Humor Política

O CHURRASCO DA REPÚBLICA

Por Caio Luz

A Praça dos Três Poderes é cenário da ressaca da festa da democracia e apresenta personagens peculiares no churrasco da República.
Jair Bolsonaro é o churrasqueiro. Por muitos anos frequentou os eventos em Brasília, mas não era tão notado. Ficou famoso por defender o AI-5 e assumiu o papel de macho alfa, se tornando protagonista nas eleições de 2018 que, segundo ele próprio, foram fraudadas. Tem liderança e bom humor, características necessárias para pilotar a churrasqueira. É daqueles que faz a piada do ‘pavê ou pacomê’ sem medo de ser inconveniente. A última vez que tentou reunir os amigos não deu certo. Na data combinada, o Brasil chegou à marca de 10 mil mortes por culpa de uma gripezinha e, diante da pressão da imprensa, cancelou o encontro.
Os filhos de Jair o ajudam bastante, cada um do seu jeito. Tem o Flávio, que pagou por dois pra poder levar um amigo, o amigo não foi e ele disse não saber onde está o amigo. Tem o Eduardo, que empresta a experiência de quem fritou hambúrguer nos EUA. Tem o Carlos, que narra o evento nas redes sociais, sempre enaltecendo o churrasqueiro. E tem o 04… bem, o 04 já namorou ‘metade do condomínio’ e está na festa só pra aumentar seu currículo.
Todo bom protagonista tem um antagonista. Nesse caso, o famoso ‘fura-linguiça’. Essa figura transgride a hierarquia idealizada pelo churrasqueiro e inadvertidamente se intromete, pega a carne com o garfo sujo de maionese, bagunça a grelha e, claro, fura as linguiças. Na nossa história essa personagem é interpretada pelo ministro do STF, Alexandre de Moraes, que garante que a fama de bom churrasqueiro de Jair é ‘fake news’.
Tem também a turma do pagode, que diziam não ser bem-vinda, mas não falta em um churrasco. Costuma ter preponderância na organização dos eventos da república. Atualmente, só não cuida da segurança, que é feita por milícias. No mais, arrecada o dinheiro pra comprar a carne, cuida dos contratos de locação e limpeza do espaço, influencia na decisão dos acompanhamentos e quer mandar mais que o churrasqueiro. Se posiciona ali, no centrão da celebração. É liderada pelo V.I.P. Rodrigo Maia, que tem direito de reservar um bife especifico na grelha e, dizem, pode acabar com a festa quando quiser.
Outras figuras recorrentes de qualquer churrasco também dão as caras: tem o puxa-saco, que elogia tudo que sai da churrasqueira e, se preciso for, como fez o General Heleno, até carta de apoio escreve; a Carla Zambelli faz o papel de garçom e mantém o copo do Jair sempre cheio; tem o palpiteiro Weintraub, que não entende nada de churrasco, ainda assim, opina todo o tempo e atrapalha sempre; tem o chato Olavo de Carvalho, que acha que todo mundo só está lá por causa dele e reclama de tudo; e o Hélio, que só aparece pra sair nas fotos.
A polêmica do encontro foi o Osmar Terra, que trouxe legumes e verduras, mas o Ricardo Salles não o deixou entrar dizendo que onde passa um boi, passa uma boiada, e veja bem, isso aqui é um churrasco!
O Moro e o Mandetta não foram convidados dessa vez. O Teich foi embora mais cedo.
Os anfitriões, que somos nós, assistimos um ensaio de autoritarismo, não reconhecemos as funções e os limites na atuação de nossas instituições e convivemos com uma democracia bem distante de atender o interesse geral dos cidadãos.

Caio Luz é jornalista.

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