O homem que fingia ser bom

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O homem que fingia ser bom

Gilda E. Kluppel

 

 

Gilda E. Kluppel é professora de Matemática do ensino médio em Curitiba/PR, Mestre em Educação pela Universidade Federal do Paraná.

A sensibilidade nunca foi o seu ponto forte, ao contrário, a rudeza dos modos sempre o acompanhou. Gostaria de expressar a sensibilidade, mas era incapaz de sentir o outro, não possuía empatia para isto. Entretanto, considerava bonito e elegante manifestar esse sentimento. Contou a dificuldade para um colega de faculdade, em sua juventude. O colega, citando Maquiavel, aconselhou: “Todos veem aquilo que tu pareces, poucos sentem o que és”. Concluiu que não podia ser o que desejava, então restava fingir.

Assim, seguiu a vida esforçando-se para tentar demonstrar sensibilidade. Convencia alguns por um tempo, porém, as suas atitudes contradiziam as belas palavras utilizadas para se comportar em determinada ocasião. E quando acontecia um imprevisto não conseguia disfarçar a aspereza. Em breve, as meras palavras, sem a ação correspondente, formavam um castelo de cartas sempre prestes a ruir. Irritava-se com o afastamento das pessoas, ao considerar que elas não tinham coração, não se comoviam mais com o seu vocabulário, guardado na memória como uma bula de remédios prescrita para cada ocasião.

Ele chega a fingir que acredita em Deus, frequenta os templos de diversas religiões, procura pessoas capazes de serem convencidas de que é um homem bom. A obstinação em parecer o que acredita não ser e, deste modo, convencer as pessoas, o fazia feliz.

Alterna constantemente o grupo de pessoas, buscando desesperadamente novos contatos. E quando alguém, que não o conhece bem, admira as suas supostas qualidades, ele volta para casa realizado.

Assimilou que um “homem bom” tem amor em seu coração, mas incapaz de sentir, então como amar? Um homem bom não precisa dizer, por várias vezes, às pessoas que tem bondade. Necessitava de uma aparência, uma casca ou verniz para encobrir a sua essência, considerada, por ele, grosseira. Percebeu que a demonstração da sensibilidade cativa as pessoas e facilita a aproximação.

Logo, qualquer lugar torna-se adequado para a sua encenação, a chance de ser reconhecido como um homem bom, não respeita os templos de venerações ou os momentos solenes, nos quais o silêncio vale mais que as palavras bonitinhas.

Pelo uso de uma máscara, tenta parecer mais agradável, ao esconder seus verdadeiros sentimentos, considerados inapropriados. Ocultou-se por tanto tempo e chegou a esquecer do mau que fez a aparência do bom. E de tanto se esconder, confundiu-se com o personagem, ao acreditar piamente que as pessoas o percebiam tal qual a imagem por ele criada.

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