: narrativas de um povo ressurgido na Amazônia. In: XI Encontro Nacional de História Oral, Rio de Janeiro, 2012, Instituto de Filosofia e Ciências Sociais/Instituto de História da Universidade Federal do Rio de Janeiro. Disponível em: http://www.encontro2012.historiaoral.org.br/resources/anais/3/1339991713_ARQUIVO_PuruboraNarrativasdeumPovoRessurgidonaAmazonia.pdf. Acesso em: 12 ago. 2013.

 

BOCK, Ana Mercês Bahia. As influências do Barão de Münchhausen na Psicologia da Educação. In: TANAMACHI, E.; PROENÇA, M.; ROCHA, M. Psicologia e Educação: desafios teórico-práticos. 2. ed. São Paulo: Casa do Psicólogo, 2002, p. 11-33.

FREIRE, Paulo. Pedagogia da indignação: cartas pedagógicas e outros escritos. São Paulo: Editora UNESP, 2000.

 

EMMI, Marília Ferreira. Minorias Étnicas na Amazônia: Índios e negros no.processo de construção de identidades de resistência. Disponível em: <https://www.google.com.br/search?q=MINORIAS+%C3%89TNICAS+NA+AMAZ%C3%94NIA%3A+%C3%8DNDIOS+E+NEGROS+NO+PROCESSO+DE+CONSTRU%C3%87%C3%83O+DE+IDENTIDADE+DE+RESIST%C3%8ANCIA&rlz=1C1RNLG_>. Acesso em: 29 out. 2013.

 

GALÚCIO, Ana Vilacy. Puruborá: notas etnográficas e lingüísticas recentes. Boletim do Museu Paraense Emílio Goeldi. Série Ciências Humanas, Belém, v. 1, n. 2, p. 159-192, maio-ago. 2005. Disponível em: http://repositorio.museu-goeldi.br/jspui/bitstream/123456789/700/1/B%20MPEG%20C%20Hum%201%282%29%202005%20GALUCIO.PDF. Acesso em: 10 out. 2013

 

PORTELA, Cristiane de Assis. Nem Ressurgidos, nem emergentes: A resistência histórica dos Karajá de Buridina em Aruanã-GO (1980-2006). Goiânia, 2006, Dissertação (Mestrado), Faculdade de Ciências Humanas e Filosofia, Universidade Federal de Goiás.

 

HALL, Stuart. A identidade cultural na pós-modernidade. Tradução de Tomaz Tadeu da Silva, Guaracira Lopes Louro. 7ª ed. Rio de Janeiro: DP&A, 2002.

 

[*] Mestranda em Psicologia pela Fundação Universidade Federal de Rondônia (UNIR), Campus de Porto Velho, graduada em Pedagogia pela Fundação Universidade Federal de Rondônia (UNIR), Campus de Ji-Paraná e estudante do Grupo Amazônico de Estudos e Pesquisas em Psicologia e Educação (GAEPPE) e Grupo de Pesquisa de Educação na Amazônia (GPEA).

[†] Graduada em Pedagogia pela Fundação Universidade Federal de Rondônia (UNIR), professora da rede municipal de Ji-Paraná/RO e participante do Grupo de Pesquisa de Educação na Amazônia (GPEA). E-mail: claudineia_brittoopo@hotmail.com.

[‡] Professor do Departamento de Educação Intercultural da Fundação Universidade Federal de Rondônia (UNIR), Campus de Ji-Paraná e pesquisador associado ao Grupo de Pesquisa de Educação na Amazônia (GPEA). E-mail: joacijb@unir.br.

[§] Os Puruborá não possuem sua terra demarcada, onde a área em que os mesmos residem são particulares, distribuídas nos municípios de Costa Marques, Guajará Mirim, Porto Velho, São Miguel do Guaporé e Seringueiras, sendo que eles residem tanto na área urbana, como na área rural (a maioria). Resumindo: Os Puruborá tiveram que adquirir as terras que lhes eram de direito.

[**] Para maiores informações ler GALÚCIO, Ana Vilacy. Puruborá: notas etnográficas e lingüísticas recentes. Boletim do Museu Paraense Emílio Goeldi. Série Ciências Humanas, Belém, v. 1, n. 2, p. 159-192, maio-ago. 2005. Disponível em http://repositorio.museu-goeldi.br/jspui/bitstream/123456789/700/1/B%20MPEG%20C%20Hum%201%282%29%202005%20GALUCIO.PDF. Acesso em: out. 2013.

[††] Publicada no livro Pedagogia da indignação: cartas pedagógicas e outros escritos, 2000.

[‡‡] Para esta autora, na ciência do século XX o homem era visto a partir da ideia de natureza humana, ou seja, possuindo uma essência universal e eterna que o caracteriza desde sua origem, sendo que os estímulos recebidos pelo meio cultural e social contribuíam para “desabrochar” a “semente de homem” que existe em cada um de nós.

[§§] Oficial no sentido de ser a visão dos grupos hegemônicos, sendo aquela que sempre esteve relatada nos livros didáticos do ensino fundamental e do ensino médio, perdurando-se ainda em muitas literaturas do ensino superior.

 

Como citar:
OLIVEIRA, Anatália Daiane de; BRITO, Claudineia Gomes; BARBOZA, José Joaci. Puruborá: indígenas ressurgidos e a construção da identidade. P@rtes (São Paulo), Junho de 2014.

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