napraiaingles

Margarete Hülsendeger

Quantas vezes a gente, em busca da ventura,

Procede tal e qual o avozinho infeliz:

Em vão, por toda parte, os óculos procura,

Tendo-os na ponta do nariz!

Mario Quintana[1]

Margarete Hülsendeger é Física e Mestre em Educação em Ciências e Matemática/PUCRS. É mestranda em Teoria Literária na PUC-RS

Margarete Hülsendeger é Física e Mestre em Educação em Ciências e Matemática/PUCRS. É mestranda em Teoria Literária na PUC-RS

Um jovem casal em um quarto de hotel na beira da praia. Ambos são virgens e é a noite de sua lua de mel. O dois, em um silêncio constrangido, trocam olhares envergonhados. Sentados em torno de uma mesa, tentam aproveitar o que deveria ser um jantar íntimo, um prelúdio do que viria depois. Na sala ao lado, uma cama de dossel os espreita, sugerindo, fazendo-os pensar na consumação do ato físico que até então havia sido adiado.

O quadro é idílico, uma imagem quase lírica de um amor casto entre dois jovens inexperientes. Seria assim se essa imagem não fosse retirada do livro “Na praia”[2] (em inglês, On Chesil Beach), do escritor inglês Ian McEwan – também conhecido nos meios literários como “Ian Macabro”. Se alguém já teve a oportunidade de ler algum de seus livros a essa altura deve estar suspeitando de que existe algo mais por debaixo dessa cena aparentemente romântica, quase poética. E a suspeita, é claro, acaba se confirmando.

Escrevendo na terceira pessoa, o narrador acompanha a trajetória desses dois jovens – Florence e Edward – desde o momento que se conheceram até a sua chegada a um hotel na costa de Dorset – de onde podia-se ver parte do canal da Mancha e da praia de Chesil – para sua lua-de-mel. Como é comum nas narrativas de McEwan, a utilização do discurso indireto livre – no qual a história é contada a partir da mente das personagens e das suas impressões sobre os fatos e pessoas em torno delas – permite que os pensamentos, sentimentos e percepções de suas personagens estejam completamente abertos ao escrutínio do leitor. Há um movimento constante entre o que se passa na mente do casal e o que ocorre em torno deles.

Estamos nos anos 60, a Grã-Bretanha, a Inglaterra, é uma potência menor e o mundo pertence aos americanos e aos russos. Edward e Florence irão participar pela primeira vez de eleições gerais e, segundo o narrador, “estavam entusiasmados com a ideia de uma vitória esmagadora dos trabalhistas, como a de 1945”. Esse é o contexto histórico no qual McEwan expõe suas personagens, um período de mudanças, não só políticas, mas também sociais. Infelizmente, essas mudanças não atingiram os recém-casados, pois no que se refere a relações pessoais ainda estão presos aos preconceitos da geração que os antecederam.

Assim, fica-se sabendo o quanto Edward está ansioso, nervoso e inseguro. E o que não lhe faltam são motivos para essa insegurança e consequente nervosismo. Afinal, sua primeira e única experiência sexual foi um desastre, pois não sabendo controlar a “excitação excessiva” acabou por “chegar antes da hora”. Uma preocupação tipicamente masculina que McEwan descreve de forma simples, mas comovente, a ponto de torcermos para que Edward consiga não chegar antes da hora, permitindo assim, superar seus temores e ao mesmo tempo proporcionar a Florence – o que ele esperava que fosse – uma experiência inesquecível.

A situação de Florence, no entanto, é totalmente diferente. Ela também está experimentando sentimentos de ansiedade e insegurança, mas reconhece que a fonte dessas emoções é algo diverso do nervosismo que percebe no marido. No início, o leitor chega a pensar que a angústia tem relação com medo da perda de sua virgindade. Um medo que, apesar das leituras de manuais “modernos” para jovens noivas, ela não sabia como colocar em palavras, pois era “inexprimível”. Ela descreve o ato sexual como algo tão palpável como um “enjoo do mar”, que embrulha o seu estômago e lhe dá “engulhos no fundo da garganta”. Do mesmo modo, a descrição do beijo trocado, por sobre a mesa de jantar, com o marido. São vários parágrafos que deixam expostos, como uma ferida aberta, o medo irracional e o nojo que esse gesto tão íntimo causa nela: “Queria [Edward] enredar a língua dela em algum tipo de atividade própria, induzi-la a um abominável dueto mudo, mas ela só conseguia se encolher e se concentrar em não reagir, não ter engulhos e não entrar em pânico”.

Conforme o jantar prossegue, McEwan vai acrescentando mais e mais tensão a esse quadro que, desde o início, já era insuportavelmente tenso. O autor inglês não poupa os leitores dos pensamentos desesperados de Florence sobre o ato que em breve deveria consumar o casamento. Por meio deles sabemos que Florence sempre se sentiu assim em relação a Edward. Ela nunca permitiu alguma carícia mais íntima, pois considerava ser tocada “lá embaixo” como algo repugnante, semelhante a um “procedimento cirúrgico”.

Edward, ao contrário, está ansioso por tocar e ser tocado. Afinal, resistiu a todo o período de namoro e noivado, respeitando os limites que Florence havia demarcado para o seu relacionamento. O máximo que ele havia conseguido foi tocar e beijar os seios de sua amada. Quando um dia puxou a mão dela e a colocou entre suas pernas, Florence de repente ficou “perceptivelmente remota”. No entanto, Edward, romanticamente, acreditava que havia encontrado em Florence a mulher de seus sonhos.

Ambos são jovens cultos, ele com uma graduação com louvor em história pela University College e Florence uma exímia violinista que o encantava com suas maneiras de moça bem educada e, absurdamente, casta. A estranheza do comportamento da namorada, e depois noiva, o surpreendia mas sempre interpretou essas atitudes como vindas de uma jovem que, apesar de ser segura e até fria em outras áreas da sua vida, era extremamente vulnerável quando o assunto era sexo.

Contudo, o autor não deixa dúvidas, Edward ama Florence e Florence ama Edward. O romance centra-se na forma como esse amor pode ser expresso e na pergunta: até que ponto a relação entre um homem e uma mulher pode progredir (ou resistir) sem que haja sexo entre eles? Quem aventurar-se a ler “Na praia” descobrirá como os personagens manejaram essa situação e qual foi a resposta de cada um a essa questão.

Ian McEwan

Ian McEwan

Como é normal nos livros de Ian McEwan, terminamos a leitura nos questionando sobre o que poderia ter sido feito para que um final feliz fosse alcançado. McEwan, no entanto, não é conhecido por finais felizes ou conclusivos. Ao contrário. Em seus livros o ponto final, não significa que a história terminou. Deixar as personagens perguntando-se sobre seus atos e suas consequências é uma maneira de demonstrar que na vida nos defrontamos com situações onde a falta de um encerramento é quase uma regra. Afinal, viver significa experimentar, repetidamente, arrependimentos, interrogando-se com frequência sobre o que poderia ter acontecido se tivéssemos agido de forma diferente. Como reconhece Edward (ou McEwan) no final do livro, “Amor e paciência – se pelo menos ele tivesse conhecido ambos ao mesmo tempo – certamente os teriam ajudado a vencer as dificuldades”. Amor e arrependimento, essas são apenas algumas das emoções (ou temas) que teremos de enfrentar ao lermos “Na Praia”. Uma leitura que recomendo!


[1] QUINTANA, Mario. Quintana de bolso. Porto Alegre: L&PM, 2015.

[2] McEwan, Ian. Na praia. São Paulo: Companhia das Letras, 2007.

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