Resistir sempre

RESISTIR SEMPRE

Margarete Hülsendeger

 

Minha memória é composta de fragmentos de existência, estáticos e eternos: o tempo não passa entre eles, e coisas que aconteceram em épocas muito distantes entre si estão juntas, ligadas ou reunidas por estranhas antipatias e simpatias.

Ernesto Sabato (2008, p. 24)

Margarete Hülsendeger é Física e Mestre em Educação em Ciências e Matemática/PUCRS. É mestra e doutoranda em Teoria Literária na PUC-RS

No dia 30 de abril de 2011, quando estava a dois meses de completar cem anos, morria na cidade de Santos Lugares, na Argentina, aquele que é considerado um dos maiores escritores argentinos de século XX, Ernesto Sabato. Antes da notícia de sua morte, confesso, nunca havia lido nenhum livro dele. Aliás, se é para ir mais longe na minha confissão, nunca sequer ouvira falar em Sabato.

No entanto, quando li, por ocasião de sua morte, um longo artigo sobre sua vida e soube que, antes de assumir-se como escritor e pintor, fora físico, meu interesse despertou automaticamente. Busquei, então, livros de sua autoria e, da lista que encontrei, escolhi ler O túnel, uma de suas primeiras obras, escrita em 1948. Esse livro tem suas raízes em uma corrente filosófica chamada existencialismo, na qual o ponto de partida do indivíduo é caracterizado por um permanente sentimento de desorientação diante de um mundo sem sentido. Assim, em O túnel vamos encontrar uma história em que os personagens se apresentam sempre envoltos em um clima de depressão profunda, com dificuldades de exteriorizar seus sentimentos e compreender o mundo que os rodeia.

Ultima confissão: não estava preparada para ler essa obra! E o resultado foi o esperado: apesar de lê-lo até o fim, não consegui compreender o sentido por detrás da história ou, como diria o escritor turco Orhan Pamuk, não pude encontrar o “centro” da narrativa.

Agora, quatro anos depois, retornei a Ernesto Sabato, mas dessa vez procurando um livro que me ajudasse a compreender melhor o seu trabalho. Decidi começar pelo fim, escolhendo algo que ele tivesse escrito na sua maturidade. A obra escolhida foi A resistência[1], escrita em 2000, quando ele já contava com 89 anos.

O livro é escrito na forma de cartas (seis, se contarmos o epílogo) nas quais faz uma reflexão sobre os mais variados assuntos: a sociedade de consumo, a tecnologia, as relações pessoais, a educação, a literatura, a infância e tantos outros assuntos que vão se intercalando conforme a narrativa prossegue. Não se trata, portanto, de um romance, mas de textos (ou ensaios) independentes que nos dão um vislumbre das ideias do homem e do escritor.

Para o leitor menos atento, alguns dos textos poderão parecer datados e até mesmo ultrapassados; mas, se apenas substituirmos algumas das expressões utilizadas pelo autor, eles se tornam extremamente contemporâneos. Isso ocorre, por exemplo, na “Primeira Carta”, chamada “O pequeno e o grande”. Nela Sabato fala da televisão como uma forma de anestesia: “Tenho dito em muitas entrevistas, em tom de ironia, que ‘a televisão é o ópio do povo’, alterando a famosa frase de Marx” (p. 14-15). Se “televisão” for substituída pela palavra “internet”, você irá perceber que o sentido permanece o mesmo, principalmente se concluirmos o parágrafo: “estamos ficando entorpecidos diante da tela [do computador], e mesmo quando não encontramos nada do que procuramos, continuamos lá, incapazes de nos levantar e ir fazer algo de bom” (p. 15). É interessante lembrar que no ano em que o livro foi escrito o uso da internet ainda não era tão massivo como é hoje; logo, não é estranho que, nessa época, Sabato esteja mais preocupado com os efeitos da televisão, vendo-a como uma ferramenta de alienação e entorpecimento intelectual.

Outro assunto que o escritor argentino, nessa primeira carta, preocupa-se em abordar é a questão das relações humanas. Para ele, a sociedade moderna estaria possuída por uma compulsão de produzir o que a faria desdenhar das coisas mais simples da vida: “estamos perdendo a capacidade de parar por alguns minutos diante de uma xícara de café pela manhã, ou de um mate compartilhado” (p. 18). Essa necessidade de sermos produtores nos impediria, segundo Sabato, de vivenciar as relações de forma mais profunda e aos poucos uma espécie de autismo estaria se espalhando entre os homens.

Apesar de ter sido físico, em algum momento entre o final da década de 1930 e início da de 1940, ele se decepcionou de tal maneira com a ciência que decidiu abandonar seu trabalho como pesquisador e professor universitário para dedicar-se à literatura e à pintura. Indícios dos motivos que o levaram a essa decisão aparecem em vários trechos das “Cartas”. Assim, na “Segunda Carta”, intitulada “Os antigos valores”, Sabato critica a supervalorização do racional, pois ela desprezou tudo o que a lógica não conseguia explicar. Para ele, a técnica pode ter desenvolvido a inteligência operacional e as habilidades práticas e utilitárias do ser humano, mas também atrofiou capacidades profundas da alma, como os afetos, a imaginação, o instinto e a intuição. Segundo o escritor argentino, a incapacidade dos discursos filosóficos, teológicos e científicos em responder as grandes questões que há séculos atormentam a humanidade provava que a “condição última do homem é transcendente e, por isso, misteriosa, inapreensível” (p. 43).

Na “Terceira Carta” ou “Entre o bem e o mal” ele discute a ambiguidade que está sempre presente na natureza humana e defende uma educação que consiga estabelecer um equilíbrio entre a busca do sucesso individual e o trabalho em equipe. Nesse ensaio, no entanto, ele também reconhece que foi essa ambiguidade, própria da natureza humana, o elemento decisivo para que a literatura entrasse em sua vida, pois é a “melancolia ante o efêmero e o precário” (p. 60) que impulsiona a escrita de um romance onde os personagens são naturalmente ambíguos.

Em “Os valores comunitários”, a “Quarta Carta”, Sabato foca na importância da democracia e na necessidade de educarmos as crianças tendo como base valores que lhes permitiam distinguir entre o bandido e o herói. Segundo ele, a mentira tornou-se tão poderosa que nada mais é capaz de detê-la e isso impulsionaria as pessoas à violência. Na “Quinta Carta”, aquela que dá nome ao livro, o escritor argentino discute a velocidade com a qual os eventos se sucedem, uma velocidade que impede o homem de refletir e o arrasta, como se fosse um autômato, tornando o diálogo impossível.

A última parte do livro não é uma carta, ou pelo menos não tem esse nome, é o “Epílogo” ou “A decisão e a morte”. Depois de refletir sobre tantos temas, Sabato pensa na sua própria vida e, é claro, na proximidade da morte. Ele fala em destino e em momentos decisivos quando homens e povos precisam escolher que caminho seguir. Para ele, a vida humana, assim como as culturas, atravessa períodos de ascensão e declínio, períodos que são intercalados por horas de sofrimento e alegria. E mesmo reconhecendo que muitas vezes acreditou ser este “um tempo final”, aceitou também que a vida tem uma capacidade extraordinária de encontrar brechas, “superando tudo o que podemos pensar sobre ela” (p. 101).

A resistência é um livro pequeno, apenas 105 páginas, mas de uma profundidade impressionante. Alguns poderão pensar que um homem com quase 90 anos (sua idade quando escreveu o livro) não tenha muito mais a dizer. Quem pensa assim não poderia estar mais equivocado. Ernesto Sabato em sua longa vida foi testemunha de eventos igualmente perturbadores e maravilhosos, A resistência é uma prova disso. Portanto, não é de surpreender que no último parágrafo o autor admita ter esquecido grandes trechos da sua vida, mas, em compensação, em suas mãos ainda palpitam os encontros, os momentos de perigo e o nome daqueles que o resgataram das depressões e amarguras (p. 105). Por tudo isso e muito mais, A resistência é uma leitura que recomendo!

[1] SABATO, Ernesto. A resistência. Companhia das Letras: São Paulo, 2008.

HÜLSENDEGER, Margarete Jesusa Varela Centeno . RESISTR SEMPRE. REVISTA VIRTUAL PARTES, SÃO PAULO, 07 set. 2015

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