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O FÍSICO

Já tinha ouvido falar do filme “O Físico” (Alemanha, 2013). 

Aviso que o texto a seguir é um spoiler que, em minha opinião, não tira o interesse em assisti-lo. Pelo contrário, escrever sobre ele me deu vontade de voltar a vê-lo. 

Baseado no livro “O Físico: Epopeia de um Médico Medieval”, de Noah Gordon, o filme, ambientado na Inglaterra, trata de um menino que assiste, impotente, sua mãe morrer de “doença do lado” (apendicite aguda), e passa a seguir um curandeiro nômade, numa cruzada de conhecimento que o leva à Pérsia, na busca por ser discípulo do que era considerado o melhor médico de seu tempo: Avicena. 

Rob, o protagonista, consegue frequentar as aulas, tentando esconder sua origem cristã, em terras muçulmanas. 

Sua sede de entender o comportamento do corpo humano e as doenças que o assolam, sobretudo a que causou a morte de sua mãe, o coloca em risco, por tentar ultrapassar os limites religiosos. Mas desperta a atenção de Avicena e do governante local, cujas atitudes liberais eram reprovadas por clérigos fundamentalistas. 

A arte de Avicena e suas aulas também não agradavam esses religiosos, e a chegada e curiosidade de Rob passaram a gerar suspeitas de que um de seus princípios basilares estaria ameaçado: a inviolabilidade de cadáveres. 

Hoje, sabemos a importância da Anatomia, mas eram outros tempos. E mesmo na atualidade, ainda há os que repudiam seus métodos.   

O governante tem sintomas que lembram a “doença do lado”, o que desperta a atenção de Rob, e a simpatia do doente por sua obstinação. 

Mas nem só desse mal sofria o governante: os religiosos queriam sua derrocada. Decididos a tirar-lhe do poder, buscaram o apoio de um líder tribal, prometendo que preparariam o terreno para sua chegada, criando o caos na cidade. Assim fizeram.  

Enquanto isso, a doença do governante ia se agravando. 

Impedido de ir além do que lhe era ensinado, Rob teve a ajuda de um adepto do zoroastrismo, cuja crença negava o enterro ou a cremação, com o moribundo buscando um lugar oculto para morrer, deixando seu corpo à natureza. Ele disse a Rob onde estaria. 

Graças a essa doação – transgressão à moral religiosa dominante – Rob teve acesso às suas vísceras do morto, mas foi descoberto. 

O governante, já em estado grave, permitiu que Rob fizesse nele a cirurgia necessária, que foi bem sucedida. Porém, o exército do líder tribal já estava às portas da cidade, e o governante, sem tempo de se recuperar, partiu para a derrota certa, enquanto a escola de Avicena era destruída, e ele exortava Rob a fugir. 

Vitorioso, o líder tribal foi recebido com boas-vindas pelos religiosos. No entanto, em vez de retribuir-lhes com sorrisos e gratidão pelo acordo cumprido, lhes exibiu olhar ameaçador. Só então, forçados à reverência e submissão, os clérigos entenderam que haviam feito escolha ainda pior. 

Enquanto isso, de volta à Inglaterra, o curandeiro nômade fica sabendo de um físico que voltara do Oriente, e criara um hospital, onde atendiam ricos e pobres, sem distinção. Teve certeza de que era Rob. 

Esse filme, para mim, tem a mesma força poética e estética de “O Nome da Rosa” (Alemanha, Itália e França, 1986), baseado em livro homônimo de Umberto Eco;  e de “Perfume – A História de um Assassino” (Alemanha, França e Espanha, 2006), baseado em obra literária de mesmo título, de Patrick Süskind. 

São três obras com mensagens tão poderosas como atemporais, que extrapolam suas ambientações e cenários. Estão entre os filmes que poderei ver várias vezes, sempre com atenção, prazer e renovada reflexão. 

Adilson Luiz Gonçalves  – Escritor, Engenheiro e Pesquisador Universitário – Membro da Academia Santista de Letras 

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