As moiras do século XXI

AS MOIRAS DO SÉCULO XXI

Margarete Hülsendeger

No sabemos nunca, ante um recién nacido, qué razones para llorar le proporcionará el futuro.

Marguerite Yourcenar

 

Margarete Hülsendeger é Física e Mestre em Educação em Ciências e Matemática/PUCRS. É mestra e doutoranda em Teoria Literária na PUC-RS

Cloto, Láquesis e Átropos, três irmãs que tinham em suas mãos o destino dos deuses e dos homens. Chamadas pelos gregos de Moiras e pelos romanos de Parcas realizavam seu trabalho utilizando a Roda da Fortuna, um tear no qual teciam os fios das vidas dos mortais e imortais. A posição do fio na roda determinava os bons (ponto mais alto) e maus (ponto mais baixo) momentos da vida de cada indivíduo.

A Moira mais temida era Átropos, pois a ela cabia cortar o fio da vida. Já a Cloto pertencia a tarefa de segurar e tecer esse mesmo fio. Láquesis sorteava a cota de tribulações que se ganhava em vida. Tratava-se, portanto, de um verdadeiro trabalho de equipe, no qual estava em jogo a forma como cada pessoa iria viver e, consequentemente, morrer. Como o mundo antigo era determinista o que era decidido pelas Moiras raramente era desfeito, suas decisões tinham o peso da irrevogabilidade.

E, agora, em pleno século XXI, ainda é possível acreditar nas Moiras? Em outras palavras, pode-se continuar acreditando no destino? Ou trata-se apenas de uma ficção e, portanto, somos nós que definimos como será a nossa vida?

Não vou entrar em polêmicas discutindo sobre se o destino existe ou não, mas posso dizer que a ciência de alguma forma está tentando ocupar o espaço das Moiras. Recentemente, foram divulgados os resultados de uma pesquisa sueca cujo objetivo foi determinar se vamos morrer nos próximos anos. Se alguém não acredita, basta acessar site Ubble[1] e irá encontrar o teste utilizado para a coleta dos dados. Esse teste é composto por uma série de perguntas – 13 para os homens e 11 para as mulheres – que, de uma maneira bastante científica, pretende determinar a expectativa de vida para os próximos cinco anos.

Segundo o Centro de Pesquisas UK Biobank, chegou-se a esse número específico de questões após uma pesquisa realizada entre os anos 2007 e 2010, envolvendo meio milhão de pessoas entre 40 e 70 anos. Um detalhe: apesar de o estudo ser sueco, os pesquisados eram todos do Reino Unido. Aqui, no meu entender, surge uma primeira questão: será que os resultados seriam os mesmos se esse questionário fosse realizado no Brasil ou em qualquer outro país?

Mas voltemos aos suecos.

Algumas das perguntas do questionário são bem interessantes. Para os homens, por exemplo, perguntar “Quantos carros você tem?”, influencia no resultado final, pois homens com muitos carros têm boas condições financeiras e, portanto, melhores chances de não morrer nos próximos cinco anos. Já perguntar “Como você descreveria o ritmo da sua passada?”, permite avaliar se a pessoa é saudável, porque é um indício de que ela realiza exercícios e está em forma. Entre homens e mulheres que não têm nenhuma doença grave ou algum tipo de transtorno o fator predominante de risco de morte foi determinado pela pergunta, “Você é fumante?”. Obviamente, a expectativa de vida caiu para aqueles que admitiram serem fumantes.

Os cientistas suecos, além do questionário, desenvolveram um critério para dizer a “idade Ubble” dos que fizerem o teste. Assim, se ela for maior do que a idade real da pessoa isso significa que é preciso, com urgência, melhorar as suas condições de vida. E, nesse caso, as opções são aquelas que todos já conhecemos: parar de fumar, fazer exercícios, manter uma alimentação saudável, beber moderadamente…

Não temos mais as Moiras, mas temos os suecos e a sua pesquisa. No entanto, existe uma diferença entre eles: com as Moiras não havia negociação, o destino era para ser cumprido e nada que fizéssemos mudaria o que estava determinado. Os suecos são mais modestos em seu vaticínio. Um dos responsáveis pelo estudo fez a ressalva de que mesmo os resultados tendo 80% de confiabilidade, não se deve tomá-los como uma “certeza absoluta”. Aliás, nesse sentido a ciência moderna está bem distante dos mitos da antiguidade. Não existem mais certezas, mas possibilidades. A vida não é constituída de um único fio, mas de vários, e nossa existência dependerá da forma como nós iremos entrelaçá-los.

E antes que alguém pergunte, a resposta é não. Não respondi o questionário. Motivo? Acredito no velho ditado espanhol: “Yo no creo en brujas, pero que las hay, las hay”. Portanto, prefiro não brincar com as Moiras.

[1] http://www.ukbiobank.ac.uk/

 

HÜLSENDEGER, Margarete Jesusa Varela Centeno . AS MOIRAS DO SÉCULO XXI. REVISTA VIRTUAL PARTES, SÃO PAULO, 07 jul. 2015.

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