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“Escolas de valor” – bons exemplos a serem seguidos?

Juliana Maria Costa Fecher Winter*

Resumo

O presente artigo pretende analisar o que se entende sobre “escolas de valor”, se podem ser consideradas como bons exemplos para educação pública brasileira. Estas escolas fazem parte de um projeto de relatos reconhecidos pelo trabalho de transformação dos alunos, da comunidade, conseguindo vencer os obstáculos muitas vezes considerados intransponíveis, como: evasão escolar, instalações precárias, violência, criminalidade. O texto pretende analisar aspectos comuns e particulares de cada escola, buscando entender se estes bons exemplos são viáveis de serem seguidos por outras escolas públicas. É preciso entender qual é o valor da educação, o papel da escola frente aos processos econômicos e políticos que vivemos atualmente, para podermos concluir, de fato, o que pode ser considerado como escolas de valor.

Palavras-chave: Papel da escola, Valores, Educação pública, IDEB.

 

Schools value-good – good examples to be followed?

Abstract
The present article intends to analyze what you understand about schools value, if it can be considered good examples to public school education. These kinds of schools are part of a project about how you can transform students, the community, being able to overcome obstacles sometimes considered insurmountable, like school dropout, poor facilities, violence, and criminality.

The text intends to analyze common and private aspects of every school, trying to understand if those good examples are viable to be followed by other public schools. You need to figure out if this kind of education worth, how the school takes part in the politic and economic matters actually, so we can really conclude, in fact, what can be considered schools value.

Keywords: Role of the school. Values. Public education. IDEB.

Introdução

Pode a escola pública oferecer uma educação de valor apesar das dificuldades? Esta é uma questão muito atual nas discussões acadêmicas e escolares. A falta de credibilidade das escolas tem impulsionado famílias a adotarem nos Estados Unidos o homeschooling, o ensino em casa, que vem causando polêmica. A legislação brasileira não aprova, mas ao mesmo tempo abre brechas, e as famílias lutam pelo seu direito da autonomia no ensino dos filhos.

Mas o que leva os pais a optarem pelo ensino dentro de casa? Em muitos casos a resposta é a falta de qualidade das escolas, tanto públicas quanto particulares.

Diante de tantas dificuldades, o valor da escola é questionado. Qual seu papel na sociedade atual? Para que serve? O objetivo deste artigo é buscar e analisar estas questões, e ainda, apresentar experiências de seis “escolas de valor”, buscando compreender se podem mesmo ser consideradas bons exemplos para educação pública.

Para que serve a escola?

Buscar uma única resposta não é possível, então pretendo ancorar alguns pensamentos que vão ao encontro desta questão. Para Foucault (1977), as escolas são como instituições que servem para vigiar e controlar, como eram também os hospitais, prisões e asilos, que disciplinavam alunos e normatizavam o conhecimento em forma de disciplinas escolares.

As primeiras escolas foram construídas com o modelo arquitetônico das prisões para ser possível vigiar e controlar. Hoje, mesmo com a arquitetura moderna, as escolas continuam com ambiente favorável às práticas de vigilância. Suas arquiteturas facilitam essas práticas porque são planejadas com aberturas, transparências, vazios, passagens.

Um exemplo de vigilância está no uso de câmeras, que remete à visão que tudo se vê sem ser visto. Na escola, o estudante, o professor, o secretário não sabem que estão sendo vigiados, porém há sempre uma forma de justificar o uso deste tipo de equipamento, principalmente quando se trata de segurança.

Foucault também fala que em todas as vigilâncias, há ainda uma série de controles. Na escola, a cada fim de semestre, é feito o conselho de classe, instrumento que analisa a produtividade do alunado e controla a aprendizagem. Quando ocorre algum problema com aluno, a família é chamada para ouvir sugestões de soluções. O papel do professor neste momento é classificar o aluno individualmente de acordo com seu rendimento. O conselho de classe, portanto, é um instrumento administrativo e político que individualiza os corpos, os diagnósticos, os tratamentos. Portanto, para Foucault a escola serve para vigiar e controlar os indivíduos.

Entre os mais críticos, a respeito do papel da escola, está Ivan Illich quando afirma que só seria possível haver o verdadeiro aprendizado, se as escolas fossem todas abolidas.

Não é possível uma educação universal através da escola. Seria mais factível se fosse tentada por outras instituições, seguindo o estilo das escolas atuais. Nem as novas atitudes dos professores em relação aos alunos, nem a proliferação de práticas educacionais rígidas ou permissivas (na escola ou no quarto de dormir) , nem a tentativa de prolongar a responsabilidade do pedagogo até absorver a própria existência de seus alunos vai conseguir a educação universal. A atual procura de novas saídas educacionais deve virar procura de seu inverso institucional: a teia educacional que aumenta a oportunidade de cada um de transformar todo instante de sua vida num instante de aprendizado, de participação, de cuidado. (Illich, 1971, p.14)

Segundo Illich, a maior parte dos conhecimentos úteis se aprendia fora da escola, em contato com as realidades familiares, sociopolíticas e culturais. O autor afirma que uma boa planificação da instrução deveria ter três objetivos: o primeiro seria que todos os interessados em aprender deveriam ter acesso a todos os meios de aprendizagem disponíveis. O segundo está ligado à troca de saber, quem quisesse transmitir o seu saber deveria poder encontrar-se com outros que quisessem aprender alguma coisa. O terceiro está ligado a demonstrar publicamente o resultado de seu estudo e deveria ter ocasião e oportunidade de fazer.

Buscando o equilíbrio entre os teóricos acima, Michael Young apresenta  sua análise sobre o papel da escola como legitimadora de um “conhecimento poderoso” e explica:

“alguns tipos de conhecimento são mais valiosos que outros, e as diferenças formam a base para a diferenciação entre conhecimento curricular ou escolar e conhecimento não-escolar e que podem capacitar jovens a adquirir o conhecimento que, para a maioria deles, não pode ser adquirido em casa ou em sua comunidade. O conhecimento pode fornecer explicações confiáveis ou novas formas de se pensar a respeito do mundo. É isso que os pais esperam, mesmo que às vezes inconscientemente, ao fazerem sacrifícios para manter seus filhos na escola. Esperam que eles adquiram o conhecimento poderoso, que não é disponível em casa” (YOUNG, 2007, p.53)

Como é possível confiar nossos filhos às escolas públicas se estas não são capazes de gestar qualidade ou conhecimento poderoso? Por isso, alguns pais acreditam que fornecendo ensino em casa estarão cumprindo com este dever. Diante de dicotomias a respeito do papel da escola, não é difícil entender o porquê desta instituição estar perdendo o seu valor.

Para o autor de “O fim da educação: redefinindo o valor da escola”, Neil Postman, a função da escola é criar um público que servirá a determinados propósitos: alimentar o ciclo econômico e político por meio do trabalho, perpetuar os valores culturais por meio da linguagem e dos costumes sociais. O autor defende a ideia que poderia haver uma melhora na qualidade do ensino através de uma nova postura por parte dos professores.

“Poderíamos melhorar a qualidade do ensino da noite para o dia, por assim dizer, se os professores de matemática fossem incumbidos de ensinar arte, os professores de arte de ensinar ciência, os professores de ciência inglês. Meu raciocínio é este. A maioria dos professores (…) ensina matérias em que eram bons na escola. Achavam a matéria fácil e prazerosa. Consequentemente, é provável que não entendam como a matéria aparece para aqueles que não são bons nela, ou não se interessam por ela, ou as duas coisas. Se, digamos, durante um semestre, cada professor se encarregasse de uma matéria que odiasse, ou com que sempre tivesse tido dificuldade, seria forçado a ver a situação como a maioria dos estudantes.Ao ver,  perceberia as coisas mais como um novo aluno do que como um velho professor.” (POSTMAN, 2002, p.114)

Vera Werneck, em seu livro “Educação e Sensibilidade” aponta como principal “causa” da crise da educação no Brasil outra crise: a dos valores, da ética e da moral. Segundo esse ponto de vista, as instituições sociais, como a escola, e a própria sociedade, são alvo de uma crise dos valores na sociedade brasileira.

  

A escolha das “escolas de valor”.

Para compreender o valor da escola é preciso entender o que é valor. Admitindo-se como “valor” aquilo, que, de algum modo, vale para o homem, aquilo do que é carente, aquilo que satisfaz  a sua necessidade, que preenche sua falta (Werneck 2003).

O termo valor foi empregado para classificar o que valia do ponto de vista econômico. Mais tarde, passou a ser utilizado para o que vale para homem, como exemplo: o bem moral, o belo, o verdadeiro, o sagrado, a saúde entre outros.

As seis experiências de escolas públicas brasileiras, apresentadas neste artigo, fazem parte um livro denominado “Escolas de Valor” que tem como objetivo divulgar os modelos de gestão escolar bem-sucedidos em que seu maior capital é o ser humano. O responsável pela criação do livro é a Fundação Santillana. A obra deu origem a exposições e oficinas em vários estados brasileiros.

Além do livro surgiu também o projeto do website “Escolas de Valor”. Com os relatos dos casos de escolas cujo Índice de Desenvolvimento da Educação Básica (IDEB) é igual ou acima da atual média nacional (4,2) e que apresentem evolução no índice, serão reunidos mais exemplos de gestões que transformaram alunos, professores e a comunidade, formando um banco para serem partilhadas com instituições de ensino de todo o Brasil.

Este projeto conta iniciativa e o apoio da Fundação Santillana, Conselho Nacional de Secretários de Educação (Consed), União Nacional dos Dirigentes Municipais de Educação (Undime), movimento Todos Pela Educação e Editora Moderna, e está alinhada com os princípios do Plano de Desenvolvimento da Educação (PDE), do Ministério da Educação.

Entendendo como  valor  aquilo que satisfaz às necessidades é preciso verificar se, de fato, estas seis experiências podem ser considerados bons exemplos. Além disso, pensar de que forma ocorreu o processo da escolha destes valores? Será que partiu das próprias escolas ou foi atribuída pelos autores do livro?

A escolha dos valores das escolas

“Solidariedade” da Escola Estadual Pedro Santos –  Amazonas

Segundo o livro, a escola Estadual Pedro dos Santos tem como lema a Solidariedade. A grande mudança ocorreu com a chegada de um gestor que reuniu toda a comunidade escolar para saber qual era a escola que queriam ter. Suas ações partiram do que foi decidido em reunião: reforço da merenda escolar, arrumar transporte e criar parcerias com os pais dentro da escola.

O desempenho dos alunos e a participação dos pais nas atividades escolares foram estratégias encontradas para combater o trabalho infantil e a evasão escolar.

As decisões são tomadas em equipe que inclui o administrativo, serviços gerais, merendeiras, professores, mães, pais e alunos. Outra característica que merece destaque é a busca por parcerias para conseguir alimentos, materiais didáticos.

O valor da solidariedade está na conquista da empatia com o estado afetivo do outro, mas essa só é conquista de um estado de equilíbrio em si, porque tal disposição para uma ação virtuosa acontece quando não se deseja nada em troca. É a superação de si, é estar bem consigo para estar e buscar o bem para os outros.

O gestor desta escola acredita na máxima de que é “dando que se recebe”. “Quando você só dá. Está dado, a pessoa ganha e vai embora. Repartindo, ela volta, porque se sente responsável, desenvolve o senso comunitário”.

“Autoestima” do Colégio Estadual Érico Veríssimo – Rio Grande do Sul

O Colégio Estadual Érico Veríssimo localizado no município de Alvorada na região metropolitana de Porto Alegre, possui índices sociais preocupantes, com 17% de seus 200 mil habitantes abaixo da linha da pobreza, até pouco tempo era conhecido apenas pela mais elevada taxa de homicídios no Rio Grande do Sul.

Esta escola pública tem feito a diferença em Alvorada, despertou a autoestima de seus alunos, pais e de sua comunidade e conseguiu reduzir a violência em seu entorno. Com a comunidade participando da gestão compartilhada, deu inicio a uma série de mudanças estruturais e comportamentais – o espaço de recreação – é um exemplo desta conquista, aliado a reformas no prédio e na quadra da escola. As reformas construíram a autoestima de alunos, professores e pais. Há três anos não é preciso pintar as paredes ou trocar as vidraças: todos entenderam que a escola lhes pertence e ela permanece impecável.

A melhor definição de autoestima é ter consciência de seu valor pessoal, acreditar, respeitar e confiar em si.

A autoestima influencia tudo que fazemos, pois é o resultado de tudo que acreditamos ser, por isso o autoconhecimento é de fundamental importância para aumentar a autoestima. Confiar em si mesmo, respeitar seus limites, reconhecer seus valores, expressar seus sentimentos sem medo, sentir-se competente, capaz e se tornar independente da aprovação dos outros, tudo isso faz com que a autoestima se eleve. Mas é um processo gradativo que exige trabalho e conscientização, sendo assim, a escola Estadual Érico Veríssimo necessita de exercício permanente na conquista da autoestima de seus alunos.

“Harmonia” da escola Professora Jandira de Andrade Lima – Pernambuco

A escola Professora Jandira de Andrade Lima, localizada no município Limoeiro, é um antigo centro de educação rural do agreste. Ancorou o valor harmonia para demonstrar que é possível equilibrar o contraste da vida rural com as atividades que a escola oferece: um centro de informática de referência, auditório, laboratório de ciências, aulas de alemão – que começou através de projeto “Correio Brasil-Alemanha” troca de e-mail, cartas, cartões nas aulas de informática que resultou em um intercâmbio de alunos entre Brasil – Alemanha.

Neste caso, a harmonia de Pernambuco está ligada em misturar os opostos: local e global, rural e urbano, tradicional e tecnológico oportunizando uma rica experiência educacional para os alunos.

“Resistência” do Colégio Estadual Maria Anita – Bahia

O Colégio Estadual Maria Anita, localizado em Salvador é um exemplo de resistência quando encontrou uma forma de eliminar a criminalidade dentro e fora da escola, conseguindo evitar a evasão escolar e diminuir a repetência.

O sucesso destas conquistas deve-se às aulas de capoeira, atividades esportivas e presença da comunidade na escola. O empenho em oferecer várias possibilidades de aprendizagem está presente na arte de resistir a “mesmice”, encontrando soluções possíveis para ofertar aos seus alunos uma educação de qualidade – um exemplo disso é a biblioteca que vai até aos alunos, sem espaço para sala de leitura, a escola estabeleceu parcerias e criou a Biblioteca Viva, com 500 volumes e circula sobre rodinhas colocadas em um armário imenso que após suas portas serem abertas totalmente temos estantes para os livros.

O valor da resistência se faz presente na busca de soluções criativas, superando as adversidades de espaços e conquistando a confiança da comunidade em torno da escola.

 

“Perseverança” da escola Ordem e Progresso – Rio de Janeiro

A escola Municipal Ordem e Progresso, localizada no município do Rio de Janeiro, persevera em levar a escola pública como referência em educação de qualidade. Não há evasão escolar, o índice de aproveitamento é de quase 100%, a escola tem lista de espera para o ensino fundamental e precisou aumentar as turmas nos cursos de Educação Infantil.

O sucesso da escola está nos alunos, mas a escola faz a sua parte contribuindo para que os alunos sintam prazer em ficar na escola. Televisão e vídeo em todas as salas de aula, computadores, DVD, copiadoras, impressoras, máquina fotográfica digital fazem parte do acervo dessa instituição que persevera, inserida em uma das metrópoles mais violentas do mundo.

A perseverança é um esforço contínuo. É alcançar o que se propõe e buscar soluções para as dificuldades que podem surgir. É um valor fundamental na vida para obter um resultado concreto. Com perseverança se obtém a fortaleza e isso nos permite não nos deixarmos levar pelo fácil e o cômodo.

“Identidade” da escola Indigena Kumana – Tocantins

A Escola Indígena Kumana, localizada no município de Formoso do Araguaia, conquistou o respeito à identidade de seus alunos. Através de histórias, contadas sob a forma de tradição oral, formou um significativo acervo de importantes fontes de conhecimentos, que somados aos conteúdos curriculares, elevaram o sentimento indianista local, formando alunos conhecedores orgulhosos de uma rica tradição milenar.

As novas gerações de jovens indígenas parecem carentes de uma identidade. Em um mundo cada vez mais global, a recuperação do valor e do significado da identidade indígena, se afirma, como disse um índio bororo certa vez: “É desejo de todo índio entrar e fazer parte da modernidade e seu passaporte primordial é sua tradição”, parece ser esta a razão principal da revalorização da identidade.

As seis “escolas de valor” descritas aqui, podem ser consideradas como bom exemplo para outras escolas, como afirma Salvador (2000, p. 323) os valores orientam o trabalho educativo e marcam a direção em que é preciso progredir, e por essa razão, aparecem nos objetivos de qualquer etapa da educação escolar. Ele exemplifica, citando valores que considera positivos e que podem ser inseridos nos objetivos da educação fundamental como: autonomia, iniciativa, higiene, solidariedade, cooperação, responsabilidade, sensibilidade, tolerância, convivência, respeito e identidade pessoal e nacional. Alguns destes valores encontramos presentes na apresentação das escolas.

Novo critério na escolha das “Escolas de Valor”

A segunda edição do livro “Escolas de Valor” será publicado em 2010 e conta com outras experiências relatadas no site com o mesmo nome do livro, porém desta vez, o critério de seleção é o Índice de Desenvolvimento da Educação Básica (IDEB) igual ou maior que a média nacional, de 4,2. Nesta segunda edição os valores humanísticos ficaram de fora, mas por quê?

O que é IDEB?

Em 2007, foi criado o Índice de Desenvolvimento da Educação Básica (Ideb). O indicador, que mede a qualidade da educação. A partir deste instrumento, o Ministério da Educação traçou metas de desempenho bianuais para cada escola e cada rede até 2022. O novo indicador utilizou na primeira medição dados que foram levantados em 2005.

Ele é calculado com base na taxa de rendimento escolar (aprovação e evasão) e no desempenho dos alunos no SAEB (Sistema Nacional de Avaliação da Educação Básica) e na Prova Brasil. Ou seja, quanto maior for a nota da instituição no teste e quanto menos repetências e desistências ela registrar, melhor será a sua classificação, numa escala de zero a dez.

Os resultados mais recentes apontam, a média de 4,2 para as séries iniciais do Ensino Fundamental, 3,8 para as últimas séries do Ensino Fundamental e 3,5 para o Ensino Médio

Após saber da mudança nos critérios da seleção das “Escolas de Valor”, foi realizada uma pesquisa no site do Ideb, com a intenção de investigar o IDEB das seis escolas. Curiosamente, alguns índices abrem espaços para questionar se de fato estas escolas podem ser considerados bons exemplos.

O IDEB (2009) da Escola Estadual Pedro dos Santos (Solidariedade) é de 4,4 nas séries iniciais e 3,8 nas séries finais. O Colégio Estadual Érico Veríssimo (Autoestima), possui 4,6 nas séries iniciais e finais 3,4. A Escola Prof. Jandira de Andrade Lima (Harmonia), possui realidade parecida nos anos iniciais 4,6 e nos anos finais 3,9. O Colégio Estadual Professora Maria Anita (Resistência) possui nos anos iniciais 4,2 e nos anos finais 3,0. A Escola Ordem e Progresso (Perseverança) é a que apresenta o maior valor 5,8 nos anos iniciais. A Escola Indígena Kumana (Identidade) não possui Ideb.

Analisando o novo critério adotado para a próxima edição do livro e os resultados obtidos em relação ao IDEB das seis “escolas de valor”, é possível questionar se estas escolas poderiam fazer parte da segunda edição do livro.

O valor qualidade reaparece no meio educacional com força total. Mas o que se entende por qualidade escolar?

O que é qualidade?

Os dicionários definem qualidade como o conjunto de propriedades, atributos e condições inerentes a um objeto e que são capazes de distingui-lo de outros similares, classificando-o como igual, melhor ou pior; ou, então, como o atributo que permite aprovar, aceitar ou refutar o objeto com base em um padrão de referência.

O Ideb define como qualidade a aprovação e média de desempenho dos estudantes em língua portuguesa e matemática. O indicador é calculado a partir dos dados sobre aprovação escolar, obtidos no Censo Escolar, e médias de desempenho nas avaliações do Inep, o Saeb e a Prova Brasil.

Carvalho (2001) realizou pesquisa em algumas escolas de São Paulo e concluiu que é necessário questionar o atual mito dos resultados estatísticos, pois a ênfase na competição e no “ranqueamento” das escolas não tem possibilitado a qualidade na educação. Surge, assim, uma série de questões: será que o sucesso da escola pode ser dissociado dos deveres que o poder público deve ter para com ela? A qualidade na escola pública é responsabilidade exclusiva do gestor responsável e de seus professores? Os testes padronizados nas áreas de língua portuguesa e de matemática darão conta de propiciar a escola de qualidade? De acordo com Carvalho (2001) é necessário
ir além dos números amplamente divulgados e dos discursos a respeito de seus significados e buscar como eles vêm sendo produzidos e utilizados no cotidiano das escolas, suas interações com a cultura escolar e seus efeitos sobre a aprendizagem das crianças (p.232)

Para Pedro Demo, a educação é o termo-resumo da qualidade nas áreas social e humana, pois ele entende que não há como chegar à qualidade sem educação. Ressalta, no entanto, que educação é um conceito mais amplo que conhecimento, porque o conhecimento tende a ficar restrito ao aspecto formal da qualidade, enquanto que a educação abrange também a qualidade política. A educação, que supõe qualidade formal e política, exige construção e participação, pois “[…] precisa de anos de estudo, de currículo, de prédios e de equipamentos, mas, sobretudo de bons professores, de gestão criativa e de ambiente construtivo/participativo, sobre tudo de alunos construtivos/participativos”, para se concretizar (DEMO, 2001, p. 21).

Na escala de valores, embora percebesse atualmente, uma super valorização das escolas que apresentam bons resultados no IDEB, não se poder deixar de pensar se somente ele é capaz de responder a qualidade educacional. O valor da educação, segundo (Werneck 2003) é levar o educando a distinguir entre o valor, não-valor e o contra valor e a buscar e apreender o que realmente vale, por corresponder à sua necessidade. Partindo desta lógica, as escolas apresentadas acima podem ser consideradas bons exemplos para educação pública, pois conseguiram preencher necessidades e carências. O grande desafio se encontra em como podemos associar, nas escolas públicas, os valores humanísticos, representados aqui neste artigo pelo relato das seis experiências e o que se espera em termos de desempenho do IDEB.

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  *graduada em Geografia e Mestranda em Educação pela Universidade Católica de Petrópolis, professora de geografia da rede pública de ensino de Petrópolis – Rio de Janeiro. Email: prof.juliana2009@gmail.com

 

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